Dicionário de Compositores Portugueses
BRITO, Estevão de
Sábado, 17 de Março de 2001
(Serpa, c. 1575 / Málaga, 1641)
Estevão de Brito foi um dos mais insignes polifonistas da primeira metade do século XVII. Pertencente à terceira geração da escola de Évora, protagonista de um dos períodos áureos da música portuguesa e da formação de um considerável número de compositores activos em Espanha e Portugal, terá sido aluno de Filipe de Magalhães, um dos principais representantes da geração anterior.
De acordo com Diogo Barbosa de Machado, que lhe dedica um dos artigos da "Biblioteca Lusitana", o primeiro posto importante que Brito ocupou foi o de mestre de capela da catedral de Badajoz (1596). Por recomendação do capítulo desta instituição foi ordenado pelo Arcebispo de Évora em Fevereiro de 1608, e em 1613 concorreu ao cargo de mestre de capela da catedral de Málaga, sendo seleccionado entre quatro candidatos. À semelhança do que tinha sucedido em Badajoz, além da música prevista para as diferentes rubricas da liturgia, estava encarregado de escrever vilancicos (música adaptada às homónimas composições poéticas de versos de pequena medida) para o Natal e para a festa do Corpo de Deus. Em Janeiro de 1618, foi convidado a dirigir a Capela Real de Madrid, mas recusou por razões desconhecidas, permanecendo, até à sua morte, em Málaga, onde tinha também a seu cargo a direcção musical dos serviços religiosos e a formação dos meninos de coro.
As composições de Estevão de Brito caracterizam-se por um contraponto luxuriante, que emprega com frequência figurações rítmicas agitadas de carácter ornamental, muitas vezes em ligação estreita com o conteúdo do texto. A variedade de valores rítmicos denuncia a transição do contraponto renascentista para o idioma barroco. De acordo com o musicólogo Rui Vieira Nery, as suas obras mostram uma tendência para o uso de texturas densas monocorais a cinco ou seis vozes (embora em alguns casos escreva também para oito vozes, em dois coros alternantes) e uma linguagem expressiva pungente bastante próxima da de Frei Manuel Cardoso, que atinge o extremo, como era característico dos polifonistas ibéricos, na belíssima colecção de Lamentações da Semana Santa.
Além destas, a produção musical conhecida de Estevão de Brito inclui música para o Ofício de Defunctos, Salmos, Hinos e Motetes, encontrando-se publicada em edição moderna pela Fundação Gulbenkian, na colecção Portugaliae Musica (volumes XXI e XXX), com transcrição e estudo de Miguel Querol Gavalda. A primeira parte do catálogo da Biblioteca de D. João IV, menciona também 12 vilancicos de Natal e um "Tratado de Música" que teriam desaparecido com o terramoto de 1755, juntamente com o precioso espólio musical, um dos maiores da Europa, reunido pelo monarca. C.F.
Dicionário de Compositores Portugueses
BRITO, Estevão de
Sábado, 17 de Março de 2001
(Serpa, c. 1575 / Málaga, 1641)
Estevão de Brito foi um dos mais insignes polifonistas da primeira metade do século XVII. Pertencente à terceira geração da escola de Évora, protagonista de um dos períodos áureos da música portuguesa e da formação de um considerável número de compositores activos em Espanha e Portugal, terá sido aluno de Filipe de Magalhães, um dos principais representantes da geração anterior.
De acordo com Diogo Barbosa de Machado, que lhe dedica um dos artigos da "Biblioteca Lusitana", o primeiro posto importante que Brito ocupou foi o de mestre de capela da catedral de Badajoz (1596). Por recomendação do capítulo desta instituição foi ordenado pelo Arcebispo de Évora em Fevereiro de 1608, e em 1613 concorreu ao cargo de mestre de capela da catedral de Málaga, sendo seleccionado entre quatro candidatos. À semelhança do que tinha sucedido em Badajoz, além da música prevista para as diferentes rubricas da liturgia, estava encarregado de escrever vilancicos (música adaptada às homónimas composições poéticas de versos de pequena medida) para o Natal e para a festa do Corpo de Deus. Em Janeiro de 1618, foi convidado a dirigir a Capela Real de Madrid, mas recusou por razões desconhecidas, permanecendo, até à sua morte, em Málaga, onde tinha também a seu cargo a direcção musical dos serviços religiosos e a formação dos meninos de coro.
As composições de Estevão de Brito caracterizam-se por um contraponto luxuriante, que emprega com frequência figurações rítmicas agitadas de carácter ornamental, muitas vezes em ligação estreita com o conteúdo do texto. A variedade de valores rítmicos denuncia a transição do contraponto renascentista para o idioma barroco. De acordo com o musicólogo Rui Vieira Nery, as suas obras mostram uma tendência para o uso de texturas densas monocorais a cinco ou seis vozes (embora em alguns casos escreva também para oito vozes, em dois coros alternantes) e uma linguagem expressiva pungente bastante próxima da de Frei Manuel Cardoso, que atinge o extremo, como era característico dos polifonistas ibéricos, na belíssima colecção de Lamentações da Semana Santa.
Além destas, a produção musical conhecida de Estevão de Brito inclui música para o Ofício de Defunctos, Salmos, Hinos e Motetes, encontrando-se publicada em edição moderna pela Fundação Gulbenkian, na colecção Portugaliae Musica (volumes XXI e XXX), com transcrição e estudo de Miguel Querol Gavalda. A primeira parte do catálogo da Biblioteca de D. João IV, menciona também 12 vilancicos de Natal e um "Tratado de Música" que teriam desaparecido com o terramoto de 1755, juntamente com o precioso espólio musical, um dos maiores da Europa, reunido pelo monarca. C.F.