O frentismo e as linhas vermelhas…

21-09-2016
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Desde a ‘Revolução dos Cravos’ de 1974 que o país tem sido um terreno fecundo para as sementeiras das esquerdas. É certo que vão longe os tempos da reforma agrária, das ocupações selvagens, das nacionalizações, da ‘dinamização cultural’, dos soldados de rosto encoberto e da histeria política comicieira de Vasco Gonçalves, um militar alçado a primeiro-ministro por artes do PCP. Os métodos mudaram. Os objetivos, não.

Os comunistas impuseram, então, as suas regras, asfixiando a democracia recém-nascida. Os arquivos da polícia política, a Pide-DGS – devassados e apropriados por gente que tinha objetivos bem definidos –, serviram para não poucas chantagens e coações. Foi a época em que Saramago – futuro Nobel da Literatura – destilava rancores inflamados nas suas notas de primeira página do Diário de Noticias.

O sucesso das forças moderadas no 25 de Novembro de 1975 fez estremecer o PCP, salvo in extremis por Melo Antunes, o ideólogo do 25 de Abril. Fez bem, apesar de tudo. Os ajustes de contas deixam sempre marcas.

O recuo tático do PCP serviu para descrispar o ambiente, mas sem nunca abdicar da sua ortodoxia ideológica.

Tanto Cunhal como os seus sucessores aprenderam a conviver com a democracia representativa por obrigação de ofício.

A queda do Muro de Berlim, em Novembro de 1989, e o colapso da União Soviética, dois anos mais tarde, precipitaram o fim da lógica do mundo bipolar e da guerra-fria. E tocou a finados para os principais partidos comunistas europeus, que entraram em coma irreversível, sem direito a encomendação da alma.

O PCP, porém, resistiu ao contágio e sobreviveu como um dos últimos redutos onde ainda se acredita nos ‘amanhãs que cantam’.

Afastados do Governo desde 1975, os comunistas devem à derrota eleitoral do PS de António Costa o facto de gravitarem novamente na órbita do poder. Com a vantagem de mandarem, sem se comprometerem. Ou seja: participam mas não entram.

Vigiado de perto pelo Bloco, o PCP enfrenta a concorrência de um trio feminino muito cool, ungido por Francisco Louçã, um ideólogo radical de falas mansas.

A nova ordem na ‘união de facto’ das esquerdas consiste na ocupação paulatina do aparelho de Estado, sem levantar ondas.

Depois de simular um despojamento partidário que não aconteceu, Louçã desenha nos bastidores a estratégia, enquanto enverga as vestes académicas e de conselheiro de Estado.

A nova pose, porém, não engana. Há dias, orador na rentrée do Bloco, declarou urbi et orbi que «A União Europeia é um projeto falhado». Afirmação leviana, mas fiel à doutrina em vigor no Bloco, em defesa do abandono da União e do euro, sob a bandeira de um soberanismo patrioteiro.

Foi exatamente esta «repreensão oportunista» que mereceu as críticas de Jaime Gama, ao intervir na Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide.

Com a lucidez que tem faltado a muita gente no interior do PS, Gama lamentou os que se fixam «na descrença, no desinteresse, na piada fácil, na reivindicação imediata», e lembrou, com autoridade, que «os que não passam certidões de óbito à União Europeia são os que estão no bom caminho».

O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros sabe do que fala.

Não é esse, claramente, o caminho de Jerónimo, de Louçã ou, até, de José Manuel Pureza, outro bloquista da linha da frente, que preconiza, sem tibiezas, que o Governo «em muitas situações vai ter que desobedecer a Bruxelas».

Perante a hostilidade aberta à União Europeia, bem pode Catarina Martins vir à boca de cena dizer que «o país sabe que o BE é uma garantia de estabilidade». Só por piada.

É tão absurdo como Louçã invocar, escamoteando os números, a «degradação das condições de vida das classes populares». Bastaria ao professor de economia consultar os dados públicos do Banco Mundial ou da

Pordata para verificar o seu erro de avaliação. A trajetória do PIB per capita, desde que Portugal aderiu à Comunidade Europeia e à moeda única, é suficiente para desmenti-lo.

Por estas e por outras, a esquerda festiva acaba por validar Pedro Passos Coelho quando há dias se interrogava: «Mas quem é que põe dinheiro num país dirigido por comunistas e bloquistas?». Infelizmente, os indicadores mais recentes não o contradizem.

Segundo o relatório anual da agência para o desenvolvimento das Nações Unidas, o investimento estrangeiro direto em Portugal caiu cerca de 1 400 milhões de euros no ano passado. As incertezas ditaram a quebra. Não consta que essa tendência se tenha entretanto invertido. As reversões deram uma boa ajuda.

Valha-nos o turismo, em contraciclo otimista. Até que as ‘linhas vermelhas’ definidas com zelo pelo PCP e Bloco aconselhem a ‘indústria de paz’ a procurar outros destinos. Os devaneios da frente de esquerda insistem numa peça que é uma ratoeira vazia.

