Raposo, Coelho, Seguro e a Oficina de Eventos
Terça-feira, 8 de Janeiro de 2002 As ligações da Gitap com os homens do aparelho guterrista estiveram na origem da preparação de várias campanhas locais O actual presidente da Câmara da Amadora, Joaquim Raposo, e o deputado socialista Miguel Coelho, ambos com funções na coordenação da campanha autárquica socialista de 1993, desempenharam funções numa empresa de marketing político criada pelos donos da Gitap, que ofereceu o material de campanha a alguns dos candidatos do PS àquelas eleições. António José Seguro, actual ministro adjunto do primeiro-ministro, chegou a ser convidado para fazer parte daquela empresa, a Oficina de Eventos, Imagem e Comunicação Ldª, mas recusou a proposta por a considerar "incompatível" com o lugar que ocupava na coordenação da campanha socialista. Sediada nas instalações da Gitap, a Oficina de Eventos foi referida no julgamento do ex-presidente da Nazaré como tendo suportado as despesas relativas à sua campanha eleitoral de 1993. Embora esse facto não tenha sido considerado ilícito à luz da legislação então em vigor, os autos deixaram à vista o papel daquela empresa como instrumento dos irmãos Geraldes Pinto, na promoção de numerosas candidaturas socialistas. Um dos sócios dos donos da Gitap na Oficina de Eventos, Pedro Rodrigues, chegou mesmo a declarar à Polícia Judiciária (ver texto sobre "o caso dos cem mil contos") que a empresa "ofereceu o material que realizou" a várias candidaturas, "como estava previsto acontecer". Fundada poucos meses antes das autárquicas daquele ano, a empresa resultou da iniciativa de José e Álvaro Geraldes Pinto, que, para o efeito, se associaram a dois técnicos com experiência na área da comunicação. Numa primeira fase, esteve previsto o envolvimento de António José Seguro, que chegou a participar em diversas reuniões na sede da Gitap, mas este acabou por se afastar antes da campanha. Os clientes que se "portaram mal" Mais perto das eleições começaram a trabalhar com a empresa Miguel Coelho e Joaquim Raposo. O primeiro tinha deixado há algum tempo o seu lugar de funcionário do Partido Socialista - segundo disse ao PÚBLICO -, enquanto o segundo se mantinha como funcionário e era membro da comissão técnica eleitoral do PS, com a responsabilidade da coordenação da logística de toda a campanha. Ao que ambos declararam ao PÚBLICO, a sua participação nos trabalhos da Oficina de Eventos, a título de conselheiros políticos para as candidaturas dos clientes socialistas da empresa, foi feita na qualidade de profissionais liberais e sem que isso tivesse a ver com as respectivas responsabilidades partidárias. Quanto ao pagamento dos serviços prestados, tanto um como o outro disseram que acabaram por não receber nada, uma vez que a empresa entrou em dificuldades. "Houve clientes, até socialistas, que se portaram mal e não honraram os seus compromissos de pagamento, o que me levou a prescindir das minhas remunerações", afirmou Miguel Coelho. "Acabei por não receber porque aquilo correu mal e houve muita gente que não pagou", disse Raposo. Acerca dos apoios fornecidos pela Oficina de Eventos e pela Gitap a algumas candidaturas socialistas e ao próprio partido, Miguel Coelho afirmou: "Não penso que os tenha havido e se houvesse eu não tinha que saber." No que respeita à ligação de Joaquim Raposo à Oficina de Eventos, o processo de Monterroso evidencia, porém, um envolvimento que ultrapassa largamente o papel de consultor. Para lá das declarações de um industrial de tipografia, que afirmou ao tribunal ter sido Raposo a contactá-lo para executar diversos trabalhos da campanha socialista para a Oficina de Eventos - por via dos quais esta empresa, entretanto desactivada, ainda lhe deve dois mil contos -, o actual autarca da Amadora é apontado pelo próprio Luís Monterroso como sendo quem recebeu o dinheiro correspondente aos trabalhos que a sua candidatura lhe encomendou. Biscates e incompatibilidades O despacho de pronúncia sustentava que as despesas da campanha socialista da Nazaré foram suportadas pela Oficina de Eventos; Monterroso disse sempre que pagou tudo a Joaquim Raposo, e este, em sucessivas declarações à Judiciária e há semanas atrás ao PÚBLICO, garantiu que nunca recebeu fosse o que fosse do seu companheiro Monterroso. Dois anos