EXPRESSO

12-09-1999
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«Não é ainda conhecida a composição do Comité, mas pelas referências feitas na acta é possível concluir, sem grande margem de erro, que ele representa uma vasta teia de interesses transversal a toda a sociedade portuguesa.»

A grande conspiração contra João Cravinho

TRANSCREVO de seguida uma síntese da acta da última reunião do Comité Organizador do Assassinato Político do Ministro João Cravinho (COAPMJC), que mão invisível me fez chegar à secretária. A existência deste comité era, até hoje, desconhecida do grande público, e vem confirmar a existência de uma conspiração organizada para tramar politicamente o superministro de António Guterres. Não é ainda conhecida a composição do Comité, mas pelas referências feitas na acta é possível concluir, sem grande margem de erro, que ele representa uma vasta teia de interesses transversal a toda a sociedade portuguesa. Parece mentira, mas é verdade. Quase toda a gente tem andado a conspirar para assassinar politicamente João Cravinho. A acta revela, de forma surpreendente, que os objectivos terão já sido conseguidos, pois o documento consagra a liquidação do próprio Comité, como se pode ler no que se segue. «Este Comité dá por concluída a tarefa regeneradora que lhe foi destinada, garantindo sem margem para grandes dúvidas, que concretizou este difícil, ambicioso mas necessário desígnio com sucesso. João Cravinho é dado em largos sectores da vida económica e política como politicamente morto, facto que se pode comprovar pela leitura dos jornais e pelos relatos que chegam dos corredores dos poderes instituídos. Como combinado este Comité utilizou todos os meios lícitos e menos lícitos; conspirou com correligionários e adversários da vítima; pressionou o poder e o contra-poder, ou seja, seguiu à risca a indicação de fazer aquilo que, em política, é usual os políticos fazerem para se assassinar uns aos outros. Politicamente falando, é claro. «A nossa acção é publicamente conhecida pela polémica das obras públicas. É injusto, no entanto, limitar a essa variante táctica uma estratégia persistentemente aplicada nos últimos três anos. No sector sindical e reivindicativo, por exemplo. Fomos nós que convencemos os pilotos da barra a desencadearem uma greve no porto de Lisboa. Temos sido nós que, sem conhecimento do próprios, temos fomentado as sucessivas greves dos pilotos. O presidente da comissão arbitral que condenou a TAP à falência era e é, sem o saber, agente deste Comité. A anterior administração da TAP foi por nós apoiada sempre que decidiu contra a vontade do ministro. Ou sem o consultar. O que, como é público, aconteceu muitas vezes. Apoiámos ainda todos os movimentos reivindicativos de sectores laborais tutelados por João Cravinho, como é o caso dos trabalhadores portuários e dos trabalhadores dos caminhos-de-ferro. A ideia era desgastar a imagem do ministro, para mais facilmente o atingir no essencial. «E o essencial era acabar com o seu enorme poder político. E foi aqui que contámos com contributos inesperados e surpreendentes. A ordem que segue é arbitrária, pois todos foram igualmente importantes. A começar pelo general Garcia dos Santos, que deu um significativo impulso à causa, quando ela estava a chegar a um impasse. Continuando em Sousa Franco, que se tornou um aliado objectivo na luta de Garcia dos Santos contra João Cravinho. E em Fernando Gomes, que parece querer o lugar de João Cravinho. E em Pina Moura, que não quer o lugar, mas quer os fundos. E em Cavaco Silva, quando criticou a lentidão das obras. E em Nogueira Simões, quando publicamente ousou afirmar que há menos obras agora do que no passado. E nos patrões das construtoras. E no próprio João Cravinho. «Esta é a surpresa, que justifica a decisão de liquidar imediatamente o Comité. As declarações do ministro segunda-feira passada tornam inútil a manutenção desta conspiração. João Cravinho contribui mais sozinho para a sua própria liquidação política do que todos os conspiradores activos e passivos atrás referidos. Não é necessário assassinar politicamente alguém que está determinado a praticar suicídio político. Embora sem grande glória, a tarefa está realizada.»

