Texto: Daniela Meirelles da Maia
Layout: Jorge Manuel Seabra de Melo
Pesquisa: Sandra de Oliveira Oneto
Bolas de Berlim – FOTO: Google Images Refª 201907132248 – www.bijoudecascais-pt
A pastelaria do bairro foi, é, esperamos que continue a ser, um microcosmo do pulsar da cidade. Todos os fins de tarde forte, fiel, façanhuda, décadas seguidas de décadas, foi um bastião do Pensamento Livre uma tertúlia alicerçada em bicas escaldadas e controversas conversas a debater a evolução do país, os altos e baixos da política, os escândalos descobertos e tradicionalmente impunes e as mentiras descaradamente bolsadas por ministros, deputados e meros servidores das diversas máquinas de propaganda partidárias. Curiosamente a pastelaria do bairro “Fundada em 1940” como orgulhosamente atesta a sua longevidade, ostenta a toda a largura da fachada o pomposo título de “Café Berlim”. Segundo uns porque o primeiro proprietário era um ferrenho e incondicional admirador de Hitler tendo os sucessivos donos mantido o nome porque, na sua óptica, fabricam e vendem as melhores bolas de Berlim do mundo e arredores. Presunção e água benta cada um toma a que quer. Na douta opinião do “Grupo da Tertúlia” não são melhores nem piores do que todos os que pululam por aí incluindo os que se vendem nas praias aos felizardos cuja conta bancária lhes permite duas semanas no Algarve ou, quem pode é que apresenta, no badalado Sul de Espanha.
Os membros da “Tertúlia do Fim do Dia” é um conjunto heterogéneo que abrange um estudante do Técnico, uma professora da Católica reformada, um engenheiro de sistemas informáticos, um retornado de Angola mais azedo que vinagre de vinho, o dono da padaria da esquina, um jornalista da televisão, duas donas de casa, um actor de telenovelas e, como não podia faltar uma alpinista social daquelas que dão as caras às revistas especializadas em fofocas de baixo nível e diz-se diz-se quanto baste. Instalados em duas mesas grandes onde apertados escalpelizam o Estado da Nação os mafiosos malabarismos do Costa, os disparates do disparatado Rui Rio, o ódio cuspido pela boca do dinossáurico Jerónimo de Sousa ou pelo populismo rasca da Catarina Martins desmontam passo a passo se o país progride ou regride.
Muito riso, pouco siso… – FOTO: Google Images – Refª 209071247 – www.g1.globo.com
O engenheiro informático meteu a sua colherada relatando que a porteira do prédio onde habita foi à farmácia e não pôde comprar o medicamento receitado porque deixou de ser comparticipado tendo a farmacêutica esclarecido que têm sido às dezenas os fármacos riscados da lista em especial os mais caros e os das doenças de pele que se contam pelos dedos duma só mão aqueles que o Estado ainda comparticipa. E continuou: e vergonha das cativações, essa vigarice técnica a que o Centeno deitou mão para as contas baterem certas à custa de milhares de desgraçados a quem foi negado o mínimo dos mínimos situação aberrante que até parece que vivemos num país africano onde a civilização ainda não chegou. E deu números: só em 2018 mais de dois mil doentes não foram operados por faltas de tudo, cirurgiões, anestesistas, enfermeiros de bloco, etc
Findo o apanhado geral do Estado da Nação a tertúlia concluiu que Centeno não é o “Ronaldo das Finanças”, mas sim o discípulo dileto de Oliveira Salazar. Em boa verdade ambos divinizaram a obsessão de que o Défice deve ter primazia absoluta sobre a qualidade de vida do povo. Vivemos tempos em que a mentira é o catecismo dos que se alcandoraram aos píncaros do Poder. À mentira de que a Austeridade acabou todos os dias a realidade mostra à evidência que sofremos uma absurda carga fiscal superior e pior à que nos foi coercivamente imposta nos piores anos da famigerada Troika. O eterno sorriso de Centeno é mais repugnante que a cara de pau de Víctor Gaspar. Gata escondida com o rabo de fora a ministra da Saúde com uma demagogia eticamente inaceitável tenta deitar-nos poeira para os olhos descrevendo a quase caótica situação dos hospitais como se vivêssemos no País das Maravilhas esquecida que todas as noites os telejornais mostram imagens chocantes de pessoas reais, de Norte a Sul do país, a queixarem-se que os serviços públicos de Saúde nunca estiveram tão degradados como agora.
