XimPi

22-12-2009
marcar artigo


"Namoro"Mandei-lhe uma carta em papel perfumadoe com letra bonita eu disse ela tinhaum sorrir luminoso tão quente e gaiatocomo o sol de Novembro brincandode artista nas acácias floridasespalhando diamantes na fímbria do mare dando calor ao sumo das mangasSua pele macia - era sumaúma...Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosassua pele macia guardava as doçuras do corpo rijotão rijo e tão doce - como o maboque...Seus seios, laranjas - laranjas do Lojeseus dentes... - marfim...Mandei-lhe essa cartae ela disse que não.Mandei-lhe um cartãoque o amigo Maninho tipografou:"Por ti sofre o meu coração"Num canto - SIM, noutro canto - NÃOE ela o canto do NÃO dobrouMandei-lhe um recado pela Zefa do Setepedindo, rogando de joelhos no chãopela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,me desse a ventura do seu namoro...E ela disse que não.Levei á Avo Chica, quimbanda de famaa areia da marca que o seu pé deixoupara que fizesse um feitiço forte e seguroque nela nascesse um amor como o meu...E o feitiço falhou.Esperei-a de tarde, á porta da fabrica,ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,paguei-lhe doces na calçada da Missão,ficamos num banco do largo da Estátua,afaguei-lhe as mãos...falei-lhe de amor... e ela disse que não.Andei barbudo, sujo e descalço,como um mona-ngamba.Procuraram por mim"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"E perdido me deram no morro da Samba.Para me distrairlevaram-me ao baile do Sô Januariomas ela lá estava num canto a rircontando o meu casoas moças mais lindas do Bairro Operário.Tocaram uma rumba - dancei com elae num passo maluco voamos na salaqual uma estrela riscando o céu!E a malta gritou: "Aí Benjamim !"Olhei-a nos olhos - sorriu para mimpedi-lhe um beijo - e ela disse que sim. Viriato da Cruz nasceu em Porto Amboim (Angola), em 25 de Março de 1928, estudou em Luanda e morreu em Pequim (China) em 1973. Foi um dos promotores do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, em 1948, e da revista «Mensagem» que se publicou em Luanda. Foi considerado um dos mais importantes impulsionadores de uma poesia regionalista angolana, nas décadas de 40 e 50. Na década de 60 foi Secretário-Geral do MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola.imagem - Antonio Ferrer Cabello, La Rumba (Rumba), 1997.


"Namoro"Mandei-lhe uma carta em papel perfumadoe com letra bonita eu disse ela tinhaum sorrir luminoso tão quente e gaiatocomo o sol de Novembro brincandode artista nas acácias floridasespalhando diamantes na fímbria do mare dando calor ao sumo das mangasSua pele macia - era sumaúma...Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosassua pele macia guardava as doçuras do corpo rijotão rijo e tão doce - como o maboque...Seus seios, laranjas - laranjas do Lojeseus dentes... - marfim...Mandei-lhe essa cartae ela disse que não.Mandei-lhe um cartãoque o amigo Maninho tipografou:"Por ti sofre o meu coração"Num canto - SIM, noutro canto - NÃOE ela o canto do NÃO dobrouMandei-lhe um recado pela Zefa do Setepedindo, rogando de joelhos no chãopela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,me desse a ventura do seu namoro...E ela disse que não.Levei á Avo Chica, quimbanda de famaa areia da marca que o seu pé deixoupara que fizesse um feitiço forte e seguroque nela nascesse um amor como o meu...E o feitiço falhou.Esperei-a de tarde, á porta da fabrica,ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,paguei-lhe doces na calçada da Missão,ficamos num banco do largo da Estátua,afaguei-lhe as mãos...falei-lhe de amor... e ela disse que não.Andei barbudo, sujo e descalço,como um mona-ngamba.Procuraram por mim"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"E perdido me deram no morro da Samba.Para me distrairlevaram-me ao baile do Sô Januariomas ela lá estava num canto a rircontando o meu casoas moças mais lindas do Bairro Operário.Tocaram uma rumba - dancei com elae num passo maluco voamos na salaqual uma estrela riscando o céu!E a malta gritou: "Aí Benjamim !"Olhei-a nos olhos - sorriu para mimpedi-lhe um beijo - e ela disse que sim. Viriato da Cruz nasceu em Porto Amboim (Angola), em 25 de Março de 1928, estudou em Luanda e morreu em Pequim (China) em 1973. Foi um dos promotores do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, em 1948, e da revista «Mensagem» que se publicou em Luanda. Foi considerado um dos mais importantes impulsionadores de uma poesia regionalista angolana, nas décadas de 40 e 50. Na década de 60 foi Secretário-Geral do MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola.imagem - Antonio Ferrer Cabello, La Rumba (Rumba), 1997.

marcar artigo