«Não é ainda conhecida a composição do Comité, mas pelas referências feitas na acta é possível concluir, sem grande margem de erro, que ele representa uma vasta teia de interesses transversal a toda a sociedade portuguesa.»

A grande conspiração contra João Cravinho

TRANSCREVO de seguida uma síntese da acta da última reunião do Comité Organizador do Assassinato Político do Ministro João Cravinho (COAPMJC), que mão invisível me fez chegar à secretária. A existência deste comité era, até hoje, desconhecida do grande público, e vem confirmar a existência de uma conspiração organizada para tramar politicamente o superministro de António Guterres. Não é ainda conhecida a composição do Comité, mas pelas referências feitas na acta é possível concluir, sem grande margem de erro, que ele representa uma vasta teia de interesses transversal a toda a sociedade portuguesa. Parece mentira, mas é verdade. Quase toda a gente tem andado a conspirar para assassinar politicamente João Cravinho. A acta revela, de forma surpreendente, que os objectivos terão já sido conseguidos, pois o documento consagra a liquidação do próprio Comité, como se pode ler no que se segue. «Este Comité dá por concluída a tarefa regeneradora que lhe foi destinada, garantindo sem margem para grandes dúvidas, que concretizou este difícil, ambicioso mas necessário desígnio com sucesso. João Cravinho é dado em largos sectores da vida económica e política como politicamente morto, facto que se pode comprovar pela leitura dos jornais e pelos relatos que chegam dos corredores dos poderes instituídos. Como combinado este Comité utilizou todos os meios lícitos e menos lícitos; conspirou com correligionários e adversários da vítima; pressionou o poder e o contra-poder, ou seja, seguiu à risca a indicação de fazer aquilo que, em política, é usual os políticos fazerem para se assassinar uns aos outros. Politicamente falando, é claro. «A nossa acção é publicamente conhecida pela polémica das obras públicas. É injusto, no entanto, limitar a essa variante táctica uma estratégia persistentemente aplicada nos últimos três anos. No sector sindical e reivindicativo, por exemplo. Fomos nós que convencemos os pilotos da barra a desencadearem uma greve no porto de Lisboa. Temos sido nós que, sem conhecimento do próprios, temos fomentado as sucessivas greves dos pilotos. O presidente da comissão arbitral que condenou a TAP à falência era e é, sem o saber, agente deste Comité. A anterior administração da TAP foi por nós apoiada sempre que decidiu contra a vontade do ministro. Ou sem o consultar. O que, como é público, aconteceu muitas vezes. Apoiámos ainda todos os movimentos reivindicativos de sectores laborais tutelados por João Cravinho, como é o caso dos trabalhadores portuários e dos trabalhadores dos caminhos-de-ferro. A ideia era desgastar a imagem do ministro, para mais facilmente o atingir no essencial. «E o essencial era acabar com o seu enorme poder político. E foi aqui que contámos com contributos inesperados e surpreendentes. A ordem que segue é arbitrária, pois todos foram igualmente importantes. A começar pelo general Garcia dos Santos, que deu um significativo impulso à causa, quando ela estava a chegar a um impasse. Continuando em Sousa Franco, que se tornou um aliado objectivo na luta de Garcia dos Santos contra João Cravinho. E em Fernando Gomes, que parece querer o lugar de João Cravinho. E em Pina Moura, que não quer o lugar, mas quer os fundos. E em Cavaco Silva, quando criticou a lentidão das obras. E em Nogueira Simões, quando publicamente ousou afirmar que há menos obras agora do que no passado. E nos patrões das construtoras. E no próprio João Cravinho. «Esta é a surpresa, que justifica a decisão de liquidar imediatamente o Comité. As declarações do ministro segunda-feira passada tornam inútil a manutenção desta conspiração. João Cravinho contribui mais sozinho para a sua própria liquidação política do que todos os conspiradores activos e passivos atrás referidos. Não é necessário assassinar politicamente alguém que está determinado a praticar suicídio político. Embora sem grande glória, a tarefa está realizada.»

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