No debate sobre se o PS deve posicionar-se mais à esquerda ou mais ao centro, parece haver um grande consenso entre os socialistas: o assunto não interessa nada. “O debate sobre rótulos, sobre categorias, mais à esquerda ou mais ao centro, não interessa aos portugueses. Não é categorias mais ou menos vazias que definem o que quer que seja”, disse Pedro Nuno Santos, um dos municiadores desse debate. “Essa geometria política não diz nada aos portugueses”, nas palavras de Ferro Rodrigues. Se o dizem o antigo líder elevado a patriarca e o jovem governante promovido a esperança do partido, então deve ser verdade.
Mas com rótulos ou sem eles, esse é o debate que atravessa o congresso. Polarizado este sábado, como aconteceu nas últimas semanas, entre Augusto Santos Silva, o n.2 do Governo, e Pedro Nuno Santos, o n.1 na pole position para a sucessão de Costa.
TIAGO MIRANDA
Os três minutos de Santos Silva
Santos Silva apresentou-se ao congresso ainda muitos congressistas palitavam os dentes após o almoço e a sala se mostrava meio vazia. Não entrou com aparato, nem esticou o que levava para dizer. Falou três minutos, mal medidos. O homem que gosta de malhar na direita mostrou que também sabe na bater nalguma esquerda. Bate leve, levemente, mas bate. E limitou-se a por os pontos nos is.
O sound bite que rapidamente fez títulos foi este: “Não combato nenhum socialista, de nenhuma tendência ou opinião”. O combate, disse, é com a direita. Mas importa não desvalorizar o que acrescentou a seguir: “Combato todas as tentativas de retirar autonomia ao PS, de negar-lhe a natureza de partido central do espaço político português, de tirar-lhe a ambição reformista, de partido de esquerda democrática, progressista e europeísta”.
Foi, em poucas palavras, a recusa de um partido amarrado a qualquer dos lados, e a defesa do PS-partido-charneira, de mãos livres e — pormenor importante — europeísta. Importante porque a cartilha europeia é uma fronteira que separou e separa o PS dos parceiros à sua esquerda, e motiva boa parte da tensão entre os parceiros da geringonça.
Costa, aliás, já tinha vincado o europeísmo como marca definidora do PS. E houve outra mensagem que Costa deixou na sexta-feira e que Santos Silva reiterou: a ideia de que a resposta aos problemas deve ser encontrada “em obediência aos nossos princípios, atualizando constantemente as nossas propostas.” “É no quadro do socialismo democrático que podemos ir buscar as melhores respostas e é no espaço da UE que elas mais podem vingar”, insistiu.
O ministro dos Negócios Estrangeiros não se alongou na elencagem das políticas que trazem a marca dessa esquerda atualizada, mas apontou para o essencial por contraste com a direita. “Combato a direita porque não se pode construir o futuro de braço dado àqueles cujo ideário é enfraquecer o Estado Social, repor discriminações, tolerar ou acentuar desigualdades”. Estava feito.
TIAGO MIRANDA
A claque de Pedro Nuno
Pedro Nuno Santos entrou em cena com a sala bastante mais composta e, ainda melhor, com claque. O antigo líder da JS tem tecido uma rede de apoiantes de base geracional, e isso foi notório na forma como parte do pavilhão o recebeu. Tratou o chavão “esquerda moderna e europeísta” como apenas um chavão, passou por cima dos “rótulos e categorias”, e foi ao que lhe interessava: “Nenhum programa pode ser feito se não soubermos quem somos, como nos apresentamos e qual papel que atribuímos ao Estado”.
E foi aí — na defesa do papel do Estado — que o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares fez, mais do que a defesa do PS encostado à esquerda, a apologia da recusa de acordos com a direita. "Não é com o PSD e com o CDS que vamos proteger o sistema público de pensões, a educação e a saúde", afirmou, recebendo uma ovação. A linha vermelha separando o PS da direita parecia a resposta direta a ao apelo de Santos Silva para um PS como "partido central".
