Objectivo 2009

19-11-2018
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Caro Miguel,

Temos, há bastante tempo, um relacionamento suficientemente próximo, e até convergente numa série de temas, para que eu pensasse que eventuais divergências de opinião salvaguardariam o respeito mútuo por que sempre nos pautamos.

Sou, ademais, sua leitora assídua - mais do que ouvinte - e dou, normalmente, o meu tempo por bem empregue. Ainda que, ao pronunciar-se sobre temas tão díspares e da forma assertiva que é seu timbre, lhe encontre por vezes falhas de informação ou imprecisões que fragilizam o argumento e tornam a veemência excessiva; o que, na generalidade, a arte da escrita e o brilhantismo da análise acabam por compensar. Fui ocasionalmente tocada por esses excessos, mas sempre optei por não fazer qualquer reparo: à laia de ilustração, relembro algumas das suas opiniões sobre co-incineração ou algumas "zurzidelas" sobre ordenamento do território - grande parte das quais até partilho -, ignorando o que uma mera consulta das leis orgânicas teria evidenciado: nunca essa área esteve sob a minha tutela nos meus quatro anos de ministra do Ambiente e dois de ministra do Planeamento. Nada, porém, a que quem se mete em política não esteja habituado…

Já o mesmo não ocorreu a propósito da violência e gravidade do ataque que me fez numa das suas intervenções recentes na TVI sobre o alegado grande problema nacional das "duplas candidaturas". E é por respeito para com o Miguel que reajo, porque não costumo responder a todos os que me insultam.

Deixe-me recordar-lhe, em termos sintéticos, alguns factos objectivos:

1. Estando eleita para o Parlamento Europeu (enquanto número quatro da lista do Partido Socialista), disputarei, na base da confiança que o PS em mim depositou, a liderança da Câmara Municipal do Porto em Outubro próximo; abandonarei naturalmente o Parlamento caso, como espero, os portuenses me elejam sua presidente; desde cedo, com total transparência, comuniquei isso mesmo.

2. Nada impede, na legislação nacional vigente, que os cidadãos se candidatem a um ou mais cargos (o que não vale quanto à sua acumulação), tal significando que, sobre essa matéria, cabe aos partidos políticos definirem, dentro do contexto legal, a estratégia eleitoral que considerem mais adequada.

3. Nas últimas Europeias, o PS e a CDU optaram por "dizer" publicamente que, avaliando positivamente o trabalho das suas deputadas na Europa e querendo renovar-lhes a confiança, estarão, no entanto, disponíveis para abdicar do seu contributo no PE para que liderem o Porto, Sintra ou Gaia (caso de Ilda Figueiredo, cabeça-de-lista da CDU e nº 1 a esta Câmara). Exemplificando, e evitando o meu caso: há algum problema em que o PS entenda que, se os sintrenses não derem a vitória a Ana Gomes, não deve, por esse facto, perder-se uma das melhores deputadas socialistas europeias na área dos direitos humanos?

4. Opções deste tipo são a regra na democracia portuguesa! Já em 1999, Paulo Portas (CDS-PP) foi cabeça-de-lista ao PE, em 13 Junho e, de novo, cabeça-de-lista à Assembleia da República (AR) em 10 Outubro do mesmo ano. Mas vejamos as últimas Autárquicas (9 Outubro 2005): candidatos, com graus de sucesso variáveis - como Ana Manso (PSD), na Guarda, Luís Filipe Menezes (PSD), em Gaia, Manuel Maria Carrilho (PS), em Lisboa, Teixeira Lopes (BE), no Porto, Honório Novo (CDU), em Matosinhos, entre outros -, tinham sido eleitos deputados à AR meia dúzia de meses antes. Para não falar do inúmero leque de presidentes de Câmara em exercício de funções que têm encabeçado listas dos seus partidos às Legislativas…

5. O que há então de novo, desta vez? Apenas que Manuela Ferreira Leite anunciou, e fez saber publicamente (através de Castro de Almeida) a 16 Dezembro 2008, que desta vez "os candidatos do partido a presidente de Câmara não integrarão as listas de deputados"! E as "más-línguas" até sugeriram que o seu objectivo principal era retirar a sombra de Santana Lopes do Parlamento…

Nestes termos, o que é lamentável é que o PSD: i) pretenda que as suas opções internas conjunturais passem a ser um referencial da ética política nacional; ii) com base nisso, se proponha arrogantemente tutelar as opções dos outros partidos; iii) disfarce esse desrespeito político transformando-o em acusações cirúrgicas insultuosas e personalizadas e em lições de moralismo aos protagonistas que mais os ameaçam. Acima de tudo, o que é lamentável é que líderes de opinião respeitáveis se prestem a ser instrumentos desta farsa…

Lembre-se, Miguel, deste episódio quando voltar a lamentar a falta de qualidade dos autarcas. Se me tivesse mantido nos gabinetes da Faculdade de Economia do Porto (FEP) - onde, como sabe, sou professora - ou, sossegadamente, no tal "eldorado" do PE, ter-me-ia poupado a vexames que não tenho de tolerar. Talvez as pessoas de bem, como me considero ser, não tenham de ter "estômago" para tudo!

Não acredito, de facto, que os portuenses votem ou não em mim em função do que faria na hipótese de não ganhar (PE, onde lhes seria mais imediatamente útil, ou FEP, onde talvez fosse útil aos seus filhos). Votam em função do meu projecto para a cidade e da minha capacidade para o executar. E, Miguel, se quiser discutir soluções para tirar o nosso Porto da crise em que está, é muito bem-vindo ao grupo!

