Muxicongo: «Vidadupla» em e com Sérgio Godinho?!...

07-03-2020
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«Na casa de férias de uma tia minha houve um
lençol puído, rasgado e mais de uma vez remendado, debaixo do qual me deitei
numa tarde de Verão…»

Sérgio Godinho

Sérgio Godinho esteve
entre nós, a pretexto do desafio lançado pela Biblioteca Municipal de Viana do
Castelo para connosco estar “À conversa com…”, habitual iniciativa mensal onde
a mesma Biblioteca visa promover, em torno do livro, o diálogo e a troca de
conhecimentos com escritores contemporâneos, proporcionando a oportunidade de
conviver de perto com os autores e a sua obra. E foi isso que aconteceu com
Sérgio Godinho, nascido na cidade do Porto, em 1945, e com apenas 20 anos de
idade parte para o estrangeiro. Primeiro destino: Suíça, onde estuda psicologia
em Genève durante dois anos, antes de tomar a decisão «para a vida» de se
dedicar às artes. Mais tarde muda-se para França. Vive o Maio de 68 na capital
francesa. No ano seguinte integra a produção francesa do musical Hair, onde se mantém por dois anos. Em
Paris priva com outros músicos portugueses, como Luís Cília e José Mário
Branco. Sérgio Godinho ensaiava assim as suas primeiras composições, na altura
em francês.

Do longo e riquíssimo
percurso artístico de Sérgio Godinho – o que seria fastidioso aqui esmiuçar –
teremos de salientar o facto de ter sido actor de teatro e ter começado a
exercitar a escrita de canções nos finais dos anos 60. O seu primeiro álbum
surge em 1971, Os Sobreviventes,
seguindo-se mais vinte e sete até aos dias de hoje, o que faz dele um dos
músicos portugueses mais influentes dos últimos quarenta anos. Sobre si próprio
disse: «Não vivo se não criar, não crio
se não viver. Essa balança incerta sempre foi a pedra de toque da minha vida».
Ou ainda: «Eu o que faço é tentar contar
coisas, falar de coisas, fazer interrogações à minha maneira e saber que há
pessoas que são tocadas por isso». Essas interrogações são “contos de um
instante”, como canta numa das canções de um dos seus discos, e tanto podem
falar de amor (Intermitentemente),
como da situação do país e das incertezas do presente (Acesso bloqueado). O seu percurso espelha, precisamente, essa
poderosa interacção entre a vida e a arte. Daí, que, mesmo enquanto voz
polifónica, levou frequentemente a sua escrita a outras paragens: Guiões de
cinema, peças de teatro, séries de televisão, histórias infanto-juvenis (O Pequeno Livro dos Medos), poesia (O Sangue por um Fio), crónicas (Caríssimas Quarenta Canções), entre
outros exemplos.

Naquela noite de 12 de
Dezembro último, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do
Castelo, estivemos ali para falar de VIDADUPLA (contos), capítulo presente
desse estimulante itinerário pessoal de Sérgio Godinho: «O que esconde e o que revela um velho lençol puído sobre a intimidade
de uma mulher? Como se prova a inocência quando um álibi incrimina? O que
significa a morte na vida de um carrasco, e o que significa a vida no dia da
sua morte? Para onde rolam as bicicletas e caminha a história das duas
operárias? O que leva um homem a deixar a sua casa, noite após noite, para
dormir na rua?» – perguntas para as quais encontramos algumas respostas,
através da sua bem estruturada dialéctica, segurança e cultura geral.

