Mas não é só nas ilhas que este fenómeno acontece. A perpetuação no poder é relativamente comum nas autarquias, onde há oito presidentes de Câmara que são eleitos há exactamente o mesmo número de anos que Alberto João Jardim. E outros oito venceram as eleições pela primeira vez há 21 anos.
Até a nível nacional, nos últimos 15 anos, se verifica uma tendência para os eleitores «perpetuarem» o seu sentido de voto. Recordem-se as várias maiorias de Cavaco Silva e as duas já obtidas por António Guterres. Nas eleições presidenciais manifesta-se também esta quase regra. Aliás, se não houvesse a limitação constitucional de dois mandatos, será que Ramalho Eanes não seria, ainda, o ocupante da casa de Belém?
Mas nas autarquias é que o fenómeno é, de facto, mais idêntico ao das Regiões Autónomas. À frente dos destinos de Braga e Évora estão, há 24 anos, Mesquita Machado e Abílio Fernandes. E além destes grandes municípios, idêntica situação se verifica em edilidades mais pequenas, como Reguengos de Monsaraz, Alenquer, Vila Nova de Poiares, Resende, Amares e Castro Verde. São 12 homens que foram eleitos pela primeira vez em 1976 e que têm vindo, sucessivamente, a ser reeleitos para o cargo de presidente da Câmara. E se estes casos acontecem de Braga a Castro Verde espraiam-se, também, por todo o espectro partidário. Vejam-se quais são, começando pelo partido mais à esquerda, representado pelo já citado Abílio Fernandes e por Fernando Caeiros, independente que tem concorrido pela CDU à Câmara de Castro Verde. Quanto a este último, pensou-se que terminaria a sua actividade política em 1997 (o ano das últimas autárquicas) mas acabou por se candidatar e ser eleito para novo mandato. O PS está representado por Mesquita Machado e Vítor Martelo, de Reguengos de Monsaraz, um dos três autarcas rosa num distrito que conta com 11 conquistas da CDU. Na categoria dos 23 anos, o PSD é o recordista, com as presenças de Gomes Pedro, em Alenquer, Marta Soares, em Vila Nova de Poiares e Albino Matos, de Resende. E dos «quatro grandes» só o CDS/PP deixou de estar representado, porque Tomé Macedo, há 24 anos em Amares, decidiu ao fim de 21 anos trocar este partido pelo PSD. Mas a mudança de camisola não influenciou o seu destino: como era de esperar, voltou a vencer.
Aliás, no lote dos que estavam há 21 anos no poder e se voltaram a candidatar em 1997, só os socialistas José Anacleto, de Castro Marim, e Falé Canoa, de Monforte, perderam as eleições para os seus rivais do PSD e da CDU, respectivamente. No caso de Canoa, a sua vida à frente da autarquia já vinha complicada desde 1996, altura em que perdeu o mandato que acabou por recuperar depois de recorrer ao Supremo Tribunal de Justiça. Mas os eleitores de Monforte parecem ter feito um julgamento diferente.
Uma nota final sobre os homens que ganharam sucessivamente as autárquicas desde 1976 é significativa: se em 2000 eles são oito, em 1997 eram 14. Já entre os que estão há 21 anos nas respectivas Câmaras, contam-se os poderosos autarcas da Maia, Vieira de Carvalho, de Vila do Conde, Mário de Almeida, e o agora regressado Narciso Miranda, de Matosinhos. Mas também os de Óbidos, Penela, Terras de Bouro, Vidigueira, Chamusca e Sobral de Monte Agraço.
Bom trabalho, conservadorismo do eleitorado, deficiências do sistema eleitoral, falta de capacidade da oposição ou apenas a consequência do uso eficaz das vantagens de se estar no poder. A explicação para cada um dos muitos casos de 24 anos de permanência no poder está numa - ou na conjugação de várias - destas razões.