depois da campanha, um dos irmãos Geraldes Pinto afirmou a Luís Patrão, então director-geral do PS, que tinha que suportar cerca de cem mil contos das autárquicas de 1993. Tanto Joaquim Raposo como Miguel Coelho disseram ao PÚBLICO que foram convidados para a Oficina de Eventos pelos irmãos Geraldes Pinto, tendo Raposo acrescentado que os dois empresários eram, tal como ele, militantes socialistas da secção de Carnide. O autarca da Amadora declarou também que não considerava incompatível a sua "colaboração" na Oficina de Eventos com o seu lugar na comissão técnica eleitoral socialista. "Não havia qualquer impedimento legal a que eu tivesse um biscate cá fora", explicou. Já António José Seguro tem uma opinião oposta e afirmou ao PÚBLICO que, apesar de ter estado para ser sócio da Oficina de Eventos - "por razões que não têm nada a ver com a política nem com o PS" -, não aceitou ficar na empresa, entre outras coisa, "por ter sido convidado para a comissão técnica eleitoral" das autárquicas. "Entendi que deve haver uma fronteira entre a actividade pública e privada e que não devia ter qualquer actividade nessa área, porque acho que é incompatível", afirmou o ministro. A propósito das relações de Joaquim Raposo e Miguel Coelho com a Oficina de Eventos, o PÚBLICO perguntou também a Luís Patrão se a direcção do partido, em 1993, não questionava a contratação de dirigentes do partido como consultores eleitorais das concelhias, no quadro de uma empresa que liderava o mercado de estudos e projectos das câmaras socialistas. O ex-director-geral do partido respondeu assim: "Não. Isso não era questionado. As iniciativas empresariais são de cada um." J.A.C. OUTROS TÍTULOS EM DESTAQUE Empresa fornecedora de câmaras socialistas ajudava PS a não pagar IVA
O caso dos cem mil contos
Raposo, Coelho, Seguro e a Oficina de Eventos
Contas de hotel e visitas a Bruxelas pagas pela Gitap
Sócrates admitiu influenciar decisão camarária para favorecer empresa preterida num concurso
Transcrição do resumo da conversa escutada pela Polícia Judiciária
Um empenho sem resultados directos
Ministro e Gitap ameaçam com tribunal
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Raposo, Coelho, Seguro e a Oficina de Eventos
Terça-feira, 8 de Janeiro de 2002 As ligações da Gitap com os homens do aparelho guterrista estiveram na origem da preparação de várias campanhas locais O actual presidente da Câmara da Amadora, Joaquim Raposo, e o deputado socialista Miguel Coelho, ambos com funções na coordenação da campanha autárquica socialista de 1993, desempenharam funções numa empresa de marketing político criada pelos donos da Gitap, que ofereceu o material de campanha a alguns dos candidatos do PS àquelas eleições. António José Seguro, actual ministro adjunto do primeiro-ministro, chegou a ser convidado para fazer parte daquela empresa, a Oficina de Eventos, Imagem e Comunicação Ldª, mas recusou a proposta por a considerar "incompatível" com o lugar que ocupava na coordenação da campanha socialista. Sediada nas instalações da Gitap, a Oficina de Eventos foi referida no julgamento do ex-presidente da Nazaré como tendo suportado as despesas relativas à sua campanha eleitoral de 1993. Embora esse facto não tenha sido considerado ilícito à luz da legislação então em vigor, os autos deixaram à vista o papel daquela empresa como instrumento dos irmãos Geraldes Pinto, na promoção de numerosas candidaturas socialistas. Um dos sócios dos donos da Gitap na Oficina de Eventos, Pedro Rodrigues, chegou mesmo a declarar à Polícia Judiciária (ver texto sobre "o caso dos cem mil contos") que a empresa "ofereceu o material que realizou" a várias candidaturas, "como estava previsto acontecer". Fundada poucos meses antes das autárquicas daquele ano, a empresa resultou da iniciativa de José e Álvaro Geraldes Pinto, que, para o efeito, se associaram a dois técnicos com experiência na área da comunicação. Numa primeira fase, esteve previsto o envolvimento de António José Seguro, que chegou a participar em diversas reuniões na sede da Gitap, mas este acabou por se afastar antes da campanha. Os clientes que se "portaram mal" Mais perto das eleições começaram a trabalhar com a empresa Miguel Coelho e Joaquim Raposo. O primeiro tinha deixado há algum tempo o seu lugar de funcionário do Partido