Contra uma direita que tem uma “visão individualista da sociedade”, Pedro Nuno fez a defesa do Estado Social, em que “os problemas dos outros são problemas de todos [e] a solução para esses problemas é encontrada coletivamente”. SNS, educação, sistema público de pensões serviram para sustentar argumentos da esquerda “contra” a direita ( e não "com" a direita). Porém, ao contrário de Santos Silva, o secretário de Estado passou ao lado da questão que marca a fronteira em relação à esquerda: a União Europeia.
Apesar da história do PS ter sido bastante diferente da história dos restantes partidos socialistas e sociais-democratas da Europa (o PS nasceu bastante mais tarde, e não teve uma origem operária, mas elitista), Pedro Nuno tentou sobrepor ao socialismo português a história dos seus pares do Velho Continente. E, assim, pôde declarar que “os partidos socialistas e sociais-democratas não foram feitos para representar a elite”, e que “o PS só manterá uma maioria no país se não deixar de falar para este povo que esteve sempre na origem dos partidos como o nosso”.
Sem deixar margem para dúvidas ou contestações, terminou com uma proclamação: “Isto não é populismo, isto não é radicalismo, isto é ser socialista”. O povo socialista adorou. Pela primeira vez levantou-se da cadeira, de punho erguido, gritando “PS! PS!”
Ao longo da tarde, o congresso só voltou a aderir com o mesmo entusiasmo ao discurso de Manuel Alegre, que avisou o PS para que não queira ser “a ala esquerda da direita”. António Costa bem pode ter feito a apologia do centrismo, Fernando Medina e Francisco Assis bem podem ter puxado pelas virtudes da moderação e do pragmatismo, mas é de discursos coladinhos à esquerda que os congressos socialistas gostam. Já era assim nos tempos de Guterres, o homem da Terceira Via à portuguesa, deriva centrista que Alegre hoje classificou como "um desastre para democracia e para o socialismo". Há coisas que não mudam no PS.
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No debate sobre se o PS deve posicionar-se mais à esquerda ou mais ao centro, parece haver um grande consenso entre os socialistas: o assunto não interessa nada. “O debate sobre rótulos, sobre categorias, mais à esquerda ou mais ao centro, não interessa aos portugueses. Não é categorias mais ou menos vazias que definem o que quer que seja”, disse Pedro Nuno Santos, um dos municiadores desse debate. “Essa geometria política não diz nada aos portugueses”, nas palavras de Ferro Rodrigues. Se o dizem o antigo líder elevado a patriarca e o jovem governante promovido a esperança do partido, então deve ser verdade.
Mas com rótulos ou sem eles, esse é o debate que atravessa o congresso. Polarizado este sábado, como aconteceu nas últimas semanas, entre Augusto Santos Silva, o n.2 do Governo, e Pedro Nuno Santos, o n.1 na pole position para a sucessão de Costa.
TIAGO MIRANDA
Os três minutos de Santos Silva
Santos Silva apresentou-se ao congresso ainda muitos congressistas palitavam os dentes após o almoço e a sala se mostrava meio vazia. Não entrou com aparato, nem esticou o que levava para dizer. Falou três minutos, mal medidos. O homem que gosta de malhar na direita mostrou que também sabe na bater nalguma esquerda. Bate leve, levemente, mas bate. E limitou-se a por os pontos nos is.
O sound bite que rapidamente fez títulos foi este: “Não combato nenhum socialista, de nenhuma tendência ou opinião”. O combate, disse, é com a direita. Mas importa não desvalorizar o que acrescentou a seguir: “Combato todas as tentativas de retirar autonomia ao PS, de negar-lhe a natureza de partido central do espaço político português, de tirar-lhe a ambição reformista, de partido de esquerda democrática, progressista e europeísta”.