Marta Temido – Ministra da Doença – FOTO: www.direitapolitica.com
Como os enfermeiros não temem a senhora Temido não abdicam de lutar por melhores condições laborais. No fundo, no fundo, mas mesmo no mais fundo do pensamento da governante escolhida por Costa para gerir uma tão difícil pasta não se encontra mentalmente uma grande afinidade com os ideais básicos da Democracia. Vejamos. Com calma. Com objectividade. Com a isenção e respeito que merecem todos os que não concordam com as nossas ideias. Falando urbi et orbi a senhora Temido afirma com convicção que o princípio básico de negociar encerra em si mesmo um privilégio que beneficia a parte contrária. Como consequência todo e qualquer argumento que os enfermeiros invocassem não deveriam merecer mais do que uma repulsa imediata sem o democrático direito ao contraditório. Nunca iríamos classificar a senhora Temido como fascista porque no pântano político em que vivemos (do qual o socialista Guterres fugiu…) pertencer à Extrema-Esquerda é constitucionalmente permitido ao mesmo tempo que navegar nas águas das ideias da Extrema-Direita é um crime que a bem da Democracia deve ser punido.
Marta Temido, de sua graça Marta Alexandra Fartura Braga Temido de Almeida Simões, sobra-lhe em apelidos sonantes o muito que lhe falta em bom senso, maneiras de boa educação em relação ao seu semelhante e respeito pelos interlocutores com quem dialoga. Uma fartura de gaffes, miríades de tiros no pé, evidentes demonstrações de desprezo pela Ética em várias entrevistas criaram-lhe uma auréola de antipatia, imprópria de quem decidiu tomar posse como o segundo mais importante cargo do geringonçático governo do malabarista político António Costa. Se as palavras são a cristalização das ideias quando classificou a digna classe dos enfermeiros como “criminosos” e também “infratores” sabia perfeitamente o que estava a dizer e o farisaico remendo de depois dos insultos ter descido à terra para disfarçar a má educação não a absolve como cidadã, como governante, como agente activo na evolução da Res Publica entendida como um conceito social duma construção social e simbólica de um contexto histórico específico. Neste caso o Portugal Novo saído da Revolta Militar Corporativa do 25 de Abril. Marta Temido, como case study duma estrutura mental, já ultrapassou de longe, mas mesmo muito de longe, a injustamente inconseguimentada ostracizada Assunção Esteves que sic transit gloria mundi não mais voltámos a ver em entrevistas na Televisão, não lemos em artigos da Imprensa, nem navega nas redes sociais ou na boatagem em que Lisboa é fértil.
De muitas coisas podemos acusar Marta Temido. Nunca de ignorante. Ela sabe perfeitamente o valor das palavras. Licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito da velha Universidade de Coimbra. Tirou um Mestrado em Gestão e Economia da Saúde, pela Faculdade de Economia na mesma universidade. Doutorou-se em Saúde Internacional pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa. Não é uma pobre qualquer analfabeta ou alguém que não conseguiu acabar o Básico. As desculpas que depois apresentou à Bastonária da Ordem dos Enfermeiros cheiram a remendo de plástico vindo da vontade de limpar a sua péssima imagem pública nascida duma calculada jogada política, nunca duma pureza nascida do coração
Marta Temido acabará como Albino dos Reis (presidente da Assembleia Nacional salazarista) ou como Maria de Lourdes Pintasilgo (breve Primeira-ministra de Agosto de 1979 a 3 de Janeiro de 1980, uns módicos quatro meses e 3 dias…) políticos que não deixaram obra, passaram e hoje ninguém sabe quem foram. Pobre Marta Temido, julga-se a mítica Raínha do Sabá que acabará daqui por algumas décadas num quem é? num não sei! num nunca ouvi falar!
