Edite Estrela, Pina Moura e Octávio Teixeira foram ouvir D. José Policarpo
Um Frio Jubileu, com Presenças Surpreendentes
Por EUNICE LOURENÇO
Sexta-feira, 5 de Janeiro de 2001
A igreja de Lisboa celebrou ontem o Jubileu dos governantes, parlamentares e políticos. Apesar de algumas presenças surpreendentes, foram poucos os políticos que se deslocaram a São Vicente de Fora para ouvir D. José Policarpo a pedir que sejam "profetas de um mundo novo".
Houve presenças óbvias, como a de António Guterres ou Mota Amaral, outras menos óbvias, mas algumas foram mesmo surpreendentes. O Jubileu dos governantes, parlamentares e autarcas reuniu ontem, na Igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa, pouco mais de meia centena de políticos, numa cerimónia que juntou a música, a palavra das Escrituras e uma mensagem do patriarca, D. José Policarpo.
Poucos antes da hora marcada para o início, 18h30, o único político presente em São Vicente até não era católico, nem mesmo cristão. Era Narana Coissoró, deputado do CDS-PP e vice-presidente da Assembleia da República, que sempre se tem afirmado como hindu. Mas logo chegaria o muito católico João Bosco Mota Amaral, também vice-presidente da AR. Leonor Coutinho, secretária de Estado da Habitação, subia as escadas, enquanto chegavam Isaltino Morais, presidente da Câmara de Oeiras, e Álvaro Barreto, ex-ministro e actual deputado do PSD.
Ainda mal estes políticos tinham entrado, surgiu, no Largo de São Vicente, a primeira surpresa. Nada mais nada menos do que Edite Estrela, dirigente do PS e presidente da Câmara de Sintra, que nos últimos dias conseguiu agitar a campanha para as eleições presidenciais, por ter divulgado como mensagem pública uma conversa privada e informal de D. José Policarpo.
Num jantar da campanha de Jorge Sampaio, em Queluz, no dia de Ano Novo, Edite Estrela disse que o patriarca de Lisboa, com quem tinha estado nesse mesmo dia na inauguração de uma igreja no Magoito, a tinha incumbido de transmitir ao candidato socialista uma mensagem - que não se cansasse muito, pois já tinha a eleição ganha. O Patriarcado apressou-se a desmentir que tivesse enviado qualquer mensagem de apoio a Sampaio e a criticar a divulgação e utilização de uma conversa privada. Edite desculpou-se dizendo que se tinha empolgado e esquecido a presença de jornalistas no jantar. E ontem parece ter feito questão de aparecer para ouvir a mensagem pública de D. José para os políticos.
Mas se a presença da autarca de Sintra não era esperada, ainda menos o seria a entrada de Octávio Teixeira, o líder da bancada comunista no parlamento, e António Filipe, também deputado do PCP e mandatário nacional da campanha de António Abreu. Sorridente perante a surpresa dos jornalistas, o líder da bancada comunista no parlamento disse que estava ali por "deferência pelo convite do patriarca".
Começou, então, a entrada das presenças mais óbvias. Pelo Governo, António Guterres, Guilherme d'Oliveira Martins; pelo PSD, Carlos Encarnação, Manuela Ferreira Leite, Teresa Patrício Gouveia, Henrique Freitas e, um bocadinho atrasado, Durão Barroso; pelo CDS-PP, João Rebelo e Nuno Melo; pelo PS, Celeste Correia, Maria de Belém e Barroso Moura; pelos independentes, Maria do Rosário Carneiro.
Contudo, as surpresas ainda não tinham terminado. Pouco passava das 18h30 quando entrou na igreja de São Vicente Pina Moura, ministro das Finanças, que já foi conhecido por "cardeal", em melhores tempos da sua influência junto de Guterres, mas de quem se desconhece qualquer frequência a cerimónias religiosas. Pelos vistos, o ex-cardeal também achou que o futuro cardeal podia ter algo a ensinar.
