Saltaram dos blogues para o espaço público ou juntaram amigos com perfis urbanos e artes diferentes para mostrar. Os mercados renovaram-se e têm hoje outra dinâmica
d.r.
É provável que uma ida ao mercado não estivesse no topo das suas prioridades para o fim de semana. Mas isso era dantes, quando os mercados ainda não ofereciam a diversidade que hoje exibem e só se ia lá para comprar peixe fresco, frutas e legumes. A fazer fé nos números de certos negócios, atualmente há mercados que movem multidões. Como o Mercadito da Carlota, que se realiza já no sábado 28, no CCB, ou o de uma outra blogger, Maria Guedes, que tem o seu Stylista Winter Market marcado para 25 e 26 de novembro. Tanto num como noutro caso, o que distingue estes dois eventos, afirmam as respetivas criadoras, é o facto de terem ‘curadoria’ — alguém que filtra e escolhe as marcas presentes com base nos seus gostos e que transporta para a vida real os seguidores virtuais.
d.r.
Religiosamente, duas vezes por ano, na primavera e no outono, os seguidores de Fernanda Velez já sabem que há Mercadito da Carlota. O primeiro surgiu em 2012, nove meses depois do Blog da Carlota, o sítio onde Fernanda partilhava as suas aventuras da maternidade. Cada post que publicava com a filha (a tal Carlota) vestida a preceito (e com peças ‘taggadas’ para todas as marcas) esgotava coleções nas lojas. Esta constatação levou-a a arriscar o primeiro Mercadito — na altura, com 20 marcas, numa galeria de arte da Avenida da Liberdade, em Lisboa. O evento correu tão bem que o segundo já se realizou no Hotel Ritz, com 40 marcas, e o seguinte na Estufa Real, por onde passaram 5000 pessoas. Hoje, recebe 9000 pessoas, que procuram o Mercadito no Centro Cultural de Belém. Mais do que um local onde se pode comprar “uma seleção de marcas”, o Mercadito é todo “um programa”. Há animação, zonas de restauração e entretenimento para as crianças, que passam por pinturas faciais ou teatro com fantoches. Ou seja, há matéria para entreter quase todos. “O público do Mercadito é transversal. Muitas famílias, mães com avós ou mulheres com maridos”, passeiam por um universo que junta 90 marcas — que “num dia ali” faturam “o mesmo que em meses de loja”. E se, no início, foi a moda infantil o core business e a razão do sucesso, hoje, as linhas de mulher e as joias representam 40% dos artigos que ali se expõem. A seleção é feita de acordo com “o gosto pessoal” de Fernanda. “Tenho de me identificar”, admite.
Também para Maria Guedes, formada em Marketing e Publicidade, saltar do negócio virtual para o terreno foi um passo natural, que começou por brincadeira. Em 2013, juntou alguns amigos e 20 marcas de que gostava no Coolares Market, em Sintra, num registo descontraído. O evento teve tal êxito que o passo seguinte foi a FIARTIL, no Estoril, num pavilhão que recebeu 4000 visitantes por dia. Hoje, o mercado da Stylista — o blogue de compras, moda e lifestyle que Maria criou em 2009 — divide-se em Summer e Winter Market e recebe entre 12 mil e 15 mil visitantes. Cem marcas surgem associadas nesta iniciativa, que Maria Guedes define como um “negócio lucrativo, mas não astronómico”. Os seus 75 mil seguidores apreciam as “sugestões simples e as dicas úteis”, e o seu público mantém-se essencialmente feminino e adulto. Nos mercados da Stylista, há sempre vários food trucks com novidades para ‘picar’, por isso o seu mercado acaba por ser também uma proposta de dia inteiro.
d.r.
d.r.
No Príncipe Real, há já dois anos, o Fashion Deli junta designers, joalheiros e estilistas de moda que pretendem ter no design sustentável a sua marca de água. Ao som de música, as welcome drinks dão as boas-vindas a todos os que querem ver produtos diferenciados, originais e nacionais. As estilistas de moda Rita Carvalho e Liliana Afonso, a joalheira Liliana Alves e a designer Jolie Su, entre outras, fizeram do Café Deli a base para mostrar as suas criações de qualidade. O público aderiu.
Renovar os mercados de bairro
Em termos mais macro, as cidades também têm apostado na dinamização e recuperação dos mercados de bairro tradicionais. O exemplo do Mercado da Ribeira é talvez o mais evidente e o que mais buzz criou, mas na mesma lógica foram renovados outros. O de Campo de Ourique e, mais recentemente, o de Arroios mostram bem como foi feito um esforço para alargar a oferta muito para lá do sector alimentar. Às tradicionais bancas de frutas e legumes e peixe fresco juntaram-se negócios bem diferentes. Em Arroios há agora 31 lojas, entre as quais uma garrafeira, uma pizzaria, uma churrasqueira, lojas de bijutaria e quinquilharia, uma parafarmácia, uma agência de seguros e até um restaurante gerido por refugiados afegãos, o Mezze. No último fim de semana de cada mês, o mercado conta com a presença de atores para desafiar os visitantes com textos, visitas guiadas e histórias. Ao domingo, há teatro infantil, uma festa com música, espetáculos de circo e cinema. Ao fim de dois anos de remodelação e de um milhão de euros de investimento, o Mercado de Arroios aposta em chamar um público bem mais alargado.
