25 anos de 25 de Abril -

13-09-1999
marcar artigo

General Ramalho Eanes

Três consequências fundamentais resultaram das repercussões do discurso do general Ramalho Eanes. A primeira, mais remota, seria a de tal discurso ter assinalado o começo da contestação crescente ao Governo socialista, que se avolumaria durante o verão de 1977, e que estaria na base da sua queda em Dezembro do mesmo ano.

A segunda consequência, mais imediata, foi a da apresentação por Diogo Freitas do Amaral de uma proposta de «Convergência Democrática», que seria retomada por Francisco Sá Carneiro, no seu regresso dos EUA, para onde partiu precisamente a 26 de Abril de 1977. 0 grande estratega social-democrata da «Convergência Democrática» para a qual seriam convidados os socialistas, que não aceitaram, e que reuniria as direcções do PSD e do CDS durante cerca de quatro meses seria Ant6nio Sousa Franco, então vice-presidente da Comissão Política Nacional, presidente da Comissão de Estratégia e para muitos potencial «delfim» de Sã Carneiro.

Uma terceira consequência, de natureza pessoal, mas nem por isso menos relevante do discurso de 25 de Abril de 1977, foi a violenta ofensiva desencadeada pelo PS contra Henrique Granadeiro, pela sua presumível posição de «ghost writer» de Eanes. A campanha começou nos dias imediatamente seguintes ao discurso, visando designadamente atribuir a sua responsabilidade à influência de Henrique Granadeiro, bem como tentar atenuar os efeitos do discurso nas relações entre Belém e São Bento. Manuel Alegre, então secretário de Estado da Comunicação Social, desempenhou um papel activo nessa tentativa, desdobrando-se em contactos pessoais com vários órgãos de comunicação social.

De facto, o Verão de 1977 viria a assinalar mesmo a primeira «queda em desgraça» de Henrique Granadeiro.

O discurso de 25 de Abril de 1978 teve na sua base um projecto elaborado por Vasco Pulido Valente, projecto esse que, segundo fontes bem informadas, influenciaria cerca de 2/3 das palavras do presidente Ramalho Eanes.

O texto de Pulido Valente seria debatido por um grupo de personalidades políticas em Belém, nelas se incluindo o actual primeiro-ministro Mota Pinto, Medeiros Ferreira e Jorge Miranda, além do próprio Vasco Pulido Valente e de membros das Casas Civil e Militar do Presidente da República (Henrique Granadeiro, Amadeu Garcia dos Santos, Joaquim Aguiar e Silva Costa).

Segundo as mesmas fontes, teria sido particularmente longo e animado o debate havido entre estes vários elementos, debate esse orientado e estimulado pelo próprio general Ramalho Eanes, que reservaria para si próprio a última palavra sobre o texto final do discurso. Nele prevaleceria a tese do ataque aos motivos de insatisfação popular em relação à tese do apoio ao Governo com ataque ao PCP.

Trata-se, aliás, de um hábito do Presidente Eanes o de deixar para uma última reflexão e decisão pessoal o conteúdo dos discursos presidenciais que profere (neles introduzindo inclusive alterações no derradeiro momento).

Com o discurso de 25 de Abril de 1978, os efeitos políticos foram muito mais rápidos do que com o discurso do ano anterior.

Enquanto que Mário Soares e o PS (porventura já habituados ao que consideravam catilinária presidencial anual) pretendiam minimizar o seu significado, Freitas do Amaral e o CDS consideraram-na uma declaração provocadora de uma crise governativa. Teria sido nessa época que Diogo Freitas do Amaral teria usado, numa conversa com o próprio Presidente Eanes, uma imagem sugestiva para caracterizar os discursos de 25 de Abril.

Em 1977, o discurso de Eanes fora como que um tiro dado numa «asa» do Governo socialista. O Governo tentava minimizar o alcance desse tiro, mas a ferida crescera e gangrenara e, oito meses depois, viria a cair o mesmo Governo por causa do tiro presidencial.

No caso do discurso de 25 de Abril de 1978, Freitas do Amaral entendia que era bom que ficasse claro se o Presidente tinha querido alvejar o novo «pássaro», que era o segundo Governo Constitucional. Se a resposta fosse afirmativa, então mais valia fazer cair de imediato o Executivo do que prolongar-lhe artificialmente a agonia.

Dando um passo atrás (depois de aparentemente ter dado dois passos à frente no seu discurso) o Presidente Eanes sossegou o Governo e os dois partidos que o formavam: não tinha querido alvejar de morte a «ave» governativa.

No entanto, menos de três meses depois do discurso presidencial caia o segundo Governo Constitucional, ferido, tal como o primeiro, pelas palavras do Presidente da República.

Esta foi, em curtas palavras, a história de dois discursos presidenciais comemorativos da Revolução do 25 de Abril de 1974.

Qual será a história conhecida (e desconhecida) do discurso da próxima semana?

Será ele o primeiro discurso presidencial que não visa, ao menos aparentemente, como alvo principal o Governo em funções (e é o PCP, finalmente, o alvo atingido)? Ou a tradição dos dois anos anteriores não deixa de se manifestar novamente, quando mais não seja para provar que tem razão a gíria popular que diz: «não há duas sem três»?