Sem que nos proponhamos,
pelo despropósito, a explicar os nove contos inseridos em VIDADUPLA: “O
lençol”; “O álibi do falso culpado”; “Notas soltas da corda e do carrasco”; “O
circo de três pistas”; “O pré-catastrofista”; “O momento mágico”; “Queria só
falar da minha história de amor”; “Osmose”; “O sem-abrigo, vida dupla”,
atrever-nos-emos em dizer, contudo, que sentimos a magia do espelho, algo que
já não é inédito na literatura ao longo dos séculos, como forma de mostrar as
duas faces de cada um de nós, sentir e ser na relação com o outro: «A casa era ao pé do mar, e eu tinha trinta e
quatro anos e um corpo de rapariga de vinte, pelo menos assim mo diziam os
amigos, os amantes e os espelhos. Costumava acreditar que pelo menos estes
últimos não me enganavam, ainda que sabendo o quanto é clemente e traiçoeiro o
olhar do nosso amor-próprio…» (p. 7); o envelhecer e o rejuvenescer: «Apresentar rugas umas às outras, mudar de
rugas ao fim da noite» (p. 9), dissimulando as quarentenas no teatro; o
instinto e a inocência; o carrasco que não pretende ser absolvido, dado que «Não mata por convicção e muito menos por
instinto. Mata por incumbência…» (p. 23); o desentendimento do corpo e da
alma «ao longo de todas as querelas,
interiores e exteriores, e assim preparam a sua separação eterna.» (p. 25);
o nascer e viver no circo «é andar à
volta e ter só uma saída, no lugar e no tempo da próxima entrada…» (p. 31),
numa alegoria à própria vida, mesmo quando em três pistas circulares, iguais; o
catastrofista, «o tal senhor extravagante
e enviesado, que antecipa, por método ou costume ou desvario, as catástrofes
iminentes» (p. 43); o momento mágico, ficando sozinho ouvindo os seus ecos
pela tarde, «tinha aprendido a gostar de
ópera, eu que a tinha desconsiderado, achava-a desadequada, enfática,
artificial – tudo o que afinal a vida era e a arte pode ser» (p. 62); o
antes e o depois do ser da vida, quando «o
meu antes não era lá grande coisa, querer explicar isto é quase perda de tempo…»
(p. 70); o enigma da auto-estima, não se julgando inferior aos outros: «Mas isso, só por reconhecer em todos
virtudes iguais às minhas. É esse o enigma da auto-estima, não ter nível por
onde se aferir.» (p. 79); e, finalmente, o sem-abrigo, vida dupla, enigma
que leva um homem a deixar a sua casa, noite após noite, para dormir na rua: «Vou preencher o presente com as esperanças
do passado. Não com as sobras do passado, mas com o que ficou. A esperança é o
que ficou.» (p. 91).

Ao termos feito esta
extrapolação lexical, mais não pretendemos do que “aguçar o apetite” dos
possíveis leitores destes maravilhosos contos, reunidos no sugestivo título de
VIDADUPLA. Quiçá, o outro lado de Sérgio Godinho.

       NOTA MÁXIMA!

«Na casa de férias de uma tia minha houve um
lençol puído, rasgado e mais de uma vez remendado, debaixo do qual me deitei
numa tarde de Verão…»

Sérgio Godinho

Sérgio Godinho esteve
entre nós, a pretexto do desafio lançado pela Biblioteca Municipal de Viana do
Castelo para connosco estar “À conversa com…”, habitual iniciativa mensal onde
a mesma Biblioteca visa promover, em torno do livro, o diálogo e a troca de
conhecimentos com escritores contemporâneos, proporcionando a oportunidade de
conviver de perto com os autores e a sua obra. E foi isso que aconteceu com
Sérgio Godinho, nascido na cidade do Porto, em 1945, e com apenas 20 anos de
idade parte para o estrangeiro. Primeiro destino: Suíça, onde estuda psicologia
em Genève durante dois anos, antes de tomar a decisão «para a vida» de se
dedicar às artes. Mais tarde muda-se para França. Vive o Maio de 68 na capital
francesa. No ano seguinte integra a produção francesa do musical Hair, onde se mantém por dois anos. Em
Paris priva com outros músicos portugueses, como Luís Cília e José Mário
Branco. Sérgio Godinho ensaiava assim as suas primeiras composições, na altura
em francês.

Do longo e riquíssimo
percurso artístico de Sérgio Godinho – o que seria fastidioso aqui esmiuçar –
teremos de salientar o facto de ter sido actor de teatro e ter começado a
exercitar a escrita de canções nos finais dos anos 60. O seu primeiro álbum
surge em 1971, Os Sobreviventes,
seguindo-se mais vinte e sete até aos dias de hoje, o que faz dele um dos
músicos portugueses mais influentes dos últimos quarenta anos. Sobre si próprio
disse: «Não vivo se não criar, não crio
se não viver. Essa balança incerta sempre foi a pedra de toque da minha vida».
Ou ainda: «Eu o que faço é tentar contar
coisas, falar de coisas, fazer interrogações à minha maneira e saber que há
pessoas que são tocadas por isso». Essas interrogações são “contos de um
instante”, como canta numa das canções de um dos seus discos, e tanto podem
falar de amor (Intermitentemente),
como da situação do país e das incertezas do presente (Acesso bloqueado). O seu percurso espelha, precisamente, essa
poderosa interacção entre a vida e a arte. Daí, que, mesmo enquanto voz
polifónica, levou frequentemente a sua escrita a outras paragens: Guiões de
cinema, peças de teatro, séries de televisão, histórias infanto-juvenis (O Pequeno Livro dos Medos), poesia (O Sangue por um Fio), crónicas (Caríssimas Quarenta Canções), entre
outros exemplos.