O Porto está na rua
Já na cidade onde há uma década até as esplanadas eram uma excentricidade, há cada vez mais portuenses convertidos à rua, seguindo a vaga de turistas que ali aterram. Os centros comerciais rivalizam agora com os mercados urbanos, incontornáveis ao fim de semana.
Uma das pioneiras das feiras ao ar livre é Inês Magalhães, criadora do Porto Belo, mercado no ativo desde 2009, todos os sábados, na Praça Carlos Alberto. Ao todo, são 30 os feirantes fidelizados, mas sem restrições a novos militantes, desde que privilegiem produtos diferenciados e de qualidade, dos frescos aos de carimbo biológico. Para bebericar há vinho a copo e cerveja artesanal, enquanto se apreciam discos de vinil, máquinas de escrever antigas, grafonolas e gira-discos e até um artesão de sapatos.
Ao domingo, salvo se chover, reina o Mercado da Alegria, no Passeio Alegre, na Foz. Aqui é tudo em primeira mão, adianta Maria Sá Carneiro, ressalvando que no princípio de tudo está a criatividade das artes e ofícios. Artesanato moderno em cerâmica ou madeira, peças de vestuário de jovens estilistas, petiscos regionais para degustar ou levar para casa são algumas das possibilidades.
Criado na Invicta em 2012, o Urban Market veio rasgar o convencional conceito de feira. Com duas edições mensais, uma ao ar livre na Praça das Cardosas e outra indoor, a próxima mostra acontece este fim de semana, no Hard Club do Mercado Ferreira Borges. São três dias para ver de perto projetos de autor, que vão do design de moda à ilustração, da decoração à joalharia contemporânea, sem negligenciar a gastronomia. O showcooking com o chefe Rui Reigota dará a conhecer receitas de outono, o argentino Maurício Ghiglione fará empanadas. Difícil mesmo é escolher o novo mercado que quer conhecer.
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Saltaram dos blogues para o espaço público ou juntaram amigos com perfis urbanos e artes diferentes para mostrar. Os mercados renovaram-se e têm hoje outra dinâmica
d.r.
É provável que uma ida ao mercado não estivesse no topo das suas prioridades para o fim de semana. Mas isso era dantes, quando os mercados ainda não ofereciam a diversidade que hoje exibem e só se ia lá para comprar peixe fresco, frutas e legumes. A fazer fé nos números de certos negócios, atualmente há mercados que movem multidões. Como o Mercadito da Carlota, que se realiza já no sábado 28, no CCB, ou o de uma outra blogger, Maria Guedes, que tem o seu Stylista Winter Market marcado para 25 e 26 de novembro. Tanto num como noutro caso, o que distingue estes dois eventos, afirmam as respetivas criadoras, é o facto de terem ‘curadoria’ — alguém que filtra e escolhe as marcas presentes com base nos seus gostos e que transporta para a vida real os seguidores virtuais.
d.r.
Religiosamente, duas vezes por ano, na primavera e no outono, os seguidores de Fernanda Velez já sabem que há Mercadito da Carlota. O primeiro surgiu em 2012, nove meses depois do Blog da Carlota, o sítio onde Fernanda partilhava as suas aventuras da maternidade. Cada post que publicava com a filha (a tal Carlota) vestida a preceito (e com peças ‘taggadas’ para todas as marcas) esgotava coleções nas lojas. Esta constatação levou-a a arriscar o primeiro Mercadito — na altura, com 20 marcas, numa galeria de arte da Avenida da Liberdade, em Lisboa. O evento correu tão bem que o segundo já se realizou no Hotel Ritz, com 40 marcas, e o seguinte na Estufa Real, por onde passaram 5000 pessoas. Hoje, recebe 9000 pessoas, que procuram o Mercadito no Centro Cultural de Belém. Mais do que um local onde se pode comprar “uma seleção de marcas”, o Mercadito é todo “um programa”. Há animação, zonas de restauração e entretenimento para as crianças, que passam por pinturas faciais ou teatro com fantoches. Ou seja, há matéria para entreter quase todos. “O público do Mercadito é transversal. Muitas famílias, mães com avós ou mulheres com maridos”, passeiam por um universo que junta 90 marcas — que “num dia ali” faturam “o mesmo que em meses de loja”. E se, no início, foi a moda infantil o core business e a razão do sucesso, hoje, as linhas de mulher e as joias representam 40% dos artigos que ali se expõem. A seleção é feita de acordo com “o gosto pessoal” de Fernanda. “Tenho de me identificar”, admite.
