Referendo foi há 5 anos
Imagem: LUSA/NUNO ALEGRIA
“Se recebo uma mulher com gestação de nove semanas e quatro dias, não a posso aceitar porque após o prazo de reflexão já terá ultrapassado as dez semanas” até às quais uma mulher pode interromper a gravidez, disse o presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia (SPO).
Para Luís Graça, que dirige o departamento de ginecologia e obstetrícia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, um prazo de onze semanas seria “mais confortável” para resolver problemas que se colocam com determinados tempos de gestação.
O especialista sublinha que os “cada vez mais raros” casos de complicações de saúde associados ao aborto ilegal tendem a ser de mulheres que realizaram a intervenção clandestinamente e após as dez semanas de gravidez. Esta será, aliás, a principal razão que leva as mulheres a procurarem o aborto clandestino, disse.
O obstetra reconhece que a lei tem falhas e aspetos que podem ser melhorados, nomeadamente o facto de só um terço das mulheres irem à consulta de revisão e aconselhamento anticoncecional. “Nós cumprimos a nossa parte, mas as utentes não o estão a fazer”, disse.
Luís Graça enaltece outros aspetos da lei, considerando que a escolha do método (medicamento) resulta do facto de este ser 98 por cento eficaz e preservar a mulher de uma agressão cirúrgica. Sobre possíveis mudanças, o médico acha que se deveria ponderar o pagamento de uma taxa moderadora, além do alargamento do prazo para as onze semanas.
Desde 2007, houve um aumento de 30% no número de abortos anuais: 15 mil no primeiro ano e 19 mil nos seguintes (de 15 mil em 2008 para 34 mil em 2009 e 54 mil em 2010).
O especialista considera que as coisas têm corrido bem, mesmo existindo uma elevada percentagem (90 por cento) de objetores de consciência no hospital onde trabalha, o qual realiza perto de 600 intervenções por ano.
“Respeito as razões morais para a objeção de consciência, mas acredito que, nalguns casos, a objeção é ao trabalho suplementar”, disse.
A solução para os casos em que não existam médicos suficientes para a realização das interrupções de gravidez é o encaminhamento para o setor privado, a expensas do hospital. É o que faz o Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, onde todos os médicos alegaram objeção de consciência.
Fernando Cirurgião, diretor do serviço de ginecologia e obstetrícia deste hospital, disse à Lusa que a situação se mantém e que as mulheres são encaminhadas para a 'Clínica dos Arcos'.
O especialista reconhece que ainda chegam a este hospital casos de mulheres com complicações devido a abortos clandestinos, embora em muito menos quantidade.
Sobre a repetição dos abortos, Fernando Cirurgião diz ter conhecimento de mulheres que fazem várias interrupções por ano. “Alguma coisa funciona mal ao nível do planeamento familiar”, afirmou.
Para Maria José Alves, coordenadora da Consulta de Gravidez Indesejada (CGI) da Maternidade Alfredo da Costa (MAC), as mulheres que realizam vários abortos por ano são “um desafio” e “existem razões diferentes” para elas o fazerem.
A médica enaltece a diminuição do aborto clandestino desde que a lei descriminalizou a Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) até às dez semanas, por vontade da mulher, e sobretudo “a forma digna como as mulheres são atendidas nos serviços públicos”. “Melhorou muito o diálogo, ninguém fala por metáforas”, afirmou.
Maria José Alves, que foi um dos rostos na campanha do referendo pelo “sim” à descriminalização da IVG, a atividade é uma das mais analisadas do setor da saúde.
A especialista lamenta, contudo, o encerramento de algumas consultas – como em Beja e Santarém - que se traduzem no encaminhamento para o setor privado.
Álvaro Malta, um ginecologista que durante a campanha para o referendo deu a cara pelo “não”, diz hoje estar convicto dos erros desta lei. “O principal erro da lei é permitir a destruição de um feto”, afirmou à Lusa. Para o médico, “ninguém tem o direito de decidir sobre a vida dos outros, mesmo que seja intrauterina”.
Álvaro Malta considera “extremamente duvidoso que seja lógico o pagamento integral às mulheres que fazem aborto” e que estas não paguem sequer uma taxa moderadora.
”O aborto é o pior que há para a vida do feto. Para a vida da mãe, de facto, é melhor fazer um aborto com toda a segurança e pago pela sociedade”, disse.
