Afinal, a encomenda da ópera de Emmanuel Nunes pelo São Carlos teve um mérito: o de assistirmos ao esboço de um debate, tão necesário como sempre adiado, sobre a sacrossanta política de subsídios à criação artística.O Público de hoje lança algumas pistas. Rui Nery e António Pinho Vargas, esse par de grunhos neoliberais, questionam que se faça de uma obra cujo valor só pode ser apreciado (e só foi apreciado...) por meia dúzia de especialistas o ponto alto da temporada lírica nacional. Pinho Vargas recorre a uma imagem demolidora: é como transmitir um jogo de xadrez em directo. Repare-se que não se fala em dinheiro nem em estética. O debate começa muito cá atrás: na política. Deverá fazer parte de uma política cultural, qualquer que ela seja, investir assim no subsídio às vanguardas?A resposta de Mário Vieira de Carvalho, o Secretário de Estado da Cultura politicamente (e, ao que parece, pessoalmente) responsável pela encomenda, é todo um programa. Sim, diz, porque estas iniciativas proporcionam ao grande público "o confronto com o novo". Vale a pena reler estas cinco palavrinhas. Está aqui resumida a essência das políticas culturais dirigistas que temos tido nos últimos anos, com os resultados que se sabem.Vieira de Carvalho esquece que o domínio da apreciação estética é, por excelência, o domínio da liberdade individual. Por que carga de água, seja a água de esquerda ou de direita, deve o Governo usar os nossos impostos para "confrontar" os portugueses "com o novo"? Os portugueses, como seria de esperar, não acorreram propriamente em hordas ao apelo da modernidade dispensado pelo erário público. E isso é um direito que lhes assiste. Se o senhor Secretário de Estado se lembrasse de Steiner ou Tocqueville, outros dois grunhos neoliberais, saberia que o desprezo pela alta cultura é o preço a pagar pela democracia. Um preço que estou disposto a pagar, desde que o Estado forneça os serviços mínimos de salvaguarda do património, incluindo o património musical. Que o Governo não está de modo algum a assegurar. Talvez porque o senhor Secretário de Estado prefira pagar antes o preço de uma ópera. Só para os amigos.
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Afinal, a encomenda da ópera de Emmanuel Nunes pelo São Carlos teve um mérito: o de assistirmos ao esboço de um debate, tão necesário como sempre adiado, sobre a sacrossanta política de subsídios à criação artística.O Público de hoje lança algumas pistas. Rui Nery e António Pinho Vargas, esse par de grunhos neoliberais, questionam que se faça de uma obra cujo valor só pode ser apreciado (e só foi apreciado...) por meia dúzia de especialistas o ponto alto da temporada lírica nacional. Pinho Vargas recorre a uma imagem demolidora: é como transmitir um jogo de xadrez em directo. Repare-se que não se fala em dinheiro nem em estética. O debate começa muito cá atrás: na política. Deverá fazer parte de uma política cultural, qualquer que ela seja, investir assim no subsídio às vanguardas?A resposta de Mário Vieira de Carvalho, o Secretário de Estado da Cultura politicamente (e, ao que parece, pessoalmente) responsável pela encomenda, é todo um programa. Sim, diz, porque estas iniciativas proporcionam ao grande público "o confronto com o novo". Vale a pena reler estas cinco palavrinhas. Está aqui resumida a essência das políticas culturais dirigistas que temos tido nos últimos anos, com os resultados que se sabem.Vieira de Carvalho esquece que o domínio da apreciação estética é, por excelência, o domínio da liberdade individual. Por que carga de água, seja a água de esquerda ou de direita, deve o Governo usar os nossos impostos para "confrontar" os portugueses "com o novo"? Os portugueses, como seria de esperar, não acorreram propriamente em hordas ao apelo da modernidade dispensado pelo erário público. E isso é um direito que lhes assiste. Se o senhor Secretário de Estado se lembrasse de Steiner ou Tocqueville, outros dois grunhos neoliberais, saberia que o desprezo pela alta cultura é o preço a pagar pela democracia. Um preço que estou disposto a pagar, desde que o Estado forneça os serviços mínimos de salvaguarda do património, incluindo o património musical. Que o Governo não está de modo algum a assegurar. Talvez porque o senhor Secretário de Estado prefira pagar antes o preço de uma ópera. Só para os amigos.