Num “Requiescat in pace”…
Maria de Fátima Bonifácio – Coragem de Pensar – FOTO: http://www.ics.ulisboa.pt
Adoro o país onde nasci, onde casei, enviuvei, criei seis filhos e me deslumbro com o crescimento dos meus cinco netos. Mas se, como cantava o Tomás Alcaide, “o amor é cego e vê”, posso garantir que tenho a noção exacta da dimensão real do nosso país em todas as vertentes: dimensão do território, população, valores agrícolas e industriais, etc. Reparem nalguns números e ponham de lado a veleidades clubísticas que somos os melhores do Mundo. Não somos. A nosa área total cifra-se nuns modestíssimos 92.256 km2 um quase nada se os compararmos com os 9.597.000 da China ou, upa upa, com os 17.00.000 da Rússia. Já dá que pensar. E cidades? Só irei citar quatro. Comecemos por nós: Lisboa (Área Metropolitana/Censo 2011) 2.821,697. Tóquio 37.126000. Jacarta 26.063.000. Seul 22.547.000. Já pensaram o número de problemas que os políticos destes países têm que resolver? Dos abastecimentos aos transportes, das escolas aos hospitais, dos aeroportos às redes das ferrovias, etc, etc. Somos pequeninos, convençam-se. Não tenhamos vergonha. Somos um povo que com políticos medíocres fez mais do que muitos outros. Políticos medíocres, estarei a ser injusta? Não me parece. Já vivi uns anos na Holanda, muito mais pequena que nós e as diferenças são abissais. Em tudo. Mas mesmo em tudo. E a Dinamarca? E os minúsculos países bálticos? E o Luxemburgo pequeno entre os pequenos, mas cujos cidadãos gozam do maior nível de vida da Europa.
Só vou deitar mais uma acha para a fogueira: o que na verdade torna um país rico é a riqueza de cérebros que lá vivem. Conheço vários casos. Só vos vou dar um por ter conversado quando estagiei em Manchester (sou mesmo uma cidadã do Mundo…) por incumbência da multinacional onde à época trabalhava. Conheci e privei com o holandês Andre Geim e o russo Konstantin Novoselov que apenas com um lápis e um pedaço de fita adesiva descobriram o grafeno, um derivado da grafite, um produto que irá revolucionar a Indústria da Electrónica. O imenso valor desta descoberta valeu a estes dois Professores de Física na Universidade de Manchester o Prémio Nobel de 2010.
Desculpem desiludir-vos. Na noite comemorativa dos quarenta anos do 25 de Abril a RTP transmitiu o seu programa “Prós e Contras” do Largo do Município e convidou alguns militares intervenientes e responsáveis por essa revolta a par de estudantes, jornalistas, políticos e tutti quanti pudessem dar testemunho das melhorias proporcionadas ao povo português. Cito de memória, perdoem qualquer inexatidão. Houve elogios e bater de palmas. Houve críticas e ranger de dentes. Recordo um jovem que a Fátima Campos Ferreira apresentou como “estar a tirar um Mestrado em Ciência Política na Universidade de Cambridge” que no uso da palavra explicou que as Universidades portuguesas estão desactualizadas nos métodos de Ensino porque nas aulas se centram mais na transmissão de dados do que incentivar os alunos a pesquisarem para desenvolverem as suas inatas capacidades de investigação. Caiu o Carmo e Trindade. Só não foi linchado na via pública porque havia polícia por perto.
E entra agora a Maria de Fátima Bonifácio que tem andado nas bocas do mundo não por ter acumulado milhões com negociatas duvidosas como o Ministério Público anda a investigar um socialista muito conhecido, mas porque publicou no jornal “Público” um artigo que causou muitos engulhos à Esquerda-Folclórica da Catarina Martins e ao venerável ancião Jerónimo de Sousa um saudosista da velha e desaparecida União Soviética e grande defensor entre nós do esfumado Marxismo-Leninismo que desapareceu sem deixar saudades e apodreceu no caixote do lixo da História.
