A música de José Mário Branco termina assim: “Há sempre qualquer coisa que eu tenho de fazer / Qualquer coisa que eu devia resolver / Porquê não sei / Mas sei / Que essa coisa é linda”. Veremos se António Costa resolve bem o que tem de resolver. E se a sua decisão é linda.
O ex-líder do PSD considera inevitável, a prazo, uma remodelação mais ampla que envolva ministros , mas também entende que António Costa não a fará agora, precisamente por estar a ser pressionado pela oposição. A sua previsão é que tal acontecerá depois das autárquicas e que seria importante criar um cargo de vice-primeiro-ministro no Governo, pois “falta claramente um n.º 2 neste Governo”.
Por seu turno, Luís Marques Mendes, no seu habitual comentário dominical televisivo na SIC , afirmou que, para além das três demissões já conhecidas, “é provável que saiam mais alguns secretários de Estado” , sobretudo “por razões pessoais”. “Esta mini-remodelação deverá acontecer daqui a duas semanas, provavelmente depois do debate do Estado da Nação”. Marques Mendes disse ainda que, nesta remodelação, não haverá saída de ministros – o que é confirmado por fonte do gabinete do primeiro-ministro ao Diário de Notícias .
Temos, pois, remodelação à vista – e desdramatização em curso. “Por definição todos somos precários”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, em entrevista ao Expresso publicada no sábado passado. E acrescentou: as remodelações “fazem parte da vida política” .
Uma coisa é certa: depois de Pedrógão Grande e do roubo de armamento em Tancos, que levaram a oposição a pedir a demissão da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, e do ministro da Defesa, Azeredo Lopes, estes pedidos de exoneração, que nada tem a ver com os casos em apreço, eram a última coisa que certamente António Costa desejava – tanto mais que pelo menos dois dos secretários de Estado exonerados lhe são muito próximos, João Vasconcelos e Rocha Andrade.
Entretanto, também o assessor para as questões económicas do primeiro-ministro, Vitor Escária, já foi ouvido pelo Ministério Público e constituído arguido, confirmou o Expresso. E deixou as funções que tinha em S. Bento . Saiu cara a ida ao futebol .
Segundo o Observador , os três secretários de Estado são suspeitos de recebimento indevido de vantagem e é este o crime pelo qual serão indiciados.
“Todavia, nas atuais circunstâncias, entendem que não poderão continuar a dar o seu melhor contributo ao Governo e pretendem que o executivo não seja prejudicado, na sua ação, por esta circunstância”, justificando assim o seu pedido de exoneração.
Jorge Costa Oliveira, Fernando Rocha Andrade e João Vasconcelos afirmam que foram “sempre transparentes” sobre esta questão e “reafirmam a sua firme convicção de que os seus comportamentos não configuram qualquer ilícito”, o que dizem querer “provar no decorrer do referido inquérito”.
Os três governantes, que ontem se reuniram com o primeiro-ministro, que aceitou os pedidos de demissão (“Não podia negar-lhes esse direito” , disse ao Público), divulgaram uma nota na qual afirmam que decidiram “exercer o seu direito de requerer ao Ministério Público a sua constituição como arguidos”, depois de terem tido conhecimento de que “várias pessoas foram ouvidas pelo Ministério Público e constituídas como arguidas no âmbito de um processo inquérito relativo às viagens organizadas pelo patrocinador oficial da seleção portuguesa de futebol, durante o campeonato da Europa de 2016”. (Curiosamente, hoje passa um ano que a selecção portuguesa venceu o Euro 2016 , ganhando no final à anfitriã França por 1-0, com um golo no prolongamento do improvável Éder).
Talvez a música tenha vindo à memória de António Costa quando foi confrontado ontem com a demissão de três secretários de Estado: o da Inovação (João Vasconcelos), o dos Assuntos Fiscais (Fernando Rocha Andrade) e o da Internacionalização (Jorge Costa Oliveira). Motivo: a suspeita de que iriam ser constituídos arguidos no âmbito do inquérito aberto pelo Ministério Público a propósito das viagens que fizeram para assistirem ao Euro 2016 em França a convite da Galp, patrocinador oficial da selecção portuguesa desde 1999 (e que durante todos estes anos convidou muitos e variados políticos, empresários, gestores, jornalistas e pessoas de várias outras profissões para assistirem aos jogos de Ronaldo & Companhia).