Naquela noite de 12 de
Dezembro último, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do
Castelo, estivemos ali para falar de VIDADUPLA (contos), capítulo presente
desse estimulante itinerário pessoal de Sérgio Godinho: «O que esconde e o que revela um velho lençol puído sobre a intimidade
de uma mulher? Como se prova a inocência quando um álibi incrimina? O que
significa a morte na vida de um carrasco, e o que significa a vida no dia da
sua morte? Para onde rolam as bicicletas e caminha a história das duas
operárias? O que leva um homem a deixar a sua casa, noite após noite, para
dormir na rua?» – perguntas para as quais encontramos algumas respostas,
através da sua bem estruturada dialéctica, segurança e cultura geral.

Sem que nos proponhamos,
pelo despropósito, a explicar os nove contos inseridos em VIDADUPLA: “O
lençol”; “O álibi do falso culpado”; “Notas soltas da corda e do carrasco”; “O
circo de três pistas”; “O pré-catastrofista”; “O momento mágico”; “Queria só
falar da minha história de amor”; “Osmose”; “O sem-abrigo, vida dupla”,
atrever-nos-emos em dizer, contudo, que sentimos a magia do espelho, algo que
já não é inédito na literatura ao longo dos séculos, como forma de mostrar as
duas faces de cada um de nós, sentir e ser na relação com o outro: «A casa era ao pé do mar, e eu tinha trinta e
quatro anos e um corpo de rapariga de vinte, pelo menos assim mo diziam os
amigos, os amantes e os espelhos. Costumava acreditar que pelo menos estes
últimos não me enganavam, ainda que sabendo o quanto é clemente e traiçoeiro o
olhar do nosso amor-próprio…» (p. 7); o envelhecer e o rejuvenescer: «Apresentar rugas umas às outras, mudar de
rugas ao fim da noite» (p. 9), dissimulando as quarentenas no teatro; o
instinto e a inocência; o carrasco que não pretende ser absolvido, dado que «Não mata por convicção e muito menos por
instinto. Mata por incumbência…» (p. 23); o desentendimento do corpo e da
alma «ao longo de todas as querelas,
interiores e exteriores, e assim preparam a sua separação eterna.» (p. 25);
o nascer e viver no circo «é andar à
volta e ter só uma saída, no lugar e no tempo da próxima entrada…» (p. 31),
numa alegoria à própria vida, mesmo quando em três pistas circulares, iguais; o
catastrofista, «o tal senhor extravagante
e enviesado, que antecipa, por método ou costume ou desvario, as catástrofes
iminentes» (p. 43); o momento mágico, ficando sozinho ouvindo os seus ecos
pela tarde, «tinha aprendido a gostar de
ópera, eu que a tinha desconsiderado, achava-a desadequada, enfática,
artificial – tudo o que afinal a vida era e a arte pode ser» (p. 62); o
antes e o depois do ser da vida, quando «o
meu antes não era lá grande coisa, querer explicar isto é quase perda de tempo…»
(p. 70); o enigma da auto-estima, não se julgando inferior aos outros: «Mas isso, só por reconhecer em todos
virtudes iguais às minhas. É esse o enigma da auto-estima, não ter nível por
onde se aferir.» (p. 79); e, finalmente, o sem-abrigo, vida dupla, enigma
que leva um homem a deixar a sua casa, noite após noite, para dormir na rua: «Vou preencher o presente com as esperanças
do passado. Não com as sobras do passado, mas com o que ficou. A esperança é o
que ficou.» (p. 91).

Ao termos feito esta
extrapolação lexical, mais não pretendemos do que “aguçar o apetite” dos
possíveis leitores destes maravilhosos contos, reunidos no sugestivo título de
VIDADUPLA. Quiçá, o outro lado de Sérgio Godinho.

       NOTA MÁXIMA!

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