Desde a ‘Revolução dos Cravos’ de 1974 que o país tem sido um terreno fecundo para as sementeiras das esquerdas. É certo que vão longe os tempos da reforma agrária, das ocupações selvagens, das nacionalizações, da ‘dinamização cultural’, dos soldados de rosto encoberto e da histeria política comicieira de Vasco Gonçalves, um militar alçado a primeiro-ministro por artes do PCP. Os métodos mudaram. Os objetivos, não.

Os comunistas impuseram, então, as suas regras, asfixiando a democracia recém-nascida. Os arquivos da polícia política, a Pide-DGS – devassados e apropriados por gente que tinha objetivos bem definidos –, serviram para não poucas chantagens e coações. Foi a época em que Saramago – futuro Nobel da Literatura – destilava rancores inflamados nas suas notas de primeira página do Diário de Noticias.

O sucesso das forças moderadas no 25 de Novembro de 1975 fez estremecer o PCP, salvo in extremis por Melo Antunes, o ideólogo do 25 de Abril. Fez bem, apesar de tudo. Os ajustes de contas deixam sempre marcas.

O recuo tático do PCP serviu para descrispar o ambiente, mas sem nunca abdicar da sua ortodoxia ideológica.

Tanto Cunhal como os seus sucessores aprenderam a conviver com a democracia representativa por obrigação de ofício.

A queda do Muro de Berlim, em Novembro de 1989, e o colapso da União Soviética, dois anos mais tarde, precipitaram o fim da lógica do mundo bipolar e da guerra-fria. E tocou a finados para os principais partidos comunistas europeus, que entraram em coma irreversível, sem direito a encomendação da alma.

O PCP, porém, resistiu ao contágio e sobreviveu como um dos últimos redutos onde ainda se acredita nos ‘amanhãs que cantam’.

Afastados do Governo desde 1975, os comunistas devem à derrota eleitoral do PS de António Costa o facto de gravitarem novamente na órbita do poder. Com a vantagem de mandarem, sem se comprometerem. Ou seja: participam mas não entram.

Vigiado de perto pelo Bloco, o PCP enfrenta a concorrência de um trio feminino muito cool, ungido por Francisco Louçã, um ideólogo radical de falas mansas.

A nova ordem na ‘união de facto’ das esquerdas consiste na ocupação paulatina do aparelho de Estado, sem levantar ondas.

Depois de simular um despojamento partidário que não aconteceu, Louçã desenha nos bastidores a estratégia, enquanto enverga as vestes académicas e de conselheiro de Estado.

A nova pose, porém, não engana. Há dias, orador na rentrée do Bloco, declarou urbi et orbi que «A União Europeia é um projeto falhado». Afirmação leviana, mas fiel à doutrina em vigor no Bloco, em defesa do abandono da União e do euro, sob a bandeira de um soberanismo patrioteiro.

Foi exatamente esta «repreensão oportunista» que mereceu as críticas de Jaime Gama, ao intervir na Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide.

Com a lucidez que tem faltado a muita gente no interior do PS, Gama lamentou os que se fixam «na descrença, no desinteresse, na piada fácil, na reivindicação imediata», e lembrou, com autoridade, que «os que não passam certidões de óbito à União Europeia são os que estão no bom caminho».

O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros sabe do que fala.

Não é esse, claramente, o caminho de Jerónimo, de Louçã ou, até, de José Manuel Pureza, outro bloquista da linha da frente, que preconiza, sem tibiezas, que o Governo «em muitas situações vai ter que desobedecer a Bruxelas».

Perante a hostilidade aberta à União Europeia, bem pode Catarina Martins vir à boca de cena dizer que «o país sabe que o BE é uma garantia de estabilidade». Só por piada.

É tão absurdo como Louçã invocar, escamoteando os números, a «degradação das condições de vida das classes populares». Bastaria ao professor de economia consultar os dados públicos do Banco Mundial ou da

Pordata para verificar o seu erro de avaliação. A trajetória do PIB per capita, desde que Portugal aderiu à Comunidade Europeia e à moeda única, é suficiente para desmenti-lo.

Por estas e por outras, a esquerda festiva acaba por validar Pedro Passos Coelho quando há dias se interrogava: «Mas quem é que põe dinheiro num país dirigido por comunistas e bloquistas?». Infelizmente, os indicadores mais recentes não o contradizem.

Segundo o relatório anual da agência para o desenvolvimento das Nações Unidas, o investimento estrangeiro direto em Portugal caiu cerca de 1 400 milhões de euros no ano passado. As incertezas ditaram a quebra. Não consta que essa tendência se tenha entretanto invertido. As reversões deram uma boa ajuda.

Valha-nos o turismo, em contraciclo otimista. Até que as ‘linhas vermelhas’ definidas com zelo pelo PCP e Bloco aconselhem a ‘indústria de paz’ a procurar outros destinos. Os devaneios da frente de esquerda insistem numa peça que é uma ratoeira vazia.

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