porosidade etérea: Queixa das almas jovens censuradas

15-11-2019
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Dão-nos um lírio e um canivete e uma alma para ir à escolaE um letreiro que prometeRaízes, hastes e corola. Dão-nos um mapa imaginárioQue tem a forma duma cidadeMais um relógio e um calendárioOnde não vem a nossa idade. Dão-nos a honra de manequimPara dar corda à nossa ausência.Dão-nos o prémio de ser assimSem pecado e sem inocência. Dão-nos um barco e um chapéuPara tirarmos o retrato.Dão-nos bilhetes para o céuLevado à cena num teatro. Penteiam-nos os crânios ermosCom as cabeleiras dos avósPara jamais nos parecermosConnosco quando estamos sós. Dão-nos um bolo que é a históriaDa nossa história sem enredoE não nos soa na memóriaOutra palavra para o medo. Temos fantasmas tão educadosQue adormecemos no seu ombroSomos vazios, despovoadosDe personagens do assombro. Dão-nos a capa do evangelhoE um pacote de tabaco.Dão-nos um pente e um espelhoPara pentearmos um macaco. Dão-nos um cravo preso à cabeçaE uma cabeça presa à cinturaPara que o corpo não pareçaA forma da alma que o procura. Dão-nos um esquife feito de ferroCom embutidos de diamantePara organizar já o enterroDo nosso corpo mais adiante. Dão-nos um nome e um jornal,Um avião e um violino.Mas não nos dão o animalQue espeta os cornos no destino. Dão-nos marujos de papelãoCom carimbo no passaporte.Por isso a nossa dimensãoNão é a vida. Nem é a morte.Natália CorreiaNa voz de José Mário Branco:


Dão-nos um lírio e um canivete e uma alma para ir à escolaE um letreiro que prometeRaízes, hastes e corola. Dão-nos um mapa imaginárioQue tem a forma duma cidadeMais um relógio e um calendárioOnde não vem a nossa idade. Dão-nos a honra de manequimPara dar corda à nossa ausência.Dão-nos o prémio de ser assimSem pecado e sem inocência. Dão-nos um barco e um chapéuPara tirarmos o retrato.Dão-nos bilhetes para o céuLevado à cena num teatro. Penteiam-nos os crânios ermosCom as cabeleiras dos avósPara jamais nos parecermosConnosco quando estamos sós. Dão-nos um bolo que é a históriaDa nossa história sem enredoE não nos soa na memóriaOutra palavra para o medo. Temos fantasmas tão educadosQue adormecemos no seu ombroSomos vazios, despovoadosDe personagens do assombro. Dão-nos a capa do evangelhoE um pacote de tabaco.Dão-nos um pente e um espelhoPara pentearmos um macaco. Dão-nos um cravo preso à cabeçaE uma cabeça presa à cinturaPara que o corpo não pareçaA forma da alma que o procura. Dão-nos um esquife feito de ferroCom embutidos de diamantePara organizar já o enterroDo nosso corpo mais adiante. Dão-nos um nome e um jornal,Um avião e um violino.Mas não nos dão o animalQue espeta os cornos no destino. Dão-nos marujos de papelãoCom carimbo no passaporte.Por isso a nossa dimensãoNão é a vida. Nem é a morte.Natália CorreiaNa voz de José Mário Branco:

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