Os Portugueses Que Foram Esquecidos em Agadir
Domingo, 24 de Junho de 2001 Há duas semanas que o navio "Santa Mafalda" está ancorado em Marrocos. Apanhados no meio de uma guerra entre o armador e a Secretaria de Estado das Pescas, 33 tripulantes desesperam em Agadir, acusando as autoridades portuguesas de os terem abandonado. Reportagem de Rui Baptista (texto) e Nelson Garrido (foto) No porto de Agadir é fácil distinguir os marroquinos dos portugueses. Apesar do nevoeiro que avançou do mar sobre a cidade branca, os portugueses destacam-se pela roupa e pelos modos no magote de gente que enche o cais onde está ancorado o navio "Santa Mafalda". Enquanto os locais usam casacos de lã e "caftans" (túnicas longas de algodão) para se protegerem da aragem branda que sopra do Atlântico, os tripulantes da embarcação portuguesa passeiam-se em calções e manga curta, fumando cigarros nervosos. "Aqui só há três coisas para fazer: comer, dormir e ir à praia", resume o contramestre José Fernando, atirando para as águas sujas a ponta de um cigarro chupado até ao filtro. Comer, dormir e ir à praia parece um bom programa para quem está em Agadir, a cidade a quem os marroquinos chamam a "Miami do Magrebe". Mas os 33 tripulantes do "Santa Mafalda" (30 portugueses e três peruanos) só pensam em sair dali. Estão ancorados há mais de duas semanas no porto marroquino, por causa de um braço-de-ferro entre a empresa proprietária do navio e a Secretaria de Estado de Pescas de Portugal. Andaram seis meses a pescar no mar do Norte, sob condições adversas, e, quando pensavam que iam finalmente para casa, foi-lhes comunicado que o navio ia rumar a Agadir, para uma vistoria técnica. A escala em terras marroquinas era para durar dois dias, mas, por razões que ninguém se deu ao trabalho de lhes explicar (ver perguntas e respostas), acabou por se prolongar. E não há fim à vista. "Estamos aqui completamente abandonados por todos. Aqui não há consulado português, nem embaixada. Nada. A empresa também não nos diz o que se está a passar e não sabemos quando vamos voltar para casa", resume José Fernando, enquanto o mestre Manuel Carqueja e o operador de guincho David Costa acenam a cabeça, em sinal de concordância. Mordaz, o contramestre deixa um recado às autoridades portuguesas, que nunca tentaram saber em que condições estão os tripulantes do "Santa Mafalda": "Se eu fosse espanhol, já estava fora daqui há muito tempo". "Tirem-nos daqui!" Os problemas agravam-se dia após dia. Por razões alfandegárias, as autoridades marroquinas selaram partes do navio, impedindo o acesso a provisões. O tabaco e as bebidas foram também racionadas e o dinheiro escasseia. O grosso dos salários dos tripulantes vem das percentagens do pescado capturado e só é pago no final da safra. O contramestre, por exemplo, tem que se aguentar com 37 contos por mês, uma verba que quase não chega para os cigarrros que fuma compulsivamente. O capitão Paulo Peliz, um jovem de 29 anos, já teve que comprar mantimentos em Agadir e receia não ter dinheiro para mais víveres. O moral da tripulação baixou ainda mais quando um dos marinheiros teve que ser internado de urgência, em Agadir, com uma perfuração dos intestinos. O homem foi operado e já seguiu para Portugal. Até o próprio capitão não esconde algum desencanto com a falta de informações por parte do armador. Peliz esteve esta semana dois dias em Portugal, a acompanhar a gravidez da mulher, que está prestes a dar à luz, e soube pelos jornais o que realmente se estava a passar com o "Santa Mafalda". Talvez por isso tem feito o que pode para amenizar a angústia dos seus tripulantes, e ontem autorizou mesmo a celebração a bordo de uma sardinhada para assinalar o São João. "Vai ser a festa mais triste da minha vida", confessou ao PÚBLICO um dos tripulantes, natural da Murtosa, que há seis meses não vê a mulher e os filhos. Para Taveira da Mota, até ontem gerente da empresa, a responsabilidade pelo que se está a passar pertence por inteiro ao Governo português. O empresário critica duramente o secretário de Estado das Pescas, José Apolinário, acusando-o de perseguição. "O 'Santa Mafalda' está a ser constantemente inspeccionado, como se os seus donos fossem criminosos", refere, acusando Apolinário de não saber proteger os interesses nacionais. Taveira garante que a empresa está de boa fé neste processo, que, na sua opinião, é "absolutamente transparente". E não está nada satisfeito com a posição da Adapi (Associação dos Armadores de Pesca Industrial), que esta semana se demarcou do processo do "Santa Mafalda", recusando tomar partido na disputa. "A Adapi só representa 40 por cento dos armadores", referiu Taveira, durante uma visita-relâmpago de jornalistas portugueses ao navio. Da boca dos tripulantes, Taveira só ouviu um apelo: "Tirem-nos daqui". OUTROS TÍTULOS EM SOCIEDADE As grandes "calinadas" dos polícias e ladrões
Coluna de abertura
Liberdade perpetuamente condicionada para assassinos do pequeno James
"Beauvoir não compreendeu a importância de ser mãe"