Na primeira fila, Guterres conversava com Mota Amaral. Os políticos iam entrando e sentando-se, sem que ninguém cumprimentasse alguém. Nem Durão foi falar a Guterres, nem Pina Moura ao primeiro-ministro. Hirtos, os políticos pareciam desconfortáveis, espalhados pelos bancos da frente da enorme e bonita igreja, sede do Patriarcado de Lisboa.
Só Basílio Horta quebrou algum do gelo. Primeiro cumprimentou Pina Moura e até se sentou no banco atrás do ministro, mas depois viu os outros deputados do seu partido e foi sentar-se entre eles, à frente do presidente e dos deputados do PSD. Desejou "bom ano" a Durão Barroso e tratou de perguntar-lhe pelas férias de Natal passadas em Moscovo, iniciando uma conversa sobre as virtudes e defeitos dos hotéis da capital russa.
Às 18h45 começou, finalmente, a cerimónia que, como disse o patriarca de Lisboa, se pretendia que fosse "simples e bela", mas que acabou por ser bastante fria. D. José Policarpo entrou e sentou-se, sem dizer uma palavra. João Vaz, no órgão, começou a tocar, o Coro Polyphonia-Schola Cantorum cantou. Nem um aplauso, nem um sorriso. Caras fechadas ouviram os actores Lourdes Norberto e João Ávila lerem dois dos mais belos textos da Bíblia - o capítulo 11 do Livro de Isaías, que anuncia o dia em que "o lobo viverá com o cordeiro" e "a criança de leite brincará junto ao ninho da víbora"; e o do Sermão da Montanha, no Evangelho segundo São Marcos, também conhecido por "sermão das bem-aventuranças".
Foi, precisamente, neste último que D. José se inspirou para, na sua curta mensagem, traçar o perfil dos "profetas de um mundo novo": "A novidade está no seu coração, que rejeita a violência como solução, é pobre porque desprendido, vencendo todas as tentações de egoísmo, busca do próprio interesse ou de corrupção."
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Edite Estrela, Pina Moura e Octávio Teixeira foram ouvir D. José Policarpo
Um Frio Jubileu, com Presenças Surpreendentes
Por EUNICE LOURENÇO
Sexta-feira, 5 de Janeiro de 2001
A igreja de Lisboa celebrou ontem o Jubileu dos governantes, parlamentares e políticos. Apesar de algumas presenças surpreendentes, foram poucos os políticos que se deslocaram a São Vicente de Fora para ouvir D. José Policarpo a pedir que sejam "profetas de um mundo novo".
Houve presenças óbvias, como a de António Guterres ou Mota Amaral, outras menos óbvias, mas algumas foram mesmo surpreendentes. O Jubileu dos governantes, parlamentares e autarcas reuniu ontem, na Igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa, pouco mais de meia centena de políticos, numa cerimónia que juntou a música, a palavra das Escrituras e uma mensagem do patriarca, D. José Policarpo.
Poucos antes da hora marcada para o início, 18h30, o único político presente em São Vicente até não era católico, nem mesmo cristão. Era Narana Coissoró, deputado do CDS-PP e vice-presidente da Assembleia da República, que sempre se tem afirmado como hindu. Mas logo chegaria o muito católico João Bosco Mota Amaral, também vice-presidente da AR. Leonor Coutinho, secretária de Estado da Habitação, subia as escadas, enquanto chegavam Isaltino Morais, presidente da Câmara de Oeiras, e Álvaro Barreto, ex-ministro e actual deputado do PSD.
Ainda mal estes políticos tinham entrado, surgiu, no Largo de São Vicente, a primeira surpresa. Nada mais nada menos do que Edite Estrela, dirigente do PS e presidente da Câmara de Sintra, que nos últimos dias conseguiu agitar a campanha para as eleições presidenciais, por ter divulgado como mensagem pública uma conversa privada e informal de D. José Policarpo.