Li o artigo de Fátima Bonifácio. Concordo com algumas ideias. Discordo de algumas ideias. Pelo sim pelo não reli atentamente o texto para alicerçar ou desfazer dúvidas. Pasmo não com o artigo, mas com a polémica e cataratas de insultos que despertou entre a Estupidenttsia cá do burgo. Os destiladores de ódios recalcados desceram a terreiro para por todos os meios disponíveis achincalharem a pobre senhora. Paira no ar um reprimido desejo de amarrarem Fátima Bonifácio ao Pelourinho e flagelarem-na até escorrer sangue pelas costas. Há um cheirinho a incenso e saudades da Santa Inquisição. Privei e fui amiga da Professora Maria de Lourdes Belchior que conheci no auditório da Igreja de Santa Isabel numa série de colóquios em que ela participou com outros dois amigos meus Rui Grácio e Joel Serrão. Foi numa dessas suas intervenções que definiu Portugal como a “Doutoralândia” dado o nosso costume de venerarmos simples licenciados como deuses dum Olimpo da Cultura. Nunca fui apresentada a Maria de Fátima Bonifácio, nunca apertámos a mão e confesso a minha ignorância em relação a uma intelectual que me garantiram agora ser de primeira escolha e fora do catálogo. Urgia colmatar essa vergonhosa falha. Averiguei que…
…em 1997 se licenciou em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1978 entrou para o Gabinete de Investigações Sociais. Em 1981 foi admitida no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Em 1990 doutorou-se em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com a tese “A Via Proteccionista do Liberalismo Português: política e economia nas relações luso-britânicas, 1834-43”. Foi Professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, pelo Departamento de História, tendo feito a sua agregação a essa instituição em 1998.
No brilhante decurso da sua vida académica colaborou com dois gigantes da Intteligentsia Portuguesa: Maria Filomena Mónica e Vasco Pulido Valente. Maria de Fátima Bonifácio não é uma qualquer…
Humildemente reconhecemos não termos carga cultural para intervir numa polémica que envolve algumas das maiores sumidades da Cultura Portuguesa. Mas devemos chamar a atenção para a finesse interventiva e a elevada elegância do uso da Língua Portuguesa do Exmº Senhor (Doutor?) Mamadou Ba assessor do partido comunista-maoista Bloco de Esquerda e director da entidade “SOS Racismo” que referindo-se aos lamentáveis factos ocorridos no Bairro Jamaica no Seixal publicou um texto no Facebook (reproduzido pelo jornalista Rui Pedro Marques num seu artigo publicado no Jornal Online “OBSERVADOR”) definiu os agentes da Polícia de Segurança Pública como, transcrevemos, “a bosta da bófia”.
Quando o discurso político dum assessor dum partido com assento na Assembleia da República desce a um nível mais baixo que uma discussão entre prostitutas alcoolizadas o artigo de Maria de Fátima Bonifácio é música celestial e devia ser ensinado nas escolas. Como dizia o meu falecido marido “pelo andar da carruagem se vê quem lá vai dentro”. Mas deste fait divers algo há que louvar: a Liberdade de Expressão é sagrada tanto para os Marcelos Professores de Direito como para os Mamadous da Bófia…
Almeida Garrett – Herói da Liberdade injustamente esquecido – Litografia de Pedro Augusto Gugliemi – in Biblioteca Nacional – Domínio Público
Numa actualidade triste em que num desacreditado Parlamento tantas cabeças ocas, convencidas de serem génios, só cospem dicursos vazios de ideias e aleivosias em catadupa não resisto em fechar com chave d’ouro contando um facto verídico passado nas Cortes liberais depois do fim do Absolutismo que dominava o país. Numa tarde em que se discutia uma lei bastante avançada e algo controversa um digno representante do povo que tinha em vaidade o que lhe faltava em inteligência discursava gastando minutos com parvajolices de bradar aos céus. A certa altura avolumando o timbre e a voz declarou com a habitual empáfia. : todo o mundo concorda que…”. Garrett um pouco distante sussurrou, mas de forma que todos ouvissem: “todo o mundo não…”. O empafiouso deputado falando bem mais alto contrapôs: “muita gente concorda que…”. Novamente Garrett atacou: “muita gente também não…”. Já espumando não contida raiva o imbecil deputado, gritando exasperado por tantas interrupções atirou um argumento que lhe parecia ir acabar com os apartes de Garrett: “pois fique sabendo que eu acho que…”. Não acabou a frase. Garrett levantou-se, virou-se para o apatetado pai da pátria e pôs um ponto final na questão: “e faz Vossa Excelência muitíssimo bem porque agora, felizmente, em Portugal a asneira é livre…”. O areópago levantou-se aplaudindo fortemente. O enxovalhado peralvilho meteu o papel do discurso no bolso deu meia volta e saiu de monco caído, orelhas murchas e de vergonha corado.