Socialista - segundo disse ao PÚBLICO -, enquanto o segundo se mantinha como funcionário e era membro da comissão técnica eleitoral do PS, com a responsabilidade da coordenação da logística de toda a campanha. Ao que ambos declararam ao PÚBLICO, a sua participação nos trabalhos da Oficina de Eventos, a título de conselheiros políticos para as candidaturas dos clientes socialistas da empresa, foi feita na qualidade de profissionais liberais e sem que isso tivesse a ver com as respectivas responsabilidades partidárias. Quanto ao pagamento dos serviços prestados, tanto um como o outro disseram que acabaram por não receber nada, uma vez que a empresa entrou em dificuldades. "Houve clientes, até socialistas, que se portaram mal e não honraram os seus compromissos de pagamento, o que me levou a prescindir das minhas remunerações", afirmou Miguel Coelho. "Acabei por não receber porque aquilo correu mal e houve muita gente que não pagou", disse Raposo. Acerca dos apoios fornecidos pela Oficina de Eventos e pela Gitap a algumas candidaturas socialistas e ao próprio partido, Miguel Coelho afirmou: "Não penso que os tenha havido e se houvesse eu não tinha que saber." No que respeita à ligação de Joaquim Raposo à Oficina de Eventos, o processo de Monterroso evidencia, porém, um envolvimento que ultrapassa largamente o papel de consultor. Para lá das declarações de um industrial de tipografia, que afirmou ao tribunal ter sido Raposo a contactá-lo para executar diversos trabalhos da campanha socialista para a Oficina de Eventos - por via dos quais esta empresa, entretanto desactivada, ainda lhe deve dois mil contos -, o actual autarca da Amadora é apontado pelo próprio Luís Monterroso como sendo quem recebeu o dinheiro correspondente aos trabalhos que a sua candidatura lhe encomendou. Biscates e incompatibilidades O despacho de pronúncia sustentava que as despesas da campanha socialista da Nazaré foram suportadas pela Oficina de Eventos; Monterroso disse sempre que pagou tudo a Joaquim Raposo, e este, em sucessivas declarações à Judiciária e há semanas atrás ao PÚBLICO, garantiu que nunca recebeu fosse o que fosse do seu companheiro Monterroso. Dois anos depois da campanha, um dos irmãos Geraldes Pinto afirmou a Luís Patrão, então director-geral do PS, que tinha que suportar cerca de cem mil contos das autárquicas de 1993. Tanto Joaquim Raposo como Miguel Coelho disseram ao PÚBLICO que foram convidados para a Oficina de Eventos pelos irmãos Geraldes Pinto, tendo Raposo acrescentado que os dois empresários eram, tal como ele, militantes socialistas da secção de Carnide. O autarca da Amadora declarou também que não considerava incompatível a sua "colaboração" na Oficina de Eventos com o seu lugar na comissão técnica eleitoral socialista. "Não havia qualquer impedimento legal a que eu tivesse um biscate cá fora", explicou. Já António José Seguro tem uma opinião oposta e afirmou ao PÚBLICO que, apesar de ter estado para ser sócio da Oficina de Eventos - "por razões que não têm nada a ver com a política nem com o PS" -, não aceitou ficar na empresa, entre outras coisa, "por ter sido convidado para a comissão técnica eleitoral" das autárquicas. "Entendi que deve haver uma fronteira entre a actividade pública e privada e que não devia ter qualquer actividade nessa área, porque acho que é incompatível", afirmou o ministro. A propósito das relações de Joaquim Raposo e Miguel Coelho com a Oficina de Eventos, o PÚBLICO perguntou também a Luís Patrão se a direcção do partido, em 1993, não questionava a contratação de dirigentes do partido como consultores eleitorais das concelhias, no quadro de uma empresa que liderava o mercado de estudos e projectos das câmaras socialistas. O ex-director-geral do partido respondeu assim: "Não. Isso não era questionado. As iniciativas empresariais são de cada um." J.A.C. OUTROS TÍTULOS EM DESTAQUE Empresa fornecedora de câmaras socialistas ajudava PS a não pagar IVA
O caso dos cem mil contos
Raposo, Coelho, Seguro e a Oficina de Eventos
Contas de hotel e visitas a Bruxelas pagas pela Gitap
Sócrates admitiu influenciar decisão camarária para favorecer empresa preterida num concurso
Transcrição do resumo da conversa escutada pela Polícia Judiciária
Um empenho sem resultados directos
Ministro e Gitap ameaçam com tribunal