MARIA TERESA OLIVEIRA
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Mas não é só nas ilhas que este fenómeno acontece. A perpetuação no poder é relativamente comum nas autarquias, onde há oito presidentes de Câmara que são eleitos há exactamente o mesmo número de anos que Alberto João Jardim. E outros oito venceram as eleições pela primeira vez há 21 anos.
Até a nível nacional, nos últimos 15 anos, se verifica uma tendência para os eleitores «perpetuarem» o seu sentido de voto. Recordem-se as várias maiorias de Cavaco Silva e as duas já obtidas por António Guterres. Nas eleições presidenciais manifesta-se também esta quase regra. Aliás, se não houvesse a limitação constitucional de dois mandatos, será que Ramalho Eanes não seria, ainda, o ocupante da casa de Belém?
Mas nas autarquias é que o fenómeno é, de facto, mais idêntico ao das Regiões Autónomas. À frente dos destinos de Braga e Évora estão, há 24 anos, Mesquita Machado e Abílio Fernandes. E além destes grandes municípios, idêntica situação se verifica em edilidades mais pequenas, como Reguengos de Monsaraz, Alenquer, Vila Nova de Poiares, Resende, Amares e Castro Verde. São 12 homens que foram eleitos pela primeira vez em 1976 e que têm vindo, sucessivamente, a ser reeleitos para o cargo de presidente da Câmara. E se estes casos acontecem de Braga a Castro Verde espraiam-se, também, por todo o espectro partidário. Vejam-se quais são, começando pelo partido mais à esquerda, representado pelo já citado Abílio Fernandes e por Fernando Caeiros, independente que tem concorrido pela CDU à Câmara de Castro Verde. Quanto a este último, pensou-se que terminaria a sua actividade política em 1997 (o ano das últimas autárquicas) mas acabou por se candidatar e ser eleito para novo mandato. O PS está representado por Mesquita Machado e Vítor Martelo, de Reguengos de Monsaraz, um dos três autarcas rosa num distrito que conta com 11 conquistas da CDU. Na categoria dos 23 anos, o PSD é o recordista, com as presenças de Gomes Pedro, em Alenquer, Marta Soares, em Vila Nova de Poiares e Albino Matos, de Resende. E dos «quatro grandes» só o CDS/PP deixou de estar representado, porque Tomé Macedo, há 24 anos em Amares, decidiu ao fim de 21 anos trocar este partido pelo PSD. Mas a mudança de camisola não influenciou o seu destino: como era de esperar, voltou a vencer.
Aliás, no lote dos que estavam há 21 anos no poder e se voltaram a candidatar em 1997, só os socialistas José Anacleto, de Castro Marim, e Falé Canoa, de Monforte, perderam as eleições para os seus rivais do PSD e da CDU, respectivamente. No caso de Canoa, a sua vida à frente da autarquia já vinha complicada desde 1996, altura em que perdeu o mandato que acabou por recuperar depois de recorrer ao Supremo Tribunal de Justiça. Mas os eleitores de Monforte parecem ter feito um julgamento diferente.
Uma nota final sobre os homens que ganharam sucessivamente as autárquicas desde 1976 é significativa: se em 2000 eles são oito, em 1997 eram 14. Já entre os que estão há 21 anos nas respectivas Câmaras, contam-se os poderosos autarcas da Maia, Vieira de Carvalho, de Vila do Conde, Mário de Almeida, e o agora regressado Narciso Miranda, de Matosinhos. Mas também os de Óbidos, Penela, Terras de Bouro, Vidigueira, Chamusca e Sobral de Monte Agraço.
Bom trabalho, conservadorismo do eleitorado, deficiências do sistema eleitoral, falta de capacidade da oposição ou apenas a consequência do uso eficaz das vantagens de se estar no poder. A explicação para cada um dos muitos casos de 24 anos de permanência no poder está numa - ou na conjugação de várias - destas razões.
MARIA TERESA OLIVEIRA