“Não há nada novo debaixo do sol”, Eclesiastes 1:9. A nossa Assembleia da República, quase todos os dias, de escândalo em escândalo, confirma diariamente este douto pensamento…
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Texto: Daniela Meirelles da Maia
Layout: Jorge Manuel Seabra de Melo
Pesquisa: Sandra de Oliveira Oneto
Bolas de Berlim – FOTO: Google Images Refª 201907132248 – www.bijoudecascais-pt
A pastelaria do bairro foi, é, esperamos que continue a ser, um microcosmo do pulsar da cidade. Todos os fins de tarde forte, fiel, façanhuda, décadas seguidas de décadas, foi um bastião do Pensamento Livre uma tertúlia alicerçada em bicas escaldadas e controversas conversas a debater a evolução do país, os altos e baixos da política, os escândalos descobertos e tradicionalmente impunes e as mentiras descaradamente bolsadas por ministros, deputados e meros servidores das diversas máquinas de propaganda partidárias. Curiosamente a pastelaria do bairro “Fundada em 1940” como orgulhosamente atesta a sua longevidade, ostenta a toda a largura da fachada o pomposo título de “Café Berlim”. Segundo uns porque o primeiro proprietário era um ferrenho e incondicional admirador de Hitler tendo os sucessivos donos mantido o nome porque, na sua óptica, fabricam e vendem as melhores bolas de Berlim do mundo e arredores. Presunção e água benta cada um toma a que quer. Na douta opinião do “Grupo da Tertúlia” não são melhores nem piores do que todos os que pululam por aí incluindo os que se vendem nas praias aos felizardos cuja conta bancária lhes permite duas semanas no Algarve ou, quem pode é que apresenta, no badalado Sul de Espanha.
Os membros da “Tertúlia do Fim do Dia” é um conjunto heterogéneo que abrange um estudante do Técnico, uma professora da Católica reformada, um engenheiro de sistemas informáticos, um retornado de Angola mais azedo que vinagre de vinho, o dono da padaria da esquina, um jornalista da televisão, duas donas de casa, um actor de telenovelas e, como não podia faltar uma alpinista social daquelas que dão as caras às revistas especializadas em fofocas de baixo nível e diz-se diz-se quanto baste. Instalados em duas mesas grandes onde apertados escalpelizam o Estado da Nação os mafiosos malabarismos do Costa, os disparates do disparatado Rui Rio, o ódio cuspido pela boca do dinossáurico Jerónimo de Sousa ou pelo populismo rasca da Catarina Martins desmontam passo a passo se o país progride ou regride.
Muito riso, pouco siso… – FOTO: Google Images – Refª 209071247 – www.g1.globo.com
O engenheiro informático meteu a sua colherada relatando que a porteira do prédio onde habita foi à farmácia e não pôde comprar o medicamento receitado porque deixou de ser comparticipado tendo a farmacêutica esclarecido que têm sido às dezenas os fármacos riscados da lista em especial os mais caros e os das doenças de pele que se contam pelos dedos duma só mão aqueles que o Estado ainda comparticipa. E continuou: e vergonha das cativações, essa vigarice técnica a que o Centeno deitou mão para as contas baterem certas à custa de milhares de desgraçados a quem foi negado o mínimo dos mínimos situação aberrante que até parece que vivemos num país africano onde a civilização ainda não chegou. E deu números: só em 2018 mais de dois mil doentes não foram operados por faltas de tudo, cirurgiões, anestesistas, enfermeiros de bloco, etc
Findo o apanhado geral do Estado da Nação a tertúlia concluiu que Centeno não é o “Ronaldo das Finanças”, mas sim o discípulo dileto de Oliveira Salazar. Em boa verdade ambos divinizaram a obsessão de que o Défice deve ter primazia absoluta sobre a qualidade de vida do povo. Vivemos tempos em que a mentira é o catecismo dos que se alcandoraram aos píncaros do Poder. À mentira de que a Austeridade acabou todos os dias a realidade mostra à evidência que sofremos uma absurda carga fiscal superior e pior à que nos foi coercivamente imposta nos piores anos da famigerada Troika. O eterno sorriso de Centeno é mais repugnante que a cara de pau de Víctor Gaspar. Gata escondida com o rabo de fora a ministra da Saúde com uma demagogia eticamente inaceitável tenta deitar-nos poeira para os olhos descrevendo a quase caótica situação dos hospitais como se vivêssemos no País das Maravilhas esquecida que todas as noites os telejornais mostram imagens chocantes de pessoas reais, de Norte a Sul do país, a queixarem-se que os serviços públicos de Saúde nunca estiveram tão degradados como agora.