Foi, em poucas palavras, a recusa de um partido amarrado a qualquer dos lados, e a defesa do PS-partido-charneira, de mãos livres e — pormenor importante — europeísta. Importante porque a cartilha europeia é uma fronteira que separou e separa o PS dos parceiros à sua esquerda, e motiva boa parte da tensão entre os parceiros da geringonça.
Costa, aliás, já tinha vincado o europeísmo como marca definidora do PS. E houve outra mensagem que Costa deixou na sexta-feira e que Santos Silva reiterou: a ideia de que a resposta aos problemas deve ser encontrada “em obediência aos nossos princípios, atualizando constantemente as nossas propostas.” “É no quadro do socialismo democrático que podemos ir buscar as melhores respostas e é no espaço da UE que elas mais podem vingar”, insistiu.
O ministro dos Negócios Estrangeiros não se alongou na elencagem das políticas que trazem a marca dessa esquerda atualizada, mas apontou para o essencial por contraste com a direita. “Combato a direita porque não se pode construir o futuro de braço dado àqueles cujo ideário é enfraquecer o Estado Social, repor discriminações, tolerar ou acentuar desigualdades”. Estava feito.
TIAGO MIRANDA
A claque de Pedro Nuno
Pedro Nuno Santos entrou em cena com a sala bastante mais composta e, ainda melhor, com claque. O antigo líder da JS tem tecido uma rede de apoiantes de base geracional, e isso foi notório na forma como parte do pavilhão o recebeu. Tratou o chavão “esquerda moderna e europeísta” como apenas um chavão, passou por cima dos “rótulos e categorias”, e foi ao que lhe interessava: “Nenhum programa pode ser feito se não soubermos quem somos, como nos apresentamos e qual papel que atribuímos ao Estado”.
E foi aí — na defesa do papel do Estado — que o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares fez, mais do que a defesa do PS encostado à esquerda, a apologia da recusa de acordos com a direita. "Não é com o PSD e com o CDS que vamos proteger o sistema público de pensões, a educação e a saúde", afirmou, recebendo uma ovação. A linha vermelha separando o PS da direita parecia a resposta direta a ao apelo de Santos Silva para um PS como "partido central".
Contra uma direita que tem uma “visão individualista da sociedade”, Pedro Nuno fez a defesa do Estado Social, em que “os problemas dos outros são problemas de todos [e] a solução para esses problemas é encontrada coletivamente”. SNS, educação, sistema público de pensões serviram para sustentar argumentos da esquerda “contra” a direita ( e não "com" a direita). Porém, ao contrário de Santos Silva, o secretário de Estado passou ao lado da questão que marca a fronteira em relação à esquerda: a União Europeia.
Apesar da história do PS ter sido bastante diferente da história dos restantes partidos socialistas e sociais-democratas da Europa (o PS nasceu bastante mais tarde, e não teve uma origem operária, mas elitista), Pedro Nuno tentou sobrepor ao socialismo português a história dos seus pares do Velho Continente. E, assim, pôde declarar que “os partidos socialistas e sociais-democratas não foram feitos para representar a elite”, e que “o PS só manterá uma maioria no país se não deixar de falar para este povo que esteve sempre na origem dos partidos como o nosso”.
Sem deixar margem para dúvidas ou contestações, terminou com uma proclamação: “Isto não é populismo, isto não é radicalismo, isto é ser socialista”. O povo socialista adorou. Pela primeira vez levantou-se da cadeira, de punho erguido, gritando “PS! PS!”
Ao longo da tarde, o congresso só voltou a aderir com o mesmo entusiasmo ao discurso de Manuel Alegre, que avisou o PS para que não queira ser “a ala esquerda da direita”. António Costa bem pode ter feito a apologia do centrismo, Fernando Medina e Francisco Assis bem podem ter puxado pelas virtudes da moderação e do pragmatismo, mas é de discursos coladinhos à esquerda que os congressos socialistas gostam. Já era assim nos tempos de Guterres, o homem da Terceira Via à portuguesa, deriva centrista que Alegre hoje classificou como "um desastre para democracia e para o socialismo". Há coisas que não mudam no PS.