Um abraço,

Elisa

Caro Miguel,

Temos, há bastante tempo, um relacionamento suficientemente próximo, e até convergente numa série de temas, para que eu pensasse que eventuais divergências de opinião salvaguardariam o respeito mútuo por que sempre nos pautamos.

Sou, ademais, sua leitora assídua - mais do que ouvinte - e dou, normalmente, o meu tempo por bem empregue. Ainda que, ao pronunciar-se sobre temas tão díspares e da forma assertiva que é seu timbre, lhe encontre por vezes falhas de informação ou imprecisões que fragilizam o argumento e tornam a veemência excessiva; o que, na generalidade, a arte da escrita e o brilhantismo da análise acabam por compensar. Fui ocasionalmente tocada por esses excessos, mas sempre optei por não fazer qualquer reparo: à laia de ilustração, relembro algumas das suas opiniões sobre co-incineração ou algumas "zurzidelas" sobre ordenamento do território - grande parte das quais até partilho -, ignorando o que uma mera consulta das leis orgânicas teria evidenciado: nunca essa área esteve sob a minha tutela nos meus quatro anos de ministra do Ambiente e dois de ministra do Planeamento. Nada, porém, a que quem se mete em política não esteja habituado…

Já o mesmo não ocorreu a propósito da violência e gravidade do ataque que me fez numa das suas intervenções recentes na TVI sobre o alegado grande problema nacional das "duplas candidaturas". E é por respeito para com o Miguel que reajo, porque não costumo responder a todos os que me insultam.

Deixe-me recordar-lhe, em termos sintéticos, alguns factos objectivos:

1. Estando eleita para o Parlamento Europeu (enquanto número quatro da lista do Partido Socialista), disputarei, na base da confiança que o PS em mim depositou, a liderança da Câmara Municipal do Porto em Outubro próximo; abandonarei naturalmente o Parlamento caso, como espero, os portuenses me elejam sua presidente; desde cedo, com total transparência, comuniquei isso mesmo.

2. Nada impede, na legislação nacional vigente, que os cidadãos se candidatem a um ou mais cargos (o que não vale quanto à sua acumulação), tal significando que, sobre essa matéria, cabe aos partidos políticos definirem, dentro do contexto legal, a estratégia eleitoral que considerem mais adequada.

3. Nas últimas Europeias, o PS e a CDU optaram por "dizer" publicamente que, avaliando positivamente o trabalho das suas deputadas na Europa e querendo renovar-lhes a confiança, estarão, no entanto, disponíveis para abdicar do seu contributo no PE para que liderem o Porto, Sintra ou Gaia (caso de Ilda Figueiredo, cabeça-de-lista da CDU e nº 1 a esta Câmara). Exemplificando, e evitando o meu caso: há algum problema em que o PS entenda que, se os sintrenses não derem a vitória a Ana Gomes, não deve, por esse facto, perder-se uma das melhores deputadas socialistas europeias na área dos direitos humanos?

4. Opções deste tipo são a regra na democracia portuguesa! Já em 1999, Paulo Portas (CDS-PP) foi cabeça-de-lista ao PE, em 13 Junho e, de novo, cabeça-de-lista à Assembleia da República (AR) em 10 Outubro do mesmo ano. Mas vejamos as últimas Autárquicas (9 Outubro 2005): candidatos, com graus de sucesso variáveis - como Ana Manso (PSD), na Guarda, Luís Filipe Menezes (PSD), em Gaia, Manuel Maria Carrilho (PS), em Lisboa, Teixeira Lopes (BE), no Porto, Honório Novo (CDU), em Matosinhos, entre outros -, tinham sido eleitos deputados à AR meia dúzia de meses antes. Para não falar do inúmero leque de presidentes de Câmara em exercício de funções que têm encabeçado listas dos seus partidos às Legislativas…

5. O que há então de novo, desta vez? Apenas que Manuela Ferreira Leite anunciou, e fez saber publicamente (através de Castro de Almeida) a 16 Dezembro 2008, que desta vez "os candidatos do partido a presidente de Câmara não integrarão as listas de deputados"! E as "más-línguas" até sugeriram que o seu objectivo principal era retirar a sombra de Santana Lopes do Parlamento…

Nestes termos, o que é lamentável é que o PSD: i) pretenda que as suas opções internas conjunturais passem a ser um referencial da ética política nacional; ii) com base nisso, se proponha arrogantemente tutelar as opções dos outros partidos; iii) disfarce esse desrespeito político transformando-o em acusações cirúrgicas insultuosas e personalizadas e em lições de moralismo aos protagonistas que mais os ameaçam. Acima de tudo, o que é lamentável é que líderes de opinião respeitáveis se prestem a ser instrumentos desta farsa…

Lembre-se, Miguel, deste episódio quando voltar a lamentar a falta de qualidade dos autarcas. Se me tivesse mantido nos gabinetes da Faculdade de Economia do Porto (FEP) - onde, como sabe, sou professora - ou, sossegadamente, no tal "eldorado" do PE, ter-me-ia poupado a vexames que não tenho de tolerar. Talvez as pessoas de bem, como me considero ser, não tenham de ter "estômago" para tudo!

Não acredito, de facto, que os portuenses votem ou não em mim em função do que faria na hipótese de não ganhar (PE, onde lhes seria mais imediatamente útil, ou FEP, onde talvez fosse útil aos seus filhos). Votam em função do meu projecto para a cidade e da minha capacidade para o executar. E, Miguel, se quiser discutir soluções para tirar o nosso Porto da crise em que está, é muito bem-vindo ao grupo!

Um abraço,

Elisa

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