Em 2008, José Mário Branco lançava um novo álbum . Um dos temas tinha por título “Inquietação”. O refrão era assim: “Cá dentro inquietação, inquietação / É só inquietação, inquietação / Porquê, não sei / Porquê, não sei / Porquê, não sei ainda / Há sempre qualquer coisa que está prá acontecer / Qualquer coisa que eu devia perceber / Porquê, não sei / Porquê, não sei / Porquê, não sei ainda (…)”
OUTRAS NOTÍCIAS
O mundo, no entanto, continuou a girar.
Mossul caiu finalmente, ao fim de nove meses de combates, nas mãos do exército iraquiano. É excelente mas convém não entrar em euforias. O Daesh provou que não é um bando de maltrapilhos. E continua a manter na sua posse várias cidades no norte do país
O primeiro-ministro iraquiano, Haidar al Abadi, chegou ontem a Mossul e felicitou o exército pela “grande vitória” frente aos jihadistas do grupo Estado Islâmico. O comandante das Forças Antiterroristas iraquianas, Ali Awad, assegurara, contudo, ontem de manhã à agência espanhola EFE que alguns combatentes do EI estavam a oferecer resistência na zona de Al Midan, o último reduto dos radicais na localidade do norte do Iraque.
Entretanto, o Presidente dos EUA, Donald Trump, assegurou ontem que pressionou “duramente” Vladimir Putin, durante a cimeira do G20, sobre a alegada ingerência russa nas eleições norte-americanas e considerou que é o momento de ter uma relação “construtiva”. "Pressionei duramente o Presidente Putin, em duas ocasiões, sobre a ingerência russa nas nossas eleições. Ele negou-o veementemente. Eu já dei a minha opinião", escreveu Donald Trump na rede social Twitter, após a primeira reunião com o seu homólogo russo, que durou mais de duas horas, segundo a agência de notícias espanhola EFE.
Ora atendendo a que a suposta ingerência russa nas eleições norte-americanas, a ter existido, favoreceu Trump e penalizou Hillary Clinton, não se percebe se isto é uma “fake news” ou se trata de “factos alternativos”. Por outras palavras, se é para rir ou para chorar.
Para deitar mais achas na fogueira, o New York Times revelou ontem que o filho de Trump, Donald Trump Jr., se encontrou com uma advogada russa durante a campanha eleitoral que lhe prometeu informações sobre Hillary Clinton, a adversária do pai na corrida à Casa Branca. Na reunião estiveram também Jared Kushner e o então director de campanha de Trump, Paul Manafort.
Na Venezuela, após mais de três anos na cadeia e de três meses de manifestações consecutivas contra o regime de Nicolás Maduro, Leopoldo López, rosto da oposição, foi transferido para casa onde se encontra em prisão domiciliária, por decisão do Supremo Tribunal de Justiça.
A libertação de López acontece depois de meses e meses de negociações, de pressão e mediação internacional, ao mais alto nível, de manifestações de protesto contra o regime de Nicolás Maduro.
Outro ponto de tensão no mundo: na Coreia do Norte, a imprensa oficial classificou ontem uma “provocação” o envio de dois bombardeiros norte-americanos para a península coreana para fazer exercícios e advertiu que estas manobras “podem causar uma guerra nuclear”. “Um simples erro ou mal-entendido pode conduzir à eclosão de uma guerra nuclear", alertou o diário oficial do Partido dos Trabalhadores.
No Quénia, uma ponte que estava a ser construída por um consórcio chinês colapsou apenas duas semanas depois da visita do presidente do país Uhuru Kenyatta. O projeto de mais de 10 milhões de euros tornou-se assim numa fonte de embaraço para o líder, que está em campanha para as eleições de agosto. Pois, a qualidade da construção chinesa não é das melhores. Talvez seja por isso que é mais barata…
Por cá, a ANA – Aeroportos de Portugal, vai aumentar as taxas aeroportuárias de Lisboa e Porto em Outubro e Dezembro. O atraso na entrada em vigor das taxas para 2017 e erros de estimativa de tráfego anual de passageiros são as justificações. Faro escapa à subida. Se não estou em erro, esta é a décima subida das taxas aeroportuárias desde que os franceses da Vinci ganharam por 50 anos a concessão para a gestão dos aeroportos nacionais.
