Tempo Político: Cavaco contra o Governo, com a ajuda do Bloco

21-01-2011
marcar artigo


E na segunda semana de campanha parecem restar dois candidatos em campo: Cavaco Silva e o Governo de Sócrates. É um combate desigual, com o Governo no ponto talvez mais frágil de sempre. De facto, esta semana, depois da turbulência inicial, Cavaco Silva conseguiu retomar o controlo da agenda das presidenciais. O que funcionou a seu favor? Quase tudo, desde a conjuntura económica e social, os media, e até as acções dos vários protagonistas.Em primeiro lugar, houve o estranho desaparecimento do caso BPN. Sabemos que a comunicação social por natureza lida com o dia-a-dia e que em campanha há sempre "novidades" pelo simples facto dos candidatos andarem pelo País. Mas novidade e notícia não são a mesma coisa. Surpreende por isso a rapidez com que o caso deixou de ser parte do debate político nos principais órgãos de comunicação. Apesar disso, as duas últimas sondagens publicadas no Expresso dão conta de uma queda tanto na popularidade do Presidente, como nas intenções de voto em Cavaco Silva. Talvez o tema da idoneidade dos candidatos não sirva particularmente a nenhum dos partidos que lutam contra o Presidente em exercício. Seja como for, Cavaco Silva conseguiu sair para o contra-ataque. E decidiu ignorar os restantes candidatos. Do seu ponto de vista, fez bem, porque as campanhas negativas que tentam denegrir o carácter de outros candidatos podem virar-se contra aquele que desfere o golpe. Outros se encarregaram desse trabalho sujo, levantando a questão da relação entre Alegre e o BPP. Cavaco Silva redireccionou as baterias da sua campanha contra o Governo: o Presidente da República alertou para o perigo de uma crise política grave no País a curto prazo e para os riscos do endividamento excessivo do País. Mas quase não precisava de fazer nada: estas eleições servem para dar um cartão amarelo ao Governo e as más notícias para o PS sucedem-se a ritmo vertiginoso. O corte nos salários, o aumento do IVA, a gasolina ao preço mais alto de sempre, entre muitas outras notícias, todas negativas para o principal partido que apoia Alegre. Mesmo o facto do primeiro leilão de dívida pública ter sido um êxito foi quase imediatamente neutralizado a partir de declarações feitas por comentadores insuspeitos tal como Paul Krugman. O Prémio Nobel desconstruiu a ideia de sucesso do leilão tendo em conta as proibitivas taxas de juro a que foi vendida a dívida pública.Lembremos também que em 2006, Mário Soares, enquanto candidato presidencial do PS às presidenciais, sofreu uma pesada derrota, num momento em que as medidas e as perspectivas económicas do País eram cor-de-rosa, comparando com a situação económica em 2011. Mas a esquerda tem também muito que se queixar de si própria. Na terça-feira, perante uma manifestação organizada pelos sindicatos para manifestar o desagrado pela austeridade em resultado das políticas do Governo, imediatamente dois representantes dos grupos parlamentares se mostraram solidários com os manifestantes: um do PCP e outra do Bloco de Esquerda. Ainda se compreende que o PCP se tenha solidarizado com o protesto. Mas a três dias de uma eleição em que supostamente têm uma plataforma comum, como é que o Bloco de Esquerda concebe este tipo de apoio àqueles que criticam o governo do PS? E esta é apenas a última de uma série continuada de deslealdades do Bloco de Esquerda para com o partido que é seu parceiro no apoio a Alegre. Em todos os momentos em que tem havido uma crítica ao governo, Louçã e seus colegas não se coíbem. Esta foi a primeira vez que o Bloco de Esquerda e o PS uniram forças para derrotar o candidato de direita a nível nacional. Há quem diga que a união à esquerda se deve fazer gradualmente, com empenho de todas as partes. Mas sinceramente, nesta eleição o Bloco de Esquerda deu mostras de irresponsabilidade continuada perante o seu principal parceiro de coligação eleitoral, o PS. Nunca perdeu uma oportunidade para malhar em Sócrates e no Governo. No meio de todo o ruído próprio de uma campanha em que a bipolarização deveria funcionar, até ao fim, a atitude pouco conciliadora do Bloco de Esquerda mantém-se. Que fique de lição para futuras propostas de entendimento entre o PS e o Bloco de Esquerda. (Do Jornal de Negócios de hoje)


