O valor da liberdade de imprensa

23-06-2016
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Gabriela Canavilhas pediu a demissão de uma jornalista do Público por, disse a ex-ministra da Cultura, “escrever factos falsos”. Em causa estava “uma discrepância de números inaceitável”, como referiu ao Observador. A questão é que a jornalista em causa escreveu que, segundo fonte policial, terão estado cerca de 15 mil pessoas na manifestação a favor da escola pública, em vez das 80 mil reclamadas pela organização sindical. O Observador afirma que uma fonte policial referiu, no mesmo dia, “cerca de 20 mil” pessoas a descer a Avenida da Liberdade.

Curiosamente, se recuarmos alguns anos, até 24 de Novembro de 2010, quando teve lugar uma greve geral conjunta da CGTP e da UGT, os números também não bateram certo. Para os sindicatos a adesão foi superior a 80%, Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, falou em “mais de três milhões de trabalhadores envolvidos”. Já para o Governo, de que Gabriela Canavilhas fazia parte, a adesão na administração pública foi da ordem dos 28,56%. Alguém estava, por conseguinte, a mentir ou, pelo menos, a exagerar. Vale a pena perguntar: Quem terá pensado que deveria ser demitida a então ministra Canavilhas?

Mas mais importante que os números de uma manifestação ou de uma greve, mesmo geral, é o estado a que o país chegou. Não foram, com certeza, os cidadãos que conduziram o país à situação de endividamento e de necessidade do pedido de ajuda externa a que Portugal já esteve sujeito e a que, pelo andar da carruagem, pode voltar a ter de recorrer. Restam então os governos. Fica a questão: Quem deveria, na opinião de Gabriela Canavilhas, ser responsabilizado por obrigar os portugueses a fazer sacrifícios para pagar dívidas que não contraíram? Alguém o será? Quando? E como?

A deputada socialista põe em causa o acompanhamento que o Público tem feito sobre o financiamento público dos colégios privados, alegando que tem “tido erros”. Erros que, segundo escreveu, “têm sido admitidos pelo próprio jornal, como é deontologicamente correcto, o que não impede que sejam lembrados se e quando reincididos”. Apetece dizer que, afinal, o jornal reconhece os erros, ao contrário de Gabriela Canavilhas. Não vivemos nos Estados Unidos, mas sente-se a falta da primeira emenda à Constituição norte-americana, que garante a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão.

A democracia é o regime da igualdade, da liberdade e do Estado de direito, mas alguns políticos perfilham a ideia a de que “quem não está comigo, está contra mim”. Por isso, zangam-se quando alguém dá notícias que não lhes agradam. A reacção pública até nem é má. É feita às claras e todos ficam a saber. O pior é quando os políticos exercem pressões de forma sub-reptícia para afastar pessoas, sejam ou não jornalistas, para as substituírem por quem der garantias de não os “incomodar”. Essas movimentações exercem-se na sombra e, regra geral, não chegam ao domínio público.

Por isso, cumpre elogiar Gabriela Canavilhas por ter expressado publicamente e de forma clara a sua zanga, como também já o tinha feito com um correligionário político. A deputada socialista pediu, há cerca de um ano, a expulsão de Manuel Maria Carrilho do PS. Argumentou então que “se se exige a um político que tenha o pagamento de taxas e taxinhas em dia quase desde o berço, porque não se exige que tenha um comportamento limpo de acusações de violência doméstica?”. E acrescentou que, condenado ou não em tribunal, “Carrilho não deixará de ficar marcado com o estigma da barbárie e da crueldade”.

Gabriela Canavilhas mostra ter sentido de justiça e de responsabilidade política ao falar de Manuel Maria Carrilho, mas porque não aplicá-lo agora aos jornais e aos jornalistas? A comunicação social tem de ser incómoda, pois só assim poderá ser um contrapoder para fiscalizar, obrigar a prestar explicações e corrigir erros ou omissões aos poderes instituídos. Uma comunicação social incómoda é sinónimo de um país democraticamente maduro, como acontece, por exemplo, no Reino Unido. Erros todos cometemos. Devemos é ter a humildade de os reconhecer e de pedir desculpa. É o que que está a faltar à deputada socialista.