Quase dez anos depois de se ter iniciado, o caso da Universidade Independente conhece hoje a decisão judicial, com o Ministério Público a pedir a condenação do ex-vice-reitor Rui Verde e do acionista maioritário Lima de Carvalho e após a morte do reitor Luis Arouca.
FRASES
“Não sei formar na Parada nem marchar com o passo trocado, violando valores e princípios (…) Com a exoneração dos cinco comandantes [por decisão do Chefe do Estado Maior do Exército, Rovisco Duarte] houve uma quebra do vínculo sagrado entre comandantes e subordinados que foi quebrado””. Tenente-general Faria Menezes, atual comandante operacional das Forças Terrestres, ao justificar na sua página do Facebook porque vai apresentar esta segunda-feira a sua demissão do cargo. Infelizmente, o senhor tenente-geral não nos revela o que faria no caso de ser ele o CEME perante o gravíssimo roubo de armamento dos paióis de Tancos – embora, felizmente, tenha esclarecido, em declarações ao Expresso, que a sua demissão nada tem a ver com o facto de ter sido preterido para o cargo de vice-chefe de Estado-Maior do Exército, facto de que já tinha sido informado antes de acontecer o roubo de Tancos. Estamos muito mais descansados.
“Aquilo que me parece é que, aos poucos, à medida que vamos voltando à normalidade, conduzidos pela solução política que lidera, ou que apoia o actual governo, vamos regressando às más práticas, aos maus hábitos, aos vícios que estiveram na origem dos erros que nos levaram aonde ninguém desejaria que se tivesse chegado”. Pedro Passos Coelho, presidente do PSD, mantendo o seu aviso de que o diabo há-de chegar. Não foi em Setembro, mas há-de vir.
“Por que não estar aqui na quadra do Natal ou trazer a família?”. Marcelo Rebelo de Sousa, em declarações aos jornalistas, admitindo a possibilidade de ir passar a época das festas a Pedrógão Grande. Marcelo não perde uma oportunidade de ganhar o campeonato da popularidade.
“O homem que não dá a cara e que se chama António Costa está desaparecido em combate. Temos um primeiro-ministro ‘missing in action’. Está dado como desaparecido”. Paulo Rangel, eurodeputado do PSD, que também não morre de amores por Pedro Passos Coelho.
O QUE ANDO A LER. E A OUVIR.
“Trilogia suja de Havana” (2001), o primeiro livro que li de Pedro Juan Gutiérrez, impressionou-me. Aquilo era o retrato impiedoso, sem filtros, de Havana pós-revolução, nos anos mais difíceis do bloqueio comercial imposto pelos Estados Unidos. Não era um olhar político mas um olhar social: o que faziam os cubanos para s
obreviver à fome. E não era bonito de ser ver. O segundo livro, “O Rei de Havana” (2002) ia no mesmo sentido e carregava ainda mais nas tintas. “Animal Tropical” (2003), “O Insaciável Homem-Aranha (2004) e “Carne de Cão” (2005) iam no mesmo sentido, encerrando o “Ciclo do Centro de Havana”. Depois não encontrei novos livros dele. Gutiérrez, nascido em 1950 em Matanzas, vive em Cuba e nunca saiu de lá. Exerceu mais profissões do que os livros de prosa e poesia que escreveu: “vendedor de gelados e jornais, instrutor de caiaques, cortador de cana-de-açúcar e trabalhador agrícola, soldado, locutor de rádio e jornalista, entre outras que prefere esquecer”. Na última Feira do Livro descobri “O nosso GG em Havana”, pelos vistos escrito em Havana em 2001-2002 e editado também pela Dom Quixote. O GG é o escritor americano Graham Greene e, sendo uma história que se lê com interesse, está longe da força dos cinco volumes do Ciclo. Em qualquer caso, vale a pena ler Gutiérrez. Não tem a escrita depurada e elegante de um Guillermo Cabrera Infante nem é um romancista sólido como Leonardo Padura Fuentes. Mas os seus livros revelam a violência quotidiana de que foi vítima Reinaldo Arenas, não a violência contra os homossexuais que Arenas retratou de forma brutal em “Antes que anoiteça”, mas a violência de várias famílias a viver em apartamentos onde devia viver apenas uma, a luta por conquistar esses espaços, a procura diária por comida, as humilhações para conseguir um pouco de carne, a prostituição junto de estrangeiros para obter alguns dólares. Recomendo que comece por “Trilogia suja de Havana”. Se tiver estômago, vai querer ler todos os outros livros de Gutiérrez.