Também para Maria Guedes, formada em Marketing e Publicidade, saltar do negócio virtual para o terreno foi um passo natural, que começou por brincadeira. Em 2013, juntou alguns amigos e 20 marcas de que gostava no Coolares Market, em Sintra, num registo descontraído. O evento teve tal êxito que o passo seguinte foi a FIARTIL, no Estoril, num pavilhão que recebeu 4000 visitantes por dia. Hoje, o mercado da Stylista — o blogue de compras, moda e lifestyle que Maria criou em 2009 — divide-se em Summer e Winter Market e recebe entre 12 mil e 15 mil visitantes. Cem marcas surgem associadas nesta iniciativa, que Maria Guedes define como um “negócio lucrativo, mas não astronómico”. Os seus 75 mil seguidores apreciam as “sugestões simples e as dicas úteis”, e o seu público mantém-se essencialmente feminino e adulto. Nos mercados da Stylista, há sempre vários food trucks com novidades para ‘picar’, por isso o seu mercado acaba por ser também uma proposta de dia inteiro.
d.r.
d.r.
No Príncipe Real, há já dois anos, o Fashion Deli junta designers, joalheiros e estilistas de moda que pretendem ter no design sustentável a sua marca de água. Ao som de música, as welcome drinks dão as boas-vindas a todos os que querem ver produtos diferenciados, originais e nacionais. As estilistas de moda Rita Carvalho e Liliana Afonso, a joalheira Liliana Alves e a designer Jolie Su, entre outras, fizeram do Café Deli a base para mostrar as suas criações de qualidade. O público aderiu.
Renovar os mercados de bairro
Em termos mais macro, as cidades também têm apostado na dinamização e recuperação dos mercados de bairro tradicionais. O exemplo do Mercado da Ribeira é talvez o mais evidente e o que mais buzz criou, mas na mesma lógica foram renovados outros. O de Campo de Ourique e, mais recentemente, o de Arroios mostram bem como foi feito um esforço para alargar a oferta muito para lá do sector alimentar. Às tradicionais bancas de frutas e legumes e peixe fresco juntaram-se negócios bem diferentes. Em Arroios há agora 31 lojas, entre as quais uma garrafeira, uma pizzaria, uma churrasqueira, lojas de bijutaria e quinquilharia, uma parafarmácia, uma agência de seguros e até um restaurante gerido por refugiados afegãos, o Mezze. No último fim de semana de cada mês, o mercado conta com a presença de atores para desafiar os visitantes com textos, visitas guiadas e histórias. Ao domingo, há teatro infantil, uma festa com música, espetáculos de circo e cinema. Ao fim de dois anos de remodelação e de um milhão de euros de investimento, o Mercado de Arroios aposta em chamar um público bem mais alargado.
O Porto está na rua
Já na cidade onde há uma década até as esplanadas eram uma excentricidade, há cada vez mais portuenses convertidos à rua, seguindo a vaga de turistas que ali aterram. Os centros comerciais rivalizam agora com os mercados urbanos, incontornáveis ao fim de semana.
Uma das pioneiras das feiras ao ar livre é Inês Magalhães, criadora do Porto Belo, mercado no ativo desde 2009, todos os sábados, na Praça Carlos Alberto. Ao todo, são 30 os feirantes fidelizados, mas sem restrições a novos militantes, desde que privilegiem produtos diferenciados e de qualidade, dos frescos aos de carimbo biológico. Para bebericar há vinho a copo e cerveja artesanal, enquanto se apreciam discos de vinil, máquinas de escrever antigas, grafonolas e gira-discos e até um artesão de sapatos.
Ao domingo, salvo se chover, reina o Mercado da Alegria, no Passeio Alegre, na Foz. Aqui é tudo em primeira mão, adianta Maria Sá Carneiro, ressalvando que no princípio de tudo está a criatividade das artes e ofícios. Artesanato moderno em cerâmica ou madeira, peças de vestuário de jovens estilistas, petiscos regionais para degustar ou levar para casa são algumas das possibilidades.
Criado na Invicta em 2012, o Urban Market veio rasgar o convencional conceito de feira. Com duas edições mensais, uma ao ar livre na Praça das Cardosas e outra indoor, a próxima mostra acontece este fim de semana, no Hard Club do Mercado Ferreira Borges. São três dias para ver de perto projetos de autor, que vão do design de moda à ilustração, da decoração à joalharia contemporânea, sem negligenciar a gastronomia. O showcooking com o chefe Rui Reigota dará a conhecer receitas de outono, o argentino Maurício Ghiglione fará empanadas. Difícil mesmo é escolher o novo mercado que quer conhecer.