Novos Poderes: O Risco de Berlusconização
Por JOÃO PEDRO HENRIQUES
Domingo, 6 de Maio de 2001
A organização deu lugar na mesa a dois jornalistas: Carlos Magno e Vicente Jorge Silva. O outro convidado foi o advogado João Nabais. Este - cada vez mais em trânsito do BE para o PS - abriu as hostilidades contra o "poder mediático". Criticou a relação entre o jornalismo e os juízes. Falou nos problemas do costume: do "julgamento pelos media"; de se estar a correr o risco de "transformar a democracia representativa em democracia de opinião"; do "perigo real de os media se tornarem totalitários"; do facto de nem os jornalistas nem os juízes deterem um poder "emergente de sufrágio"; da "aliança objectiva" entre os dois grupos; de os políticos terem transformado a sua acção de "pró-activa" em "reactiva" e de se sentirem agora "angustiados face aos media e inseguros perante o juiz". Por outras palavras: "Aos jornalistas sorri a impunidade e aos juízes sorri a irresponsabilidade".
Após a intervenção de Nabais a sessão, cada vez mais concorrida, mudou de sala. Falou então Vicente Jorge Silva e, pela primeira vez, se ouviu algo incomodativo para o poder socialista. O tema era simples: corre Portugal o risco da "berlusconização" através da Portugal Telecom (PT)? O problema, disse Vicente Jorge Silva, é que a Itália se prepara para eleger Berlusconi como primeiro-ministro. E este político ascendeu na democracia italiana pelo poder mediático. Depois de afirmar que em Portugal a PT está a criar um poder semelhante, Vicente rematou: "Penso que a PT criou uma estrutura que pode ser perigosa."
O problema dizia respeito ao outro jornalista na mesa, Carlos Magno, assalariado indirecto da PT (via "Diário de Notícias", via TSF, via presidência da chamada TV Porto, associada da TV Cabo). Por isso mesmo, Magno desvalorizou as denúncias de Vicente Jorge Silva. No seu jeito "entertainer", citou uma "amiga brasileira": "Quem é capa [da revista brasileira] Manchete nunca chega ao Paris-Match." "Não queria berlusconizar esta sessão. Não estamos em Itália, estamos em Portugal."
Depois tentou mudar as agulhas do debate. Citou Carrilho: "Corremos o risco de chegar ao século XXI com partidos do século XIX." E revelou à audiência algo que se calhar pensava que esta ignorava: "O espaço mediático é um espaço de luta pelo poder político." O esforço para conquistar a atenção dos participantes chegou ao ponto de desafiar a audiência para que alguém se voluntariasse para ser ministro da Saúde ou das Finanças - mas ninguém levantou o braço.
O tema lançado por Vicente Jorge Silva pegou e os outros membros da mesa comentaram-no. João Nabais sugeriu a criação de uma entidade reguladora dos problemas da concorrência e da concentração monopolista. Vitorino explicou, pelo seu lado, que a Comissão Europeia não tem qualquer poder para vigiar esse fenómeno quando ele ocorre no campo dos media; e acrescentou que há um risco quando se reforçam os poderes de entidades reguladoras: o destas se transformarem em "contra-poderes dentro do Estado".
Magno, quase no final, voltaria a insistir de que a "berlusconização" não é uma ameaça para Portugal, com argumentos de lógica imbatível, como por exemplo: "Estamos em Portugal, as coisas são o que são". A defesa da sua camisola incluiu referências a Miguel de Unamuno, Maquiavel, novamente a amiga brasileira, novamente Carrilho e Kafka. Em apoteose argumentativa, encerrou falando dos filmes de James Bond (versão Sean Connery).
A audiência devotou-lhe o triplo dos sorrisos do que dedicou a Henrique Neto quando este disse: "Uma maneira de não discutir os velhos poderes é inventar novos poderes. Os poderes são os poderes."
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Novos Poderes: O Risco de Berlusconização
Por JOÃO PEDRO HENRIQUES
Domingo, 6 de Maio de 2001
A organização deu lugar na mesa a dois jornalistas: Carlos Magno e Vicente Jorge Silva. O outro convidado foi o advogado João Nabais. Este - cada vez mais em trânsito do BE para o PS - abriu as hostilidades contra o "poder mediático". Criticou a relação entre o jornalismo e os juízes. Falou nos problemas do costume: do "julgamento pelos media"; de se estar a correr o risco de "transformar a democracia representativa em democracia de opinião"; do "perigo real de os media se tornarem totalitários"; do facto de nem os jornalistas nem os juízes deterem um poder "emergente de sufrágio"; da "aliança objectiva" entre os dois grupos; de os políticos terem transformado a sua acção de "pró-activa" em "reactiva" e de se sentirem agora "angustiados face aos media e inseguros perante o juiz". Por outras palavras: "Aos jornalistas sorri a impunidade e aos juízes sorri a irresponsabilidade".
Após a intervenção de Nabais a sessão, cada vez mais concorrida, mudou de sala. Falou então Vicente Jorge Silva e, pela primeira vez, se ouviu algo incomodativo para o poder socialista. O tema era simples: corre Portugal o risco da "berlusconização" através da Portugal Telecom (PT)? O problema, disse Vicente Jorge Silva, é que a Itália se prepara para eleger Berlusconi como primeiro-ministro. E este político ascendeu na democracia italiana pelo poder mediático. Depois de afirmar que em Portugal a PT está a criar um poder semelhante, Vicente rematou: "Penso que a PT criou uma estrutura que pode ser perigosa."
O problema dizia respeito ao outro jornalista na mesa, Carlos Magno, assalariado indirecto da PT (via "Diário de Notícias", via TSF, via presidência da chamada TV Porto, associada da TV Cabo). Por isso mesmo, Magno desvalorizou as denúncias de Vicente Jorge Silva. No seu jeito "entertainer", citou uma "amiga brasileira": "Quem é capa [da revista brasileira] Manchete nunca chega ao Paris-Match." "Não queria berlusconizar esta sessão. Não estamos em Itália, estamos em Portugal."
Depois tentou mudar as agulhas do debate. Citou Carrilho: "Corremos o risco de chegar ao século XXI com partidos do século XIX." E revelou à audiência algo que se calhar pensava que esta ignorava: "O espaço mediático é um espaço de luta pelo poder político." O esforço para conquistar a atenção dos participantes chegou ao ponto de desafiar a audiência para que alguém se voluntariasse para ser ministro da Saúde ou das Finanças - mas ninguém levantou o braço.
O tema lançado por Vicente Jorge Silva pegou e os outros membros da mesa comentaram-no. João Nabais sugeriu a criação de uma entidade reguladora dos problemas da concorrência e da concentração monopolista. Vitorino explicou, pelo seu lado, que a Comissão Europeia não tem qualquer poder para vigiar esse fenómeno quando ele ocorre no campo dos media; e acrescentou que há um risco quando se reforçam os poderes de entidades reguladoras: o destas se transformarem em "contra-poderes dentro do Estado".
Magno, quase no final, voltaria a insistir de que a "berlusconização" não é uma ameaça para Portugal, com argumentos de lógica imbatível, como por exemplo: "Estamos em Portugal, as coisas são o que são". A defesa da sua camisola incluiu referências a Miguel de Unamuno, Maquiavel, novamente a amiga brasileira, novamente Carrilho e Kafka. Em apoteose argumentativa, encerrou falando dos filmes de James Bond (versão Sean Connery).
A audiência devotou-lhe o triplo dos sorrisos do que dedicou a Henrique Neto quando este disse: "Uma maneira de não discutir os velhos poderes é inventar novos poderes. Os poderes são os poderes."