Quanto a música: em 2012 ou 2013 recebi um envelope com um CD, de um tal Pierre Aderne, de que eu nunca tinha ouvido falar. Chamava-se “Bem me quer mar me quer”. Andou por cima da secretária algum tempo antes de o meter no carro e começar a ouvi-lo. Não sei se foi amor à primeira vista, mas seguramente que desde o início que encontrei várias faixas de que gostei muito. O tempo passou, o CD foi para casa e em casa tornou-se um dos mais ouvidos, variando entre a boa música brasileira e a morna, fazendo parcerias com J.P.Simões, Sara Tavares, Jorge Palma, Luanda Cozetti, Mário Laginha e Pedro Jóia, entre outros. Ora, quem faz boa música e consegue juntar tantos talentos tem de ser um grande músico e uma pessoa com muitos talentos. Resumindo e concluindo, conheci finalmente Pierre Aderne esta semana sem saber (uma história hilariante) que estava a falar com ele. Só quando cheguei a casa é que descobri. E no sábado estive numa sessão organizado por ele e com o José Eduardo Agualusa, onde nos rimos bastante. Resumindo e concluindo, se gosta da grande música brasileira compre “Bem me quer mar me quer”. E depois vá atrás e compre também “Caboclo”. Ou chegue-se à frente e adquira o mais recente CD de Aderne “Da janela de Inês”. Boa música em boa companhia.
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A música de José Mário Branco termina assim: “Há sempre qualquer coisa que eu tenho de fazer / Qualquer coisa que eu devia resolver / Porquê não sei / Mas sei / Que essa coisa é linda”. Veremos se António Costa resolve bem o que tem de resolver. E se a sua decisão é linda.
O ex-líder do PSD considera inevitável, a prazo, uma remodelação mais ampla que envolva ministros , mas também entende que António Costa não a fará agora, precisamente por estar a ser pressionado pela oposição. A sua previsão é que tal acontecerá depois das autárquicas e que seria importante criar um cargo de vice-primeiro-ministro no Governo, pois “falta claramente um n.º 2 neste Governo”.
Por seu turno, Luís Marques Mendes, no seu habitual comentário dominical televisivo na SIC , afirmou que, para além das três demissões já conhecidas, “é provável que saiam mais alguns secretários de Estado” , sobretudo “por razões pessoais”. “Esta mini-remodelação deverá acontecer daqui a duas semanas, provavelmente depois do debate do Estado da Nação”. Marques Mendes disse ainda que, nesta remodelação, não haverá saída de ministros – o que é confirmado por fonte do gabinete do primeiro-ministro ao Diário de Notícias .
Temos, pois, remodelação à vista – e desdramatização em curso. “Por definição todos somos precários”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, em entrevista ao Expresso publicada no sábado passado. E acrescentou: as remodelações “fazem parte da vida política” .
Uma coisa é certa: depois de Pedrógão Grande e do roubo de armamento em Tancos, que levaram a oposição a pedir a demissão da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, e do ministro da Defesa, Azeredo Lopes, estes pedidos de exoneração, que nada tem a ver com os casos em apreço, eram a última coisa que certamente António Costa desejava – tanto mais que pelo menos dois dos secretários de Estado exonerados lhe são muito próximos, João Vasconcelos e Rocha Andrade.
Entretanto, também o assessor para as questões económicas do primeiro-ministro, Vitor Escária, já foi ouvido pelo Ministério Público e constituído arguido, confirmou o Expresso. E deixou as funções que tinha em S. Bento . Saiu cara a ida ao futebol .