Marta Temido – Ministra da Doença – FOTO: www.direitapolitica.com
Como os enfermeiros não temem a senhora Temido não abdicam de lutar por melhores condições laborais. No fundo, no fundo, mas mesmo no mais fundo do pensamento da governante escolhida por Costa para gerir uma tão difícil pasta não se encontra mentalmente uma grande afinidade com os ideais básicos da Democracia. Vejamos. Com calma. Com objectividade. Com a isenção e respeito que merecem todos os que não concordam com as nossas ideias. Falando urbi et orbi a senhora Temido afirma com convicção que o princípio básico de negociar encerra em si mesmo um privilégio que beneficia a parte contrária. Como consequência todo e qualquer argumento que os enfermeiros invocassem não deveriam merecer mais do que uma repulsa imediata sem o democrático direito ao contraditório. Nunca iríamos classificar a senhora Temido como fascista porque no pântano político em que vivemos (do qual o socialista Guterres fugiu…) pertencer à Extrema-Esquerda é constitucionalmente permitido ao mesmo tempo que navegar nas águas das ideias da Extrema-Direita é um crime que a bem da Democracia deve ser punido.
Marta Temido, de sua graça Marta Alexandra Fartura Braga Temido de Almeida Simões, sobra-lhe em apelidos sonantes o muito que lhe falta em bom senso, maneiras de boa educação em relação ao seu semelhante e respeito pelos interlocutores com quem dialoga. Uma fartura de gaffes, miríades de tiros no pé, evidentes demonstrações de desprezo pela Ética em várias entrevistas criaram-lhe uma auréola de antipatia, imprópria de quem decidiu tomar posse como o segundo mais importante cargo do geringonçático governo do malabarista político António Costa. Se as palavras são a cristalização das ideias quando classificou a digna classe dos enfermeiros como “criminosos” e também “infratores” sabia perfeitamente o que estava a dizer e o farisaico remendo de depois dos insultos ter descido à terra para disfarçar a má educação não a absolve como cidadã, como governante, como agente activo na evolução da Res Publica entendida como um conceito social duma construção social e simbólica de um contexto histórico específico. Neste caso o Portugal Novo saído da Revolta Militar Corporativa do 25 de Abril. Marta Temido, como case study duma estrutura mental, já ultrapassou de longe, mas mesmo muito de longe, a injustamente inconseguimentada ostracizada Assunção Esteves que sic transit gloria mundi não mais voltámos a ver em entrevistas na Televisão, não lemos em artigos da Imprensa, nem navega nas redes sociais ou na boatagem em que Lisboa é fértil.
De muitas coisas podemos acusar Marta Temido. Nunca de ignorante. Ela sabe perfeitamente o valor das palavras. Licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito da velha Universidade de Coimbra. Tirou um Mestrado em Gestão e Economia da Saúde, pela Faculdade de Economia na mesma universidade. Doutorou-se em Saúde Internacional pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa. Não é uma pobre qualquer analfabeta ou alguém que não conseguiu acabar o Básico. As desculpas que depois apresentou à Bastonária da Ordem dos Enfermeiros cheiram a remendo de plástico vindo da vontade de limpar a sua péssima imagem pública nascida duma calculada jogada política, nunca duma pureza nascida do coração
Marta Temido acabará como Albino dos Reis (presidente da Assembleia Nacional salazarista) ou como Maria de Lourdes Pintasilgo (breve Primeira-ministra de Agosto de 1979 a 3 de Janeiro de 1980, uns módicos quatro meses e 3 dias…) políticos que não deixaram obra, passaram e hoje ninguém sabe quem foram. Pobre Marta Temido, julga-se a mítica Raínha do Sabá que acabará daqui por algumas décadas num quem é? num não sei! num nunca ouvi falar!