E na segunda semana de campanha parecem restar dois candidatos em campo: Cavaco Silva e o Governo de Sócrates. É um combate desigual, com o Governo no ponto talvez mais frágil de sempre. De facto, esta semana, depois da turbulência inicial, Cavaco Silva conseguiu retomar o controlo da agenda das presidenciais. O que funcionou a seu favor? Quase tudo, desde a conjuntura económica e social, os media, e até as acções dos vários protagonistas.Em primeiro lugar, houve o estranho desaparecimento do caso BPN. Sabemos que a comunicação social por natureza lida com o dia-a-dia e que em campanha há sempre "novidades" pelo simples facto dos candidatos andarem pelo País. Mas novidade e notícia não são a mesma coisa. Surpreende por isso a rapidez com que o caso deixou de ser parte do debate político nos principais órgãos de comunicação. Apesar disso, as duas últimas sondagens publicadas no Expresso dão conta de uma queda tanto na popularidade do Presidente, como nas intenções de voto em Cavaco Silva. Talvez o tema da idoneidade dos candidatos não sirva particularmente a nenhum dos partidos que lutam contra o Presidente em exercício. Seja como for, Cavaco Silva conseguiu sair para o contra-ataque. E decidiu ignorar os restantes candidatos. Do seu ponto de vista, fez bem, porque as campanhas negativas que tentam denegrir o carácter de outros candidatos podem virar-se contra aquele que desfere o golpe. Outros se encarregaram desse trabalho sujo, levantando a questão da relação entre Alegre e o BPP. Cavaco Silva redireccionou as baterias da sua campanha contra o Governo: o Presidente da República alertou para o perigo de uma crise política grave no País a curto prazo e para os riscos do endividamento excessivo do País. Mas quase não precisava de fazer nada: estas eleições servem para dar um cartão amarelo ao Governo e as más notícias para o PS sucedem-se a ritmo vertiginoso. O corte nos salários, o aumento do IVA, a gasolina ao preço mais alto de sempre, entre muitas outras notícias, todas negativas para o principal partido que apoia Alegre. Mesmo o facto do primeiro leilão de dívida pública ter sido um êxito foi quase imediatamente neutralizado a partir de declarações feitas por comentadores insuspeitos tal como Paul Krugman. O Prémio Nobel desconstruiu a ideia de sucesso do leilão tendo em conta as proibitivas taxas de juro a que foi vendida a dívida pública.Lembremos também que em 2006, Mário Soares, enquanto candidato presidencial do PS às presidenciais, sofreu uma pesada derrota, num momento em que as medidas e as perspectivas económicas do País eram cor-de-rosa, comparando com a situação económica em 2011. Mas a esquerda tem também muito que se queixar de si própria. Na terça-feira, perante uma manifestação organizada pelos sindicatos para manifestar o desagrado pela austeridade em resultado das políticas do Governo, imediatamente dois representantes dos grupos parlamentares se mostraram solidários com os manifestantes: um do PCP e outra do Bloco de Esquerda. Ainda se compreende que o PCP se tenha solidarizado com o protesto. Mas a três dias de uma eleição em que supostamente têm uma plataforma comum, como é que o Bloco de Esquerda concebe este tipo de apoio àqueles que criticam o governo do PS? E esta é apenas a última de uma série continuada de deslealdades do Bloco de Esquerda para com o partido que é seu parceiro no apoio a Alegre. Em todos os momentos em que tem havido uma crítica ao governo, Louçã e seus colegas não se coíbem. Esta foi a primeira vez que o Bloco de Esquerda e o PS uniram forças para derrotar o candidato de direita a nível nacional. Há quem diga que a união à esquerda se deve fazer gradualmente, com empenho de todas as partes. Mas sinceramente, nesta eleição o Bloco de Esquerda deu mostras de irresponsabilidade continuada perante o seu principal parceiro de coligação eleitoral, o PS. Nunca perdeu uma oportunidade para malhar em Sócrates e no Governo. No meio de todo o ruído próprio de uma campanha em que a bipolarização deveria funcionar, até ao fim, a atitude pouco conciliadora do Bloco de Esquerda mantém-se. Que fique de lição para futuras propostas de entendimento entre o PS e o Bloco de Esquerda. (Do Jornal de Negócios de hoje)

marcar artigo