Segundo o Observador , os três secretários de Estado são suspeitos de recebimento indevido de vantagem e é este o crime pelo qual serão indiciados.
“Todavia, nas atuais circunstâncias, entendem que não poderão continuar a dar o seu melhor contributo ao Governo e pretendem que o executivo não seja prejudicado, na sua ação, por esta circunstância”, justificando assim o seu pedido de exoneração.
Jorge Costa Oliveira, Fernando Rocha Andrade e João Vasconcelos afirmam que foram “sempre transparentes” sobre esta questão e “reafirmam a sua firme convicção de que os seus comportamentos não configuram qualquer ilícito”, o que dizem querer “provar no decorrer do referido inquérito”.
Os três governantes, que ontem se reuniram com o primeiro-ministro, que aceitou os pedidos de demissão (“Não podia negar-lhes esse direito” , disse ao Público), divulgaram uma nota na qual afirmam que decidiram “exercer o seu direito de requerer ao Ministério Público a sua constituição como arguidos”, depois de terem tido conhecimento de que “várias pessoas foram ouvidas pelo Ministério Público e constituídas como arguidas no âmbito de um processo inquérito relativo às viagens organizadas pelo patrocinador oficial da seleção portuguesa de futebol, durante o campeonato da Europa de 2016”. (Curiosamente, hoje passa um ano que a selecção portuguesa venceu o Euro 2016 , ganhando no final à anfitriã França por 1-0, com um golo no prolongamento do improvável Éder).
Talvez a música tenha vindo à memória de António Costa quando foi confrontado ontem com a demissão de três secretários de Estado: o da Inovação (João Vasconcelos), o dos Assuntos Fiscais (Fernando Rocha Andrade) e o da Internacionalização (Jorge Costa Oliveira). Motivo: a suspeita de que iriam ser constituídos arguidos no âmbito do inquérito aberto pelo Ministério Público a propósito das viagens que fizeram para assistirem ao Euro 2016 em França a convite da Galp, patrocinador oficial da selecção portuguesa desde 1999 (e que durante todos estes anos convidou muitos e variados políticos, empresários, gestores, jornalistas e pessoas de várias outras profissões para assistirem aos jogos de Ronaldo & Companhia).
Em 2008, José Mário Branco lançava um novo álbum . Um dos temas tinha por título “Inquietação”. O refrão era assim: “Cá dentro inquietação, inquietação / É só inquietação, inquietação / Porquê, não sei / Porquê, não sei / Porquê, não sei ainda / Há sempre qualquer coisa que está prá acontecer / Qualquer coisa que eu devia perceber / Porquê, não sei / Porquê, não sei / Porquê, não sei ainda (…)”
OUTRAS NOTÍCIAS
O mundo, no entanto, continuou a girar.
Mossul caiu finalmente, ao fim de nove meses de combates, nas mãos do exército iraquiano. É excelente mas convém não entrar em euforias. O Daesh provou que não é um bando de maltrapilhos. E continua a manter na sua posse várias cidades no norte do país
O primeiro-ministro iraquiano, Haidar al Abadi, chegou ontem a Mossul e felicitou o exército pela “grande vitória” frente aos jihadistas do grupo Estado Islâmico. O comandante das Forças Antiterroristas iraquianas, Ali Awad, assegurara, contudo, ontem de manhã à agência espanhola EFE que alguns combatentes do EI estavam a oferecer resistência na zona de Al Midan, o último reduto dos radicais na localidade do norte do Iraque.
Entretanto, o Presidente dos EUA, Donald Trump, assegurou ontem que pressionou “duramente” Vladimir Putin, durante a cimeira do G20, sobre a alegada ingerência russa nas eleições norte-americanas e considerou que é o momento de ter uma relação “construtiva”. "Pressionei duramente o Presidente Putin, em duas ocasiões, sobre a ingerência russa nas nossas eleições. Ele negou-o veementemente. Eu já dei a minha opinião", escreveu Donald Trump na rede social Twitter, após a primeira reunião com o seu homólogo russo, que durou mais de duas horas, segundo a agência de notícias espanhola EFE.
