Medvedev é o rosto da "modernização das alianças"

23-11-2010
marcar artigo

1. No Verão de 2008, as relações entre a Rússia e a NATO atingiam o grau zero e falava-se em "nova Guerra Fria". Dmitri Medvedev vem agora a Lisboa para uma cimeira com a NATO qualificada como "o fim definitivo do pós-Guerra Fria". O ponto fulcral da sua agenda é a colaboração num dos temas mais conflituais dos últimos anos: a defesa antimísseis.

Moscovo reafirmou o seu "destino natural" de potência dominante no centro da Eurásia e o direito à hegemonia sobre o "estrangeiro próximo", os países saídos da antiga URSS. A agressividade culminou nos cortes de gás à Ucrânia e na guerra da Geórgia, em 2008.

O projecto de integração destes dois países na NATO e a instalação do escudo antimísseis no Leste europeu tornaram-se um abcesso de fixação. Em 2007, em Munique, Putin fez um virulento discurso contra a NATO, avisando que a Rússia tinha meios - e mísseis - para anular o escudo americano.

Duas mudanças marcaram 2009. A crise económica fustigou a Rússia de forma dramática, ilustrando a incompatibilidade entre uma economia dependente do petróleo e os desígnios de grandeza geopolítica. Dentro da "elite", ressurgiu o debate entre "conservadores" e "modernizadores".

Em Fevereiro de 2009, Obama enviou uma "carta secreta" a Medvedev. Era o

Outros factores tinham alterado o quadro: a mudança do poder em Kiev adiou para as calendas gregas a integração da Ucrânia e da Geórgia na NATO; e a revisão da defesa antimísseis evitou a humilhação de Moscovo. Enfim, os russos dão melhor num mundo multipolar.

2. Ao tomar posse, em 2008, Medvedev reafirmou a política de hegemonia no "estrangeiro próximo". Mas definiu, a seguir, uma nova prioridade: a Rússia "precisa de uma modernização especial das alianças" com os EUA e a países ocidentais.

"A modernização é basicamente uma ferramenta para restaurar a posição e o papel da Rússia como uma potência maior", resume o analista russo Dmitri Trenin, do Centro Carnegie de Moscovo. "A modernização da economia e da sociedade russas não pode ser levada a cabo sem a cooperação com o Ocidente", explica outro analista russo, Alexander Rahr.

Uma dimensão permanente da política de Moscovo é o equilíbrio entre Ocidente e Oriente. Tal como os EUA, a Rússia pensa em termos de "triangulação". Consolidou a parceria estratégica com a China, cliente do seu petróleo mas também factor de equilíbrio perante os EUA. Moscovo teme, no entanto, a ascensão chinesa, a que ainda não se adaptou. Como potência europeia e ao mesmo tempo euroasiática, a Rússia quer "ter uma perna na Europa e outra na Ásia", frisa Rahr. Não quer optar entre Oriente e Ocidente, mas manter parcerias com a China e o Ocidente, de forma a garantir a liberdade estratégica.

1. No Verão de 2008, as relações entre a Rússia e a NATO atingiam o grau zero e falava-se em "nova Guerra Fria". Dmitri Medvedev vem agora a Lisboa para uma cimeira com a NATO qualificada como "o fim definitivo do pós-Guerra Fria". O ponto fulcral da sua agenda é a colaboração num dos temas mais conflituais dos últimos anos: a defesa antimísseis.

Moscovo reafirmou o seu "destino natural" de potência dominante no centro da Eurásia e o direito à hegemonia sobre o "estrangeiro próximo", os países saídos da antiga URSS. A agressividade culminou nos cortes de gás à Ucrânia e na guerra da Geórgia, em 2008.

O projecto de integração destes dois países na NATO e a instalação do escudo antimísseis no Leste europeu tornaram-se um abcesso de fixação. Em 2007, em Munique, Putin fez um virulento discurso contra a NATO, avisando que a Rússia tinha meios - e mísseis - para anular o escudo americano.

Duas mudanças marcaram 2009. A crise económica fustigou a Rússia de forma dramática, ilustrando a incompatibilidade entre uma economia dependente do petróleo e os desígnios de grandeza geopolítica. Dentro da "elite", ressurgiu o debate entre "conservadores" e "modernizadores".

Em Fevereiro de 2009, Obama enviou uma "carta secreta" a Medvedev. Era o

Outros factores tinham alterado o quadro: a mudança do poder em Kiev adiou para as calendas gregas a integração da Ucrânia e da Geórgia na NATO; e a revisão da defesa antimísseis evitou a humilhação de Moscovo. Enfim, os russos dão melhor num mundo multipolar.

2. Ao tomar posse, em 2008, Medvedev reafirmou a política de hegemonia no "estrangeiro próximo". Mas definiu, a seguir, uma nova prioridade: a Rússia "precisa de uma modernização especial das alianças" com os EUA e a países ocidentais.

"A modernização é basicamente uma ferramenta para restaurar a posição e o papel da Rússia como uma potência maior", resume o analista russo Dmitri Trenin, do Centro Carnegie de Moscovo. "A modernização da economia e da sociedade russas não pode ser levada a cabo sem a cooperação com o Ocidente", explica outro analista russo, Alexander Rahr.

Uma dimensão permanente da política de Moscovo é o equilíbrio entre Ocidente e Oriente. Tal como os EUA, a Rússia pensa em termos de "triangulação". Consolidou a parceria estratégica com a China, cliente do seu petróleo mas também factor de equilíbrio perante os EUA. Moscovo teme, no entanto, a ascensão chinesa, a que ainda não se adaptou. Como potência europeia e ao mesmo tempo euroasiática, a Rússia quer "ter uma perna na Europa e outra na Ásia", frisa Rahr. Não quer optar entre Oriente e Ocidente, mas manter parcerias com a China e o Ocidente, de forma a garantir a liberdade estratégica.

marcar artigo