Silly silly season
As pessoas andam entretidas a discutir o racismo, as quotas e outras coisas que mostrem o quão virtuosos somos em relação aos outros. Acho engraçado porque é Verão. Temos todos recordações (completamente ficcionais) dos verões passados a discutir à mesa da nossa villa com vista para o Mediterrâneo os méritos de Fellini sobre Bergman no retrato da decadência burguesa, se La Traviata consegue atingir os píncaros cénicos da Turandot e quais as implicações da luta armada da ETA para o estabelecimento de uma mudança de mentalidades rumo à verdadeira luta de classes. Na realidade, tudo o que se passou em verões passados foi estarmos sentados à mesa desdobrável de um apartamento na sexta linha da Praia da Rocha ou de Benidorm a discutir se as gajas alemãs têm mamas grandes por natureza ou se são simplesmente gordas enquanto emborcando mijo a que o fabricante chamou por ironia de cerveja, tudo isso enquanto os miúdos mais novos nos cagavam nos pés por “ser uma boa altura para lhes tirar a fralda”, segundo a tia esquisita que até fez topless uma vez em Afife.
Há grandes deambulações sobre se o racismo é uma característica inata dos seres humanos ou se é uma invenção dos palermas que, mesmo assim, e por muito que se esforcem, não conseguem vender jornais. Eu acho que é uma delas ou até uma terceira. Há autos de fé sobre artigos que ninguém leria se não se tivesse iniciado o processo burocrático de crucificação por delito de opinião. Jesus teve sorte: não havia internet na altura, pelo que o processo decorreu com a normalidade necessária para não incomodar as pessoas desinteressadas com gritaria excessiva em zona árida.
Rui Rio quer mudar o nome do ministério da saúde para qualquer coisa que leu ao Orwell, o que acho bem, também alivia da outra maluquice. Como qualquer ressaca se cura com outra ressaca, também a histeria se cura com nova indignação histérica. O que não tem cura é a apetência dos portugueses pela indiferença perante problemas reais. A continuar assim, nos verões do futuro, podemos todos recordar o quão sagazmente discutimos a epistemologia dos média e redes sociais no Verão de 2019 debaixo da ponte com vista para o rio Lima. Com sorte, os moradores do prédio Coutinho nem precisam esperar.
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Silly silly season
As pessoas andam entretidas a discutir o racismo, as quotas e outras coisas que mostrem o quão virtuosos somos em relação aos outros. Acho engraçado porque é Verão. Temos todos recordações (completamente ficcionais) dos verões passados a discutir à mesa da nossa villa com vista para o Mediterrâneo os méritos de Fellini sobre Bergman no retrato da decadência burguesa, se La Traviata consegue atingir os píncaros cénicos da Turandot e quais as implicações da luta armada da ETA para o estabelecimento de uma mudança de mentalidades rumo à verdadeira luta de classes. Na realidade, tudo o que se passou em verões passados foi estarmos sentados à mesa desdobrável de um apartamento na sexta linha da Praia da Rocha ou de Benidorm a discutir se as gajas alemãs têm mamas grandes por natureza ou se são simplesmente gordas enquanto emborcando mijo a que o fabricante chamou por ironia de cerveja, tudo isso enquanto os miúdos mais novos nos cagavam nos pés por “ser uma boa altura para lhes tirar a fralda”, segundo a tia esquisita que até fez topless uma vez em Afife.
Há grandes deambulações sobre se o racismo é uma característica inata dos seres humanos ou se é uma invenção dos palermas que, mesmo assim, e por muito que se esforcem, não conseguem vender jornais. Eu acho que é uma delas ou até uma terceira. Há autos de fé sobre artigos que ninguém leria se não se tivesse iniciado o processo burocrático de crucificação por delito de opinião. Jesus teve sorte: não havia internet na altura, pelo que o processo decorreu com a normalidade necessária para não incomodar as pessoas desinteressadas com gritaria excessiva em zona árida.
Rui Rio quer mudar o nome do ministério da saúde para qualquer coisa que leu ao Orwell, o que acho bem, também alivia da outra maluquice. Como qualquer ressaca se cura com outra ressaca, também a histeria se cura com nova indignação histérica. O que não tem cura é a apetência dos portugueses pela indiferença perante problemas reais. A continuar assim, nos verões do futuro, podemos todos recordar o quão sagazmente discutimos a epistemologia dos média e redes sociais no Verão de 2019 debaixo da ponte com vista para o rio Lima. Com sorte, os moradores do prédio Coutinho nem precisam esperar.