Ora atendendo a que a suposta ingerência russa nas eleições norte-americanas, a ter existido, favoreceu Trump e penalizou Hillary Clinton, não se percebe se isto é uma “fake news” ou se trata de “factos alternativos”. Por outras palavras, se é para rir ou para chorar.
Para deitar mais achas na fogueira, o New York Times revelou ontem que o filho de Trump, Donald Trump Jr., se encontrou com uma advogada russa durante a campanha eleitoral que lhe prometeu informações sobre Hillary Clinton, a adversária do pai na corrida à Casa Branca. Na reunião estiveram também Jared Kushner e o então director de campanha de Trump, Paul Manafort.
Na Venezuela, após mais de três anos na cadeia e de três meses de manifestações consecutivas contra o regime de Nicolás Maduro, Leopoldo López, rosto da oposição, foi transferido para casa onde se encontra em prisão domiciliária, por decisão do Supremo Tribunal de Justiça.
A libertação de López acontece depois de meses e meses de negociações, de pressão e mediação internacional, ao mais alto nível, de manifestações de protesto contra o regime de Nicolás Maduro.
Outro ponto de tensão no mundo: na Coreia do Norte, a imprensa oficial classificou ontem uma “provocação” o envio de dois bombardeiros norte-americanos para a península coreana para fazer exercícios e advertiu que estas manobras “podem causar uma guerra nuclear”. “Um simples erro ou mal-entendido pode conduzir à eclosão de uma guerra nuclear", alertou o diário oficial do Partido dos Trabalhadores.
No Quénia, uma ponte que estava a ser construída por um consórcio chinês colapsou apenas duas semanas depois da visita do presidente do país Uhuru Kenyatta. O projeto de mais de 10 milhões de euros tornou-se assim numa fonte de embaraço para o líder, que está em campanha para as eleições de agosto. Pois, a qualidade da construção chinesa não é das melhores. Talvez seja por isso que é mais barata…
Por cá, a ANA – Aeroportos de Portugal, vai aumentar as taxas aeroportuárias de Lisboa e Porto em Outubro e Dezembro. O atraso na entrada em vigor das taxas para 2017 e erros de estimativa de tráfego anual de passageiros são as justificações. Faro escapa à subida. Se não estou em erro, esta é a décima subida das taxas aeroportuárias desde que os franceses da Vinci ganharam por 50 anos a concessão para a gestão dos aeroportos nacionais.
Quase dez anos depois de se ter iniciado, o caso da Universidade Independente conhece hoje a decisão judicial, com o Ministério Público a pedir a condenação do ex-vice-reitor Rui Verde e do acionista maioritário Lima de Carvalho e após a morte do reitor Luis Arouca.
FRASES
“Não sei formar na Parada nem marchar com o passo trocado, violando valores e princípios (…) Com a exoneração dos cinco comandantes [por decisão do Chefe do Estado Maior do Exército, Rovisco Duarte] houve uma quebra do vínculo sagrado entre comandantes e subordinados que foi quebrado””. Tenente-general Faria Menezes, atual comandante operacional das Forças Terrestres, ao justificar na sua página do Facebook porque vai apresentar esta segunda-feira a sua demissão do cargo. Infelizmente, o senhor tenente-geral não nos revela o que faria no caso de ser ele o CEME perante o gravíssimo roubo de armamento dos paióis de Tancos – embora, felizmente, tenha esclarecido, em declarações ao Expresso, que a sua demissão nada tem a ver com o facto de ter sido preterido para o cargo de vice-chefe de Estado-Maior do Exército, facto de que já tinha sido informado antes de acontecer o roubo de Tancos. Estamos muito mais descansados.
“Aquilo que me parece é que, aos poucos, à medida que vamos voltando à normalidade, conduzidos pela solução política que lidera, ou que apoia o actual governo, vamos regressando às más práticas, aos maus hábitos, aos vícios que estiveram na origem dos erros que nos levaram aonde ninguém desejaria que se tivesse chegado”. Pedro Passos Coelho, presidente do PSD, mantendo o seu aviso de que o diabo há-de chegar. Não foi em Setembro, mas há-de vir.