Num “Requiescat in pace”…
Maria de Fátima Bonifácio – Coragem de Pensar – FOTO: http://www.ics.ulisboa.pt
Adoro o país onde nasci, onde casei, enviuvei, criei seis filhos e me deslumbro com o crescimento dos meus cinco netos. Mas se, como cantava o Tomás Alcaide, “o amor é cego e vê”, posso garantir que tenho a noção exacta da dimensão real do nosso país em todas as vertentes: dimensão do território, população, valores agrícolas e industriais, etc. Reparem nalguns números e ponham de lado a veleidades clubísticas que somos os melhores do Mundo. Não somos. A nosa área total cifra-se nuns modestíssimos 92.256 km2 um quase nada se os compararmos com os 9.597.000 da China ou, upa upa, com os 17.00.000 da Rússia. Já dá que pensar. E cidades? Só irei citar quatro. Comecemos por nós: Lisboa (Área Metropolitana/Censo 2011) 2.821,697. Tóquio 37.126000. Jacarta 26.063.000. Seul 22.547.000. Já pensaram o número de problemas que os políticos destes países têm que resolver? Dos abastecimentos aos transportes, das escolas aos hospitais, dos aeroportos às redes das ferrovias, etc, etc. Somos pequeninos, convençam-se. Não tenhamos vergonha. Somos um povo que com políticos medíocres fez mais do que muitos outros. Políticos medíocres, estarei a ser injusta? Não me parece. Já vivi uns anos na Holanda, muito mais pequena que nós e as diferenças são abissais. Em tudo. Mas mesmo em tudo. E a Dinamarca? E os minúsculos países bálticos? E o Luxemburgo pequeno entre os pequenos, mas cujos cidadãos gozam do maior nível de vida da Europa.
Só vou deitar mais uma acha para a fogueira: o que na verdade torna um país rico é a riqueza de cérebros que lá vivem. Conheço vários casos. Só vos vou dar um por ter conversado quando estagiei em Manchester (sou mesmo uma cidadã do Mundo…) por incumbência da multinacional onde à época trabalhava. Conheci e privei com o holandês Andre Geim e o russo Konstantin Novoselov que apenas com um lápis e um pedaço de fita adesiva descobriram o grafeno, um derivado da grafite, um produto que irá revolucionar a Indústria da Electrónica. O imenso valor desta descoberta valeu a estes dois Professores de Física na Universidade de Manchester o Prémio Nobel de 2010.
Desculpem desiludir-vos. Na noite comemorativa dos quarenta anos do 25 de Abril a RTP transmitiu o seu programa “Prós e Contras” do Largo do Município e convidou alguns militares intervenientes e responsáveis por essa revolta a par de estudantes, jornalistas, políticos e tutti quanti pudessem dar testemunho das melhorias proporcionadas ao povo português. Cito de memória, perdoem qualquer inexatidão. Houve elogios e bater de palmas. Houve críticas e ranger de dentes. Recordo um jovem que a Fátima Campos Ferreira apresentou como “estar a tirar um Mestrado em Ciência Política na Universidade de Cambridge” que no uso da palavra explicou que as Universidades portuguesas estão desactualizadas nos métodos de Ensino porque nas aulas se centram mais na transmissão de dados do que incentivar os alunos a pesquisarem para desenvolverem as suas inatas capacidades de investigação. Caiu o Carmo e Trindade. Só não foi linchado na via pública porque havia polícia por perto.
E entra agora a Maria de Fátima Bonifácio que tem andado nas bocas do mundo não por ter acumulado milhões com negociatas duvidosas como o Ministério Público anda a investigar um socialista muito conhecido, mas porque publicou no jornal “Público” um artigo que causou muitos engulhos à Esquerda-Folclórica da Catarina Martins e ao venerável ancião Jerónimo de Sousa um saudosista da velha e desaparecida União Soviética e grande defensor entre nós do esfumado Marxismo-Leninismo que desapareceu sem deixar saudades e apodreceu no caixote do lixo da História.