Num jantar da campanha de Jorge Sampaio, em Queluz, no dia de Ano Novo, Edite Estrela disse que o patriarca de Lisboa, com quem tinha estado nesse mesmo dia na inauguração de uma igreja no Magoito, a tinha incumbido de transmitir ao candidato socialista uma mensagem - que não se cansasse muito, pois já tinha a eleição ganha. O Patriarcado apressou-se a desmentir que tivesse enviado qualquer mensagem de apoio a Sampaio e a criticar a divulgação e utilização de uma conversa privada. Edite desculpou-se dizendo que se tinha empolgado e esquecido a presença de jornalistas no jantar. E ontem parece ter feito questão de aparecer para ouvir a mensagem pública de D. José para os políticos.
Mas se a presença da autarca de Sintra não era esperada, ainda menos o seria a entrada de Octávio Teixeira, o líder da bancada comunista no parlamento, e António Filipe, também deputado do PCP e mandatário nacional da campanha de António Abreu. Sorridente perante a surpresa dos jornalistas, o líder da bancada comunista no parlamento disse que estava ali por "deferência pelo convite do patriarca".
Começou, então, a entrada das presenças mais óbvias. Pelo Governo, António Guterres, Guilherme d'Oliveira Martins; pelo PSD, Carlos Encarnação, Manuela Ferreira Leite, Teresa Patrício Gouveia, Henrique Freitas e, um bocadinho atrasado, Durão Barroso; pelo CDS-PP, João Rebelo e Nuno Melo; pelo PS, Celeste Correia, Maria de Belém e Barroso Moura; pelos independentes, Maria do Rosário Carneiro.
Contudo, as surpresas ainda não tinham terminado. Pouco passava das 18h30 quando entrou na igreja de São Vicente Pina Moura, ministro das Finanças, que já foi conhecido por "cardeal", em melhores tempos da sua influência junto de Guterres, mas de quem se desconhece qualquer frequência a cerimónias religiosas. Pelos vistos, o ex-cardeal também achou que o futuro cardeal podia ter algo a ensinar.
Na primeira fila, Guterres conversava com Mota Amaral. Os políticos iam entrando e sentando-se, sem que ninguém cumprimentasse alguém. Nem Durão foi falar a Guterres, nem Pina Moura ao primeiro-ministro. Hirtos, os políticos pareciam desconfortáveis, espalhados pelos bancos da frente da enorme e bonita igreja, sede do Patriarcado de Lisboa.
Só Basílio Horta quebrou algum do gelo. Primeiro cumprimentou Pina Moura e até se sentou no banco atrás do ministro, mas depois viu os outros deputados do seu partido e foi sentar-se entre eles, à frente do presidente e dos deputados do PSD. Desejou "bom ano" a Durão Barroso e tratou de perguntar-lhe pelas férias de Natal passadas em Moscovo, iniciando uma conversa sobre as virtudes e defeitos dos hotéis da capital russa.
Às 18h45 começou, finalmente, a cerimónia que, como disse o patriarca de Lisboa, se pretendia que fosse "simples e bela", mas que acabou por ser bastante fria. D. José Policarpo entrou e sentou-se, sem dizer uma palavra. João Vaz, no órgão, começou a tocar, o Coro Polyphonia-Schola Cantorum cantou. Nem um aplauso, nem um sorriso. Caras fechadas ouviram os actores Lourdes Norberto e João Ávila lerem dois dos mais belos textos da Bíblia - o capítulo 11 do Livro de Isaías, que anuncia o dia em que "o lobo viverá com o cordeiro" e "a criança de leite brincará junto ao ninho da víbora"; e o do Sermão da Montanha, no Evangelho segundo São Marcos, também conhecido por "sermão das bem-aventuranças".
Foi, precisamente, neste último que D. José se inspirou para, na sua curta mensagem, traçar o perfil dos "profetas de um mundo novo": "A novidade está no seu coração, que rejeita a violência como solução, é pobre porque desprendido, vencendo todas as tentações de egoísmo, busca do próprio interesse ou de corrupção."