A eleição em que Pacheco ganhou, Jardim também, e Relvas não se saiu lá muito bem

23-02-2018
marcar artigo

Em Rio Maior, Rui foi o maior. Ganhou com quase 70%. O principal apoio de Santana Lopes no concelho era nada menos do que a presidente da Câmara, Isaura Morais, que era também a mandatária santanista para o distrito de Santarém. O apoiante mais notório de Rio em Rio Maior era... Pacheco Pereira. Apesar de ter fama de ser mal-amado no PSD, o habitante mais famoso da Marmeleira ganhou, a presidente da Câmara perdeu.

Hugo Soares, líder parlamentar e presidente da concelhia de Braga, não conseguiu que o seu candidato, Santana Lopes, chegasse aos 42% no seu território. Com mais 88 votos, Rio ganhou com 57% no concelho, e conquistou com 52% um distrito onde os santanistas estavam confiantes que venceriam.

Rui Rio esmagou no concelho do Porto (74%), enquanto Santana Lopes ganhou por pouco no concelho de Lisboa (50,3%, apenas mais 53 votos). Continuando a olhar para os municípios onde os dois candidatos foram autarcas, note-se que só na Figueira da Foz Santana conseguiu um apoio semelhante ao de Rio no Porto (73,6%).

Almeida Henriques, presidente da Câmara de Viseu, era o mandatário nacional de Santana Lopes, mas nem os sociais-democratas do seu concelho seguiram a sua escolha. Rio venceu em Viseu com 54%.

Alberto João Jardim continua a pairar na Madeira como uma assombração, e continua a ter instinto político. Fez campanha por Rio e este ganhou na região (53%). Quem também apoiou Rio foi Cunha e Silva. Ou seja, os dois principais críticos de Miguel Albuquerque apostaram no vencedor, enquanto o presidente do governo da Madeira se manteve neutral... pelo menos oficialmente.

Miguel Relvas votou Santana Lopes e, dois dias antes das diretas, agitou o PSD com o aviso de que o sucessor de Passos poderá ser apenas um líder de transição. Mas não só o seu candidato não ganhou, como perdeu, de forma surpreendente, no distrito de Relvas (Santarém) e no seu concelho de origem (Tomar). Relvas já não tem peso no PSD?

Sabe quem é Fernando Campos? Nós também não sabíamos. Foi presidente da Câmara de Boticas (Vila Real), agora é provedor da Misericórdia local, e é o cacique social-democrata no concelho onde Rio teve a sua vitória mais esmagadora. Em Boticas votaram 589 militantes, dos quais 573 em Rio (97%). Outro dado para se perceber a eficácia deste sindicato de votos: em Boticas havia 624 sociais-democratas com as quotas pagas, o que significa que a abstenção foi inferior a 6%, um valor excecionalmente baixo.

Salvador Malheiro é outro patrão de um sindicato de votos, mas neste caso, que ganhou notoriedade nacional. Primeiro, por ter sido o diretor de campanha de Rio, depois por causa das suspeitas denunciadas pelo Expresso de irregularidades nos cadernos eleitorais de Ovar, onde Malheiro é presidente de Câmara. Em poucos anos — e sobretudo desde que conquistou a autarquias, em 2013 — multiplicou o número de militantes do PSD no seu concelho, onde garantiu a Rio uma vitória por KO: 409 votos, 85%.

Ovar não foi o único trunfo de Rio para conquistar o importante distrito de Aveiro. Os santanistas julgavam que ficariam à frente em Santa Maria da Feira, a concelhia mais importante do distrito, onde contavam com o apoio do presidente da Câmara. Mas a Feira também é o território de António Topa, o mais antigo — e ainda o mais influente — cacique do distrito (e que apadrinhou a ascensão de Salvador Malheiro). Há anos que Topa, um deputado desconhecido fora da máquina partidária, não perde uma eleição interna. E assim continua.

Aveiro também é o distrito de Luís Montenegro, ex-líder parlamentar e protocandidato à liderança do PSD. Apoiou Santana e nessa aposta perdeu, mas no seu concelho, Espinho, 55% dos eleitores votaram no antigo primeiro-ministro.

Álvaro Amaro, um dos mais conhecidos autarcas do PSD, apoiou Rio, com quem partilha o passado cavaquista. Porém, apesar de Rio ter vencido no distrito da Guarda, perdeu na capital de distrito, onde Amaro é o presidente da Câmara.

Nas cinco distritais mais importantes, Santana Lopes só ficou à frente em Lisboa (57%). Rio venceu no Porto (58%), Aveiro (62%), Braga (53%) e Madeira (53%).

André Ventura tornou-se um epifenómeno ao candidatar-se a Loures pelo PSD nas últimas autárquicas e apoiava Santana Lopes. Ajudou Lopes a vencer nessa concelhia? Pelo contrário. Santana ganhou em quase todas as concelhias do distrito de Lisboa, mas não em Loures (45,5%).