"A lei da paridade deixará de ser necessária"
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Domingo, 24 de Junho de 2001 Há duas semanas que o navio "Santa Mafalda" está ancorado em Marrocos. Apanhados no meio de uma guerra entre o armador e a Secretaria de Estado das Pescas, 33 tripulantes desesperam em Agadir, acusando as autoridades portuguesas de os terem abandonado. Reportagem de Rui Baptista (texto) e Nelson Garrido (foto) No porto de Agadir é fácil distinguir os marroquinos dos portugueses. Apesar do nevoeiro que avançou do mar sobre a cidade branca, os portugueses destacam-se pela roupa e pelos modos no magote de gente que enche o cais onde está ancorado o navio "Santa Mafalda". Enquanto os locais usam casacos de lã e "caftans" (túnicas longas de algodão) para se protegerem da aragem branda que sopra do Atlântico, os tripulantes da embarcação portuguesa passeiam-se em calções e manga curta, fumando cigarros nervosos. "Aqui só há três coisas para fazer: comer, dormir e ir à praia", resume o contramestre José Fernando, atirando para as águas sujas a ponta de um cigarro chupado até ao filtro. Comer, dormir e ir à praia parece um bom programa para quem está em Agadir, a cidade a quem os marroquinos chamam a "Miami do Magrebe". Mas os 33 tripulantes do "Santa Mafalda" (30 portugueses e três peruanos) só pensam em sair dali. Estão ancorados há mais de duas semanas no porto marroquino, por causa de um braço-de-ferro entre a empresa proprietária do navio e a Secretaria de Estado de Pescas de Portugal. Andaram seis meses a pescar no mar do Norte, sob condições adversas, e, quando pensavam que iam finalmente para casa, foi-lhes comunicado que o navio ia rumar a Agadir, para uma vistoria técnica. A escala em terras marroquinas era para durar dois dias, mas, por razões que ninguém se deu ao trabalho de lhes explicar (ver perguntas e respostas), acabou por se prolongar. E não há fim à vista. "Estamos aqui completamente abandonados por todos. Aqui não há consulado português, nem embaixada. Nada. A empresa também não nos diz o que se está a passar e não sabemos quando vamos voltar para casa", resume José Fernando, enquanto o mestre Manuel Carqueja e o operador de guincho David Costa acenam a cabeça, em sinal de concordância. Mordaz, o contramestre deixa um recado às autoridades portuguesas, que nunca tentaram saber em que condições estão os tripulantes do "Santa Mafalda": "Se eu fosse espanhol, já estava fora daqui há muito tempo". "Tirem-nos daqui!" Os problemas agravam-se dia após dia. Por razões alfandegárias, as autoridades marroquinas selaram partes do navio, impedindo o acesso a provisões. O tabaco e as bebidas foram também racionadas e o dinheiro escasseia. O grosso dos salários dos tripulantes vem das percentagens do pescado capturado e só é pago no final da safra. O contramestre, por exemplo, tem que se aguentar com 37 contos por mês, uma verba que quase não chega para os cigarrros que fuma compulsivamente. O capitão Paulo Peliz, um jovem de 29 anos, já teve que comprar mantimentos em Agadir e receia não ter dinheiro para mais víveres. O moral da tripulação baixou ainda mais quando um dos marinheiros teve que ser internado de urgência, em Agadir, com uma perfuração dos intestinos. O homem foi operado e já seguiu para Portugal. Até o próprio capitão não esconde algum desencanto com a falta de informações por parte do armador. Peliz esteve esta semana dois dias em Portugal, a acompanhar a gravidez da mulher, que está prestes a dar à luz, e soube pelos jornais o que realmente se estava a passar com o "Santa Mafalda". Talvez por isso tem feito o que pode para amenizar a angústia dos seus tripulantes, e ontem autorizou mesmo a celebração a bordo de uma sardinhada para assinalar o São João. "Vai ser a festa mais triste da minha vida", confessou ao PÚBLICO um dos tripulantes, natural da Murtosa, que há seis meses não vê a mulher e os filhos. Para Taveira da Mota, até ontem gerente da empresa, a responsabilidade pelo que se está a passar pertence por inteiro ao Governo português. O empresário critica duramente o secretário de Estado das Pescas, José Apolinário, acusando-o de perseguição. "O 'Santa Mafalda' está a ser constantemente inspeccionado, como se os seus donos fossem criminosos", refere, acusando Apolinário de não saber proteger os interesses nacionais. Taveira garante que a empresa está de boa fé neste processo, que, na sua opinião, é "absolutamente transparente". E não está nada satisfeito com a posição da Adapi (Associação dos Armadores de Pesca Industrial), que esta semana se demarcou do processo do "Santa Mafalda", recusando tomar partido na disputa. "A Adapi só representa 40 por cento dos armadores", referiu Taveira, durante uma visita-relâmpago de jornalistas portugueses ao navio. Da boca dos tripulantes, Taveira só ouviu um apelo: "Tirem-nos daqui". OUTROS TÍTULOS EM SOCIEDADE As grandes "calinadas" dos polícias e ladrões
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