“Por que não estar aqui na quadra do Natal ou trazer a família?”. Marcelo Rebelo de Sousa, em declarações aos jornalistas, admitindo a possibilidade de ir passar a época das festas a Pedrógão Grande. Marcelo não perde uma oportunidade de ganhar o campeonato da popularidade.
“O homem que não dá a cara e que se chama António Costa está desaparecido em combate. Temos um primeiro-ministro ‘missing in action’. Está dado como desaparecido”. Paulo Rangel, eurodeputado do PSD, que também não morre de amores por Pedro Passos Coelho.
O QUE ANDO A LER. E A OUVIR.
“Trilogia suja de Havana” (2001), o primeiro livro que li de Pedro Juan Gutiérrez, impressionou-me. Aquilo era o retrato impiedoso, sem filtros, de Havana pós-revolução, nos anos mais difíceis do bloqueio comercial imposto pelos Estados Unidos. Não era um olhar político mas um olhar social: o que faziam os cubanos para s
obreviver à fome. E não era bonito de ser ver. O segundo livro, “O Rei de Havana” (2002) ia no mesmo sentido e carregava ainda mais nas tintas. “Animal Tropical” (2003), “O Insaciável Homem-Aranha (2004) e “Carne de Cão” (2005) iam no mesmo sentido, encerrando o “Ciclo do Centro de Havana”. Depois não encontrei novos livros dele. Gutiérrez, nascido em 1950 em Matanzas, vive em Cuba e nunca saiu de lá. Exerceu mais profissões do que os livros de prosa e poesia que escreveu: “vendedor de gelados e jornais, instrutor de caiaques, cortador de cana-de-açúcar e trabalhador agrícola, soldado, locutor de rádio e jornalista, entre outras que prefere esquecer”. Na última Feira do Livro descobri “O nosso GG em Havana”, pelos vistos escrito em Havana em 2001-2002 e editado também pela Dom Quixote. O GG é o escritor americano Graham Greene e, sendo uma história que se lê com interesse, está longe da força dos cinco volumes do Ciclo. Em qualquer caso, vale a pena ler Gutiérrez. Não tem a escrita depurada e elegante de um Guillermo Cabrera Infante nem é um romancista sólido como Leonardo Padura Fuentes. Mas os seus livros revelam a violência quotidiana de que foi vítima Reinaldo Arenas, não a violência contra os homossexuais que Arenas retratou de forma brutal em “Antes que anoiteça”, mas a violência de várias famílias a viver em apartamentos onde devia viver apenas uma, a luta por conquistar esses espaços, a procura diária por comida, as humilhações para conseguir um pouco de carne, a prostituição junto de estrangeiros para obter alguns dólares. Recomendo que comece por “Trilogia suja de Havana”. Se tiver estômago, vai querer ler todos os outros livros de Gutiérrez.
Quanto a música: em 2012 ou 2013 recebi um envelope com um CD, de um tal Pierre Aderne, de que eu nunca tinha ouvido falar. Chamava-se “Bem me quer mar me quer”. Andou por cima da secretária algum tempo antes de o meter no carro e começar a ouvi-lo. Não sei se foi amor à primeira vista, mas seguramente que desde o início que encontrei várias faixas de que gostei muito. O tempo passou, o CD foi para casa e em casa tornou-se um dos mais ouvidos, variando entre a boa música brasileira e a morna, fazendo parcerias com J.P.Simões, Sara Tavares, Jorge Palma, Luanda Cozetti, Mário Laginha e Pedro Jóia, entre outros. Ora, quem faz boa música e consegue juntar tantos talentos tem de ser um grande músico e uma pessoa com muitos talentos. Resumindo e concluindo, conheci finalmente Pierre Aderne esta semana sem saber (uma história hilariante) que estava a falar com ele. Só quando cheguei a casa é que descobri. E no sábado estive numa sessão organizado por ele e com o José Eduardo Agualusa, onde nos rimos bastante. Resumindo e concluindo, se gosta da grande música brasileira compre “Bem me quer mar me quer”. E depois vá atrás e compre também “Caboclo”. Ou chegue-se à frente e adquira o mais recente CD de Aderne “Da janela de Inês”. Boa música em boa companhia.