Nuno Morais Sarmento, um dos principais senadores do PSD, foi o mandatário da candidatura de Rui Rio. No dia 13 triunfou a nível nacional, mas acumulou derrotas pessoais: em Lisboa (a sua concelhia e a sua distrital), Santana venceu mas, mais do que isso, a lista para delegados ao congresso encabeçada por Sarmento na secção de Lisboa foi derrotada pela lista santanista.

O nome de Luís Filipe Menezes atravessou-se na campanha de Rio, mas o próprio esteve discreto. E viu o seu arquirrival do PSD triunfar em Gaia, o concelho que em tempos foi o grande bastião do menezismo. Apoiado por todo o aparelho partidário de Gaia, Rio chegou aos 69% nessa concelhia.

Bragança Fernandes, o presidente da distrital do Porto, é um dos grandes derrotados destas diretas. Apoiou Santana, e viu-o derrotado na sua distrital, mas também no concelho da Maia, onde Bragança Fernandes foi presidente de Câmara durante anos. Também o vice-presidente da distrital Miguel Santos sofreu a mesma dupla derrota. Rio triunfou em Valongo, a concelhia dirigida por Santos que, além de mais, era o nº 2 da máquina de campanha de Santana Lopes.

Marco António Costa não tomou parte na campanha interna e não deu qualquer apoio público. Mas tinha um homem de confiança na estrutura de Santana (Miguel Santos) e outro homem de confiança do lado de Rio (Virgílio Costa). Um deles ganhou, claro.

Cristóvão Norte, deputado do PSD pelo Algarve, foi um dos grandes responsáveis por uma das vitórias mais inesperadas da noite para Rui Rio. Santana contava com apoios de peso no distrito de Faro — os presidentes das câmaras de Faro e Albufeira, e os líderes distritais do PSD e da JSD —, e no fim ganhou Rio.

Lembra-se da corrida ao pagamento de quotas do PSD no último dia do prazo legal? Nesse dia, 15 de dezembro, foram pagas 20 mil quotas (até então, 50 mil tinham a sua situação regularizada). A explicação oficial é que os militantes são portugueses típicos, que deixam tudo para a última hora. Mas, como queriam mesmo votar, pagaram as quotas. Curiosamente, dos 70.692 militantes com as quotas pagas, só 42.592 votaram (60%). E os outros 40%? Provavelmente nunca quiseram votar, nem pagaram quotas — alguém pagou por eles, na esperança de os levar a votar. Eles não foram.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 20 de janeiro de 2018

Em Rio Maior, Rui foi o maior. Ganhou com quase 70%. O principal apoio de Santana Lopes no concelho era nada menos do que a presidente da Câmara, Isaura Morais, que era também a mandatária santanista para o distrito de Santarém. O apoiante mais notório de Rio em Rio Maior era... Pacheco Pereira. Apesar de ter fama de ser mal-amado no PSD, o habitante mais famoso da Marmeleira ganhou, a presidente da Câmara perdeu.

Hugo Soares, líder parlamentar e presidente da concelhia de Braga, não conseguiu que o seu candidato, Santana Lopes, chegasse aos 42% no seu território. Com mais 88 votos, Rio ganhou com 57% no concelho, e conquistou com 52% um distrito onde os santanistas estavam confiantes que venceriam.

Rui Rio esmagou no concelho do Porto (74%), enquanto Santana Lopes ganhou por pouco no concelho de Lisboa (50,3%, apenas mais 53 votos). Continuando a olhar para os municípios onde os dois candidatos foram autarcas, note-se que só na Figueira da Foz Santana conseguiu um apoio semelhante ao de Rio no Porto (73,6%).

Almeida Henriques, presidente da Câmara de Viseu, era o mandatário nacional de Santana Lopes, mas nem os sociais-democratas do seu concelho seguiram a sua escolha. Rio venceu em Viseu com 54%.

Alberto João Jardim continua a pairar na Madeira como uma assombração, e continua a ter instinto político. Fez campanha por Rio e este ganhou na região (53%). Quem também apoiou Rio foi Cunha e Silva. Ou seja, os dois principais críticos de Miguel Albuquerque apostaram no vencedor, enquanto o presidente do governo da Madeira se manteve neutral... pelo menos oficialmente.

Miguel Relvas votou Santana Lopes e, dois dias antes das diretas, agitou o PSD com o aviso de que o sucessor de Passos poderá ser apenas um líder de transição. Mas não só o seu candidato não ganhou, como perdeu, de forma surpreendente, no distrito de Relvas (Santarém) e no seu concelho de origem (Tomar). Relvas já não tem peso no PSD?

Sabe quem é Fernando Campos? Nós também não sabíamos. Foi presidente da Câmara de Boticas (Vila Real), agora é provedor da Misericórdia local, e é o cacique social-democrata no concelho onde Rio teve a sua vitória mais esmagadora. Em Boticas votaram 589 militantes, dos quais 573 em Rio (97%). Outro dado para se perceber a eficácia deste sindicato de votos: em Boticas havia 624 sociais-democratas com as quotas pagas, o que significa que a abstenção foi inferior a 6%, um valor excecionalmente baixo.