General Ramalho Eanes

Três consequências fundamentais resultaram das repercussões do discurso do general Ramalho Eanes. A primeira, mais remota, seria a de tal discurso ter assinalado o começo da contestação crescente ao Governo socialista, que se avolumaria durante o verão de 1977, e que estaria na base da sua queda em Dezembro do mesmo ano.

A segunda consequência, mais imediata, foi a da apresentação por Diogo Freitas do Amaral de uma proposta de «Convergência Democrática», que seria retomada por Francisco Sá Carneiro, no seu regresso dos EUA, para onde partiu precisamente a 26 de Abril de 1977. 0 grande estratega social-democrata da «Convergência Democrática» para a qual seriam convidados os socialistas, que não aceitaram, e que reuniria as direcções do PSD e do CDS durante cerca de quatro meses seria Ant6nio Sousa Franco, então vice-presidente da Comissão Política Nacional, presidente da Comissão de Estratégia e para muitos potencial «delfim» de Sã Carneiro.

Uma terceira consequência, de natureza pessoal, mas nem por isso menos relevante do discurso de 25 de Abril de 1977, foi a violenta ofensiva desencadeada pelo PS contra Henrique Granadeiro, pela sua presumível posição de «ghost writer» de Eanes. A campanha começou nos dias imediatamente seguintes ao discurso, visando designadamente atribuir a sua responsabilidade à influência de Henrique Granadeiro, bem como tentar atenuar os efeitos do discurso nas relações entre Belém e São Bento. Manuel Alegre, então secretário de Estado da Comunicação Social, desempenhou um papel activo nessa tentativa, desdobrando-se em contactos pessoais com vários órgãos de comunicação social.

De facto, o Verão de 1977 viria a assinalar mesmo a primeira «queda em desgraça» de Henrique Granadeiro.

O discurso de 25 de Abril de 1978 teve na sua base um projecto elaborado por Vasco Pulido Valente, projecto esse que, segundo fontes bem informadas, influenciaria cerca de 2/3 das palavras do presidente Ramalho Eanes.

O texto de Pulido Valente seria debatido por um grupo de personalidades políticas em Belém, nelas se incluindo o actual primeiro-ministro Mota Pinto, Medeiros Ferreira e Jorge Miranda, além do próprio Vasco Pulido Valente e de membros das Casas Civil e Militar do Presidente da República (Henrique Granadeiro, Amadeu Garcia dos Santos, Joaquim Aguiar e Silva Costa).

Segundo as mesmas fontes, teria sido particularmente longo e animado o debate havido entre estes vários elementos, debate esse orientado e estimulado pelo próprio general Ramalho Eanes, que reservaria para si próprio a última palavra sobre o texto final do discurso. Nele prevaleceria a tese do ataque aos motivos de insatisfação popular em relação à tese do apoio ao Governo com ataque ao PCP.

Trata-se, aliás, de um hábito do Presidente Eanes o de deixar para uma última reflexão e decisão pessoal o conteúdo dos discursos presidenciais que profere (neles introduzindo inclusive alterações no derradeiro momento).

Com o discurso de 25 de Abril de 1978, os efeitos políticos foram muito mais rápidos do que com o discurso do ano anterior.

Enquanto que Mário Soares e o PS (porventura já habituados ao que consideravam catilinária presidencial anual) pretendiam minimizar o seu significado, Freitas do Amaral e o CDS consideraram-na uma declaração provocadora de uma crise governativa. Teria sido nessa época que Diogo Freitas do Amaral teria usado, numa conversa com o próprio Presidente Eanes, uma imagem sugestiva para caracterizar os discursos de 25 de Abril.

Em 1977, o discurso de Eanes fora como que um tiro dado numa «asa» do Governo socialista. O Governo tentava minimizar o alcance desse tiro, mas a ferida crescera e gangrenara e, oito meses depois, viria a cair o mesmo Governo por causa do tiro presidencial.

No caso do discurso de 25 de Abril de 1978, Freitas do Amaral entendia que era bom que ficasse claro se o Presidente tinha querido alvejar o novo «pássaro», que era o segundo Governo Constitucional. Se a resposta fosse afirmativa, então mais valia fazer cair de imediato o Executivo do que prolongar-lhe artificialmente a agonia.

Dando um passo atrás (depois de aparentemente ter dado dois passos à frente no seu discurso) o Presidente Eanes sossegou o Governo e os dois partidos que o formavam: não tinha querido alvejar de morte a «ave» governativa.

No entanto, menos de três meses depois do discurso presidencial caia o segundo Governo Constitucional, ferido, tal como o primeiro, pelas palavras do Presidente da República.

Esta foi, em curtas palavras, a história de dois discursos presidenciais comemorativos da Revolução do 25 de Abril de 1974.

Qual será a história conhecida (e desconhecida) do discurso da próxima semana?

Será ele o primeiro discurso presidencial que não visa, ao menos aparentemente, como alvo principal o Governo em funções (e é o PCP, finalmente, o alvo atingido)? Ou a tradição dos dois anos anteriores não deixa de se manifestar novamente, quando mais não seja para provar que tem razão a gíria popular que diz: «não há duas sem três»?

marcar artigo