Gabriela Canavilhas pediu a demissão de uma jornalista do Público por, disse a ex-ministra da Cultura, “escrever factos falsos”. Em causa estava “uma discrepância de números inaceitável”, como referiu ao Observador. A questão é que a jornalista em causa escreveu que, segundo fonte policial, terão estado cerca de 15 mil pessoas na manifestação a favor da escola pública, em vez das 80 mil reclamadas pela organização sindical. O Observador afirma que uma fonte policial referiu, no mesmo dia, “cerca de 20 mil” pessoas a descer a Avenida da Liberdade.

Curiosamente, se recuarmos alguns anos, até 24 de Novembro de 2010, quando teve lugar uma greve geral conjunta da CGTP e da UGT, os números também não bateram certo. Para os sindicatos a adesão foi superior a 80%, Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, falou em “mais de três milhões de trabalhadores envolvidos”. Já para o Governo, de que Gabriela Canavilhas fazia parte, a adesão na administração pública foi da ordem dos 28,56%. Alguém estava, por conseguinte, a mentir ou, pelo menos, a exagerar. Vale a pena perguntar: Quem terá pensado que deveria ser demitida a então ministra Canavilhas?

Mas mais importante que os números de uma manifestação ou de uma greve, mesmo geral, é o estado a que o país chegou. Não foram, com certeza, os cidadãos que conduziram o país à situação de endividamento e de necessidade do pedido de ajuda externa a que Portugal já esteve sujeito e a que, pelo andar da carruagem, pode voltar a ter de recorrer. Restam então os governos. Fica a questão: Quem deveria, na opinião de Gabriela Canavilhas, ser responsabilizado por obrigar os portugueses a fazer sacrifícios para pagar dívidas que não contraíram? Alguém o será? Quando? E como?

A deputada socialista põe em causa o acompanhamento que o Público tem feito sobre o financiamento público dos colégios privados, alegando que tem “tido erros”. Erros que, segundo escreveu, “têm sido admitidos pelo próprio jornal, como é deontologicamente correcto, o que não impede que sejam lembrados se e quando reincididos”. Apetece dizer que, afinal, o jornal reconhece os erros, ao contrário de Gabriela Canavilhas. Não vivemos nos Estados Unidos, mas sente-se a falta da primeira emenda à Constituição norte-americana, que garante a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão.

A democracia é o regime da igualdade, da liberdade e do Estado de direito, mas alguns políticos perfilham a ideia a de que “quem não está comigo, está contra mim”. Por isso, zangam-se quando alguém dá notícias que não lhes agradam. A reacção pública até nem é má. É feita às claras e todos ficam a saber. O pior é quando os políticos exercem pressões de forma sub-reptícia para afastar pessoas, sejam ou não jornalistas, para as substituírem por quem der garantias de não os “incomodar”. Essas movimentações exercem-se na sombra e, regra geral, não chegam ao domínio público.

Por isso, cumpre elogiar Gabriela Canavilhas por ter expressado publicamente e de forma clara a sua zanga, como também já o tinha feito com um correligionário político. A deputada socialista pediu, há cerca de um ano, a expulsão de Manuel Maria Carrilho do PS. Argumentou então que “se se exige a um político que tenha o pagamento de taxas e taxinhas em dia quase desde o berço, porque não se exige que tenha um comportamento limpo de acusações de violência doméstica?”. E acrescentou que, condenado ou não em tribunal, “Carrilho não deixará de ficar marcado com o estigma da barbárie e da crueldade”.

Gabriela Canavilhas mostra ter sentido de justiça e de responsabilidade política ao falar de Manuel Maria Carrilho, mas porque não aplicá-lo agora aos jornais e aos jornalistas? A comunicação social tem de ser incómoda, pois só assim poderá ser um contrapoder para fiscalizar, obrigar a prestar explicações e corrigir erros ou omissões aos poderes instituídos. Uma comunicação social incómoda é sinónimo de um país democraticamente maduro, como acontece, por exemplo, no Reino Unido. Erros todos cometemos. Devemos é ter a humildade de os reconhecer e de pedir desculpa. É o que que está a faltar à deputada socialista.

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