Salvador Malheiro é outro patrão de um sindicato de votos, mas neste caso, que ganhou notoriedade nacional. Primeiro, por ter sido o diretor de campanha de Rio, depois por causa das suspeitas denunciadas pelo Expresso de irregularidades nos cadernos eleitorais de Ovar, onde Malheiro é presidente de Câmara. Em poucos anos — e sobretudo desde que conquistou a autarquias, em 2013 — multiplicou o número de militantes do PSD no seu concelho, onde garantiu a Rio uma vitória por KO: 409 votos, 85%.

Ovar não foi o único trunfo de Rio para conquistar o importante distrito de Aveiro. Os santanistas julgavam que ficariam à frente em Santa Maria da Feira, a concelhia mais importante do distrito, onde contavam com o apoio do presidente da Câmara. Mas a Feira também é o território de António Topa, o mais antigo — e ainda o mais influente — cacique do distrito (e que apadrinhou a ascensão de Salvador Malheiro). Há anos que Topa, um deputado desconhecido fora da máquina partidária, não perde uma eleição interna. E assim continua.

Aveiro também é o distrito de Luís Montenegro, ex-líder parlamentar e protocandidato à liderança do PSD. Apoiou Santana e nessa aposta perdeu, mas no seu concelho, Espinho, 55% dos eleitores votaram no antigo primeiro-ministro.

Álvaro Amaro, um dos mais conhecidos autarcas do PSD, apoiou Rio, com quem partilha o passado cavaquista. Porém, apesar de Rio ter vencido no distrito da Guarda, perdeu na capital de distrito, onde Amaro é o presidente da Câmara.

Nas cinco distritais mais importantes, Santana Lopes só ficou à frente em Lisboa (57%). Rio venceu no Porto (58%), Aveiro (62%), Braga (53%) e Madeira (53%).

André Ventura tornou-se um epifenómeno ao candidatar-se a Loures pelo PSD nas últimas autárquicas e apoiava Santana Lopes. Ajudou Lopes a vencer nessa concelhia? Pelo contrário. Santana ganhou em quase todas as concelhias do distrito de Lisboa, mas não em Loures (45,5%).

Nuno Morais Sarmento, um dos principais senadores do PSD, foi o mandatário da candidatura de Rui Rio. No dia 13 triunfou a nível nacional, mas acumulou derrotas pessoais: em Lisboa (a sua concelhia e a sua distrital), Santana venceu mas, mais do que isso, a lista para delegados ao congresso encabeçada por Sarmento na secção de Lisboa foi derrotada pela lista santanista.

O nome de Luís Filipe Menezes atravessou-se na campanha de Rio, mas o próprio esteve discreto. E viu o seu arquirrival do PSD triunfar em Gaia, o concelho que em tempos foi o grande bastião do menezismo. Apoiado por todo o aparelho partidário de Gaia, Rio chegou aos 69% nessa concelhia.

Bragança Fernandes, o presidente da distrital do Porto, é um dos grandes derrotados destas diretas. Apoiou Santana, e viu-o derrotado na sua distrital, mas também no concelho da Maia, onde Bragança Fernandes foi presidente de Câmara durante anos. Também o vice-presidente da distrital Miguel Santos sofreu a mesma dupla derrota. Rio triunfou em Valongo, a concelhia dirigida por Santos que, além de mais, era o nº 2 da máquina de campanha de Santana Lopes.

Marco António Costa não tomou parte na campanha interna e não deu qualquer apoio público. Mas tinha um homem de confiança na estrutura de Santana (Miguel Santos) e outro homem de confiança do lado de Rio (Virgílio Costa). Um deles ganhou, claro.

Cristóvão Norte, deputado do PSD pelo Algarve, foi um dos grandes responsáveis por uma das vitórias mais inesperadas da noite para Rui Rio. Santana contava com apoios de peso no distrito de Faro — os presidentes das câmaras de Faro e Albufeira, e os líderes distritais do PSD e da JSD —, e no fim ganhou Rio.

Lembra-se da corrida ao pagamento de quotas do PSD no último dia do prazo legal? Nesse dia, 15 de dezembro, foram pagas 20 mil quotas (até então, 50 mil tinham a sua situação regularizada). A explicação oficial é que os militantes são portugueses típicos, que deixam tudo para a última hora. Mas, como queriam mesmo votar, pagaram as quotas. Curiosamente, dos 70.692 militantes com as quotas pagas, só 42.592 votaram (60%). E os outros 40%? Provavelmente nunca quiseram votar, nem pagaram quotas — alguém pagou por eles, na esperança de os levar a votar. Eles não foram.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 20 de janeiro de 2018

marcar artigo