Dias com árvores: As árvores não sabem nadar

19-12-2009
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Choupos - Abreiro, rio TuaJá aqui falámos da barragem com que o governo e a EDP querem destruir irreversivelmente o vale e a linha do Tua. Os estragos do empreendimento, contudo, não se ficarão por aí. A grande bolha de água estagnada alastrará ainda a afluentes do Tua como o rio Tinhela; na margem esquerda do Tinhela, perto da junção dos dois rios, situam-se as Caldas de Carlão, que foram modernizadas há poucos anos e serão, também elas, inundadas pelas águas da barragem. Do rio Tinhela, e da galeria de freixos que o acompanha [ver abaixo], ficarão apenas a memória e algumas fotos: as árvores, apesar de não serem inertes como são os desenhos gravados na pedra, morrerão por não saberem nadar.«As gravuras não sabem nadar» foi o slogan criado em Vila Nova de Foz Côa, nos idos de 1995, pelos opositores à construção da barragem que iria submergir o valioso núcleo de arte rupestre então recém-descoberto no vale do Côa. A palavra de ordem propagou-se pelo país como incêndio em mato ressequido: marcou uma fronteira clara entre dois campos, e foi bandeira de António Guterres na campanha eleitoral de 95. Empossado como primeiro-ministro em Outubro, anunciou de imediato que a barragem não se faria. As gravuras estavam salvas do afogamento.Agora que o slogan entrou na adolescência, o pequeno mundo português está menos permeável ao idealismo. Embora se anunciem para os próximos anos afogamentos ainda mais graves, pela magnitude dos prejuízos patrimoniais e ambientais, do que o das gravuras do Côa, de pouco adianta reciclar a frase e tentar insuflar-lhe nova vida mediática. O beco sem saída a que chegámos pode traduzir-se numa pergunta: em quem devemos votar para termos um governo que não construa as barragens do Tua e do Sabor? Ou, numa formulação mais geral: dos dois partidos que nos têm governado, qual deles defende que já temos quanto basta de betão e de asfalto, e que é urgente pormos termo à depredação do território?A adopção de chavões ambientalistas pelo discurso político é um verniz que estala logo ao primeiro embate, deixando a descoberto as velhas ideias desenvolvimentistas da nossa perdição. Mas, mesmo que as escolhas políticas actuais pareçam ser entre uma coisa e a sua igual, o alheamento não é uma atitude sensata, e da desistência não podemos esperar qualquer mudança. Pode ser que o clamor daqueles que não se sentem representados no nosso mainstream político obrigue algum dia os partidos a renovarem-se e a diferenciarem-se.É por isso - e também por acreditarmos que uma barragem na foz do Tua é um erro monstruoso - que apoiamos a petição lançada pelo Movimento Cívico pela Linha do Tua. Não falta muito para as assinaturas atingirem as 4000, garantindo-se assim que a petição é discutida no plenário da Assembleia da República.Freixos - rio Tinhela


Choupos - Abreiro, rio TuaJá aqui falámos da barragem com que o governo e a EDP querem destruir irreversivelmente o vale e a linha do Tua. Os estragos do empreendimento, contudo, não se ficarão por aí. A grande bolha de água estagnada alastrará ainda a afluentes do Tua como o rio Tinhela; na margem esquerda do Tinhela, perto da junção dos dois rios, situam-se as Caldas de Carlão, que foram modernizadas há poucos anos e serão, também elas, inundadas pelas águas da barragem. Do rio Tinhela, e da galeria de freixos que o acompanha [ver abaixo], ficarão apenas a memória e algumas fotos: as árvores, apesar de não serem inertes como são os desenhos gravados na pedra, morrerão por não saberem nadar.«As gravuras não sabem nadar» foi o slogan criado em Vila Nova de Foz Côa, nos idos de 1995, pelos opositores à construção da barragem que iria submergir o valioso núcleo de arte rupestre então recém-descoberto no vale do Côa. A palavra de ordem propagou-se pelo país como incêndio em mato ressequido: marcou uma fronteira clara entre dois campos, e foi bandeira de António Guterres na campanha eleitoral de 95. Empossado como primeiro-ministro em Outubro, anunciou de imediato que a barragem não se faria. As gravuras estavam salvas do afogamento.Agora que o slogan entrou na adolescência, o pequeno mundo português está menos permeável ao idealismo. Embora se anunciem para os próximos anos afogamentos ainda mais graves, pela magnitude dos prejuízos patrimoniais e ambientais, do que o das gravuras do Côa, de pouco adianta reciclar a frase e tentar insuflar-lhe nova vida mediática. O beco sem saída a que chegámos pode traduzir-se numa pergunta: em quem devemos votar para termos um governo que não construa as barragens do Tua e do Sabor? Ou, numa formulação mais geral: dos dois partidos que nos têm governado, qual deles defende que já temos quanto basta de betão e de asfalto, e que é urgente pormos termo à depredação do território?A adopção de chavões ambientalistas pelo discurso político é um verniz que estala logo ao primeiro embate, deixando a descoberto as velhas ideias desenvolvimentistas da nossa perdição. Mas, mesmo que as escolhas políticas actuais pareçam ser entre uma coisa e a sua igual, o alheamento não é uma atitude sensata, e da desistência não podemos esperar qualquer mudança. Pode ser que o clamor daqueles que não se sentem representados no nosso mainstream político obrigue algum dia os partidos a renovarem-se e a diferenciarem-se.É por isso - e também por acreditarmos que uma barragem na foz do Tua é um erro monstruoso - que apoiamos a petição lançada pelo Movimento Cívico pela Linha do Tua. Não falta muito para as assinaturas atingirem as 4000, garantindo-se assim que a petição é discutida no plenário da Assembleia da República.Freixos - rio Tinhela

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