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Referendo foi há 5 anos
Imagem: LUSA/NUNO ALEGRIA
“Se recebo uma mulher com gestação de nove semanas e quatro dias, não a posso aceitar porque após o prazo de reflexão já terá ultrapassado as dez semanas” até às quais uma mulher pode interromper a gravidez, disse o presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia (SPO).
Para Luís Graça, que dirige o departamento de ginecologia e obstetrícia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, um prazo de onze semanas seria “mais confortável” para resolver problemas que se colocam com determinados tempos de gestação.
O especialista sublinha que os “cada vez mais raros” casos de complicações de saúde associados ao aborto ilegal tendem a ser de mulheres que realizaram a intervenção clandestinamente e após as dez semanas de gravidez. Esta será, aliás, a principal razão que leva as mulheres a procurarem o aborto clandestino, disse.
O obstetra reconhece que a lei tem falhas e aspetos que podem ser melhorados, nomeadamente o facto de só um terço das mulheres irem à consulta de revisão e aconselhamento anticoncecional. “Nós cumprimos a nossa parte, mas as utentes não o estão a fazer”, disse.
Luís Graça enaltece outros aspetos da lei, considerando que a escolha do método (medicamento) resulta do facto de este ser 98 por cento eficaz e preservar a mulher de uma agressão cirúrgica. Sobre possíveis mudanças, o médico acha que se deveria ponderar o pagamento de uma taxa moderadora, além do alargamento do prazo para as onze semanas.
Desde 2007, houve um aumento de 30% no número de abortos anuais: 15 mil no primeiro ano e 19 mil nos seguintes (de 15 mil em 2008 para 34 mil em 2009 e 54 mil em 2010).
O especialista considera que as coisas têm corrido bem, mesmo existindo uma elevada percentagem (90 por cento) de objetores de consciência no hospital onde trabalha, o qual realiza perto de 600 intervenções por ano.
“Respeito as razões morais para a objeção de consciência, mas acredito que, nalguns casos, a objeção é ao trabalho suplementar”, disse.
A solução para os casos em que não existam médicos suficientes para a realização das interrupções de gravidez é o encaminhamento para o setor privado, a expensas do hospital. É o que faz o Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, onde todos os médicos alegaram objeção de consciência.
Fernando Cirurgião, diretor do serviço de ginecologia e obstetrícia deste hospital, disse à Lusa que a situação se mantém e que as mulheres são encaminhadas para a 'Clínica dos Arcos'.
O especialista reconhece que ainda chegam a este hospital casos de mulheres com complicações devido a abortos clandestinos, embora em muito menos quantidade.
Sobre a repetição dos abortos, Fernando Cirurgião diz ter conhecimento de mulheres que fazem várias interrupções por ano. “Alguma coisa funciona mal ao nível do planeamento familiar”, afirmou.
Para Maria José Alves, coordenadora da Consulta de Gravidez Indesejada (CGI) da Maternidade Alfredo da Costa (MAC), as mulheres que realizam vários abortos por ano são “um desafio” e “existem razões diferentes” para elas o fazerem.
A médica enaltece a diminuição do aborto clandestino desde que a lei descriminalizou a Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) até às dez semanas, por vontade da mulher, e sobretudo “a forma digna como as mulheres são atendidas nos serviços públicos”. “Melhorou muito o diálogo, ninguém fala por metáforas”, afirmou.
Maria José Alves, que foi um dos rostos na campanha do referendo pelo “sim” à descriminalização da IVG, a atividade é uma das mais analisadas do setor da saúde.
A especialista lamenta, contudo, o encerramento de algumas consultas – como em Beja e Santarém - que se traduzem no encaminhamento para o setor privado.
Álvaro Malta, um ginecologista que durante a campanha para o referendo deu a cara pelo “não”, diz hoje estar convicto dos erros desta lei. “O principal erro da lei é permitir a destruição de um feto”, afirmou à Lusa. Para o médico, “ninguém tem o direito de decidir sobre a vida dos outros, mesmo que seja intrauterina”.
Álvaro Malta considera “extremamente duvidoso que seja lógico o pagamento integral às mulheres que fazem aborto” e que estas não paguem sequer uma taxa moderadora.
”O aborto é o pior que há para a vida do feto. Para a vida da mãe, de facto, é melhor fazer um aborto com toda a segurança e pago pela sociedade”, disse.