Li o artigo de Fátima Bonifácio. Concordo com algumas ideias. Discordo de algumas ideias. Pelo sim pelo não reli atentamente o texto para alicerçar ou desfazer dúvidas. Pasmo não com o artigo, mas com a polémica e cataratas de insultos que despertou entre a Estupidenttsia cá do burgo. Os destiladores de ódios recalcados desceram a terreiro para por todos os meios disponíveis achincalharem a pobre senhora. Paira no ar um reprimido desejo de amarrarem Fátima Bonifácio ao Pelourinho e flagelarem-na até escorrer sangue pelas costas. Há um cheirinho a incenso e saudades da Santa Inquisição. Privei e fui amiga da Professora Maria de Lourdes Belchior que conheci no auditório da Igreja de Santa Isabel numa série de colóquios em que ela participou com outros dois amigos meus Rui Grácio e Joel Serrão. Foi numa dessas suas intervenções que definiu Portugal como a “Doutoralândia” dado o nosso costume de venerarmos simples licenciados como deuses dum Olimpo da Cultura. Nunca fui apresentada a Maria de Fátima Bonifácio, nunca apertámos a mão e confesso a minha ignorância em relação a uma intelectual que me garantiram agora ser de primeira escolha e fora do catálogo. Urgia colmatar essa vergonhosa falha. Averiguei que…
…em 1997 se licenciou em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1978 entrou para o Gabinete de Investigações Sociais. Em 1981 foi admitida no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Em 1990 doutorou-se em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com a tese “A Via Proteccionista do Liberalismo Português: política e economia nas relações luso-britânicas, 1834-43”. Foi Professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, pelo Departamento de História, tendo feito a sua agregação a essa instituição em 1998.
No brilhante decurso da sua vida académica colaborou com dois gigantes da Intteligentsia Portuguesa: Maria Filomena Mónica e Vasco Pulido Valente. Maria de Fátima Bonifácio não é uma qualquer…
Humildemente reconhecemos não termos carga cultural para intervir numa polémica que envolve algumas das maiores sumidades da Cultura Portuguesa. Mas devemos chamar a atenção para a finesse interventiva e a elevada elegância do uso da Língua Portuguesa do Exmº Senhor (Doutor?) Mamadou Ba assessor do partido comunista-maoista Bloco de Esquerda e director da entidade “SOS Racismo” que referindo-se aos lamentáveis factos ocorridos no Bairro Jamaica no Seixal publicou um texto no Facebook (reproduzido pelo jornalista Rui Pedro Marques num seu artigo publicado no Jornal Online “OBSERVADOR”) definiu os agentes da Polícia de Segurança Pública como, transcrevemos, “a bosta da bófia”.
Quando o discurso político dum assessor dum partido com assento na Assembleia da República desce a um nível mais baixo que uma discussão entre prostitutas alcoolizadas o artigo de Maria de Fátima Bonifácio é música celestial e devia ser ensinado nas escolas. Como dizia o meu falecido marido “pelo andar da carruagem se vê quem lá vai dentro”. Mas deste fait divers algo há que louvar: a Liberdade de Expressão é sagrada tanto para os Marcelos Professores de Direito como para os Mamadous da Bófia…
Almeida Garrett – Herói da Liberdade injustamente esquecido – Litografia de Pedro Augusto Gugliemi – in Biblioteca Nacional – Domínio Público
Numa actualidade triste em que num desacreditado Parlamento tantas cabeças ocas, convencidas de serem génios, só cospem dicursos vazios de ideias e aleivosias em catadupa não resisto em fechar com chave d’ouro contando um facto verídico passado nas Cortes liberais depois do fim do Absolutismo que dominava o país. Numa tarde em que se discutia uma lei bastante avançada e algo controversa um digno representante do povo que tinha em vaidade o que lhe faltava em inteligência discursava gastando minutos com parvajolices de bradar aos céus. A certa altura avolumando o timbre e a voz declarou com a habitual empáfia. : todo o mundo concorda que…”. Garrett um pouco distante sussurrou, mas de forma que todos ouvissem: “todo o mundo não…”. O empafiouso deputado falando bem mais alto contrapôs: “muita gente concorda que…”. Novamente Garrett atacou: “muita gente também não…”. Já espumando não contida raiva o imbecil deputado, gritando exasperado por tantas interrupções atirou um argumento que lhe parecia ir acabar com os apartes de Garrett: “pois fique sabendo que eu acho que…”. Não acabou a frase. Garrett levantou-se, virou-se para o apatetado pai da pátria e pôs um ponto final na questão: “e faz Vossa Excelência muitíssimo bem porque agora, felizmente, em Portugal a asneira é livre…”. O areópago levantou-se aplaudindo fortemente. O enxovalhado peralvilho meteu o papel do discurso no bolso deu meia volta e saiu de monco caído, orelhas murchas e de vergonha corado.
“Não há nada novo debaixo do sol”, Eclesiastes 1:9. A nossa Assembleia da República, quase todos os dias, de escândalo em escândalo, confirma diariamente este douto pensamento…