Margarida Tengarrinha: É Necessária Uma Alteração de Mentalidades
Quinta-feira, 29 de Março de 2001
Membro do comité central do PCP entre 1974 e 1988. Foi uma das primeiras mulheres a integrar o órgão máximo de direcção comunista. Com ela subiram ao CC, Maria Alda Nogueira e Georgette Ferreira, antes dela tiveram assento na direcção comunista Carolina Loff e Cândida Ventura. Deputada à Assembleia Constituinte e à Assembleia República entre 1976 e 1987
A deficiente participação feminina nos órgãos de decisão não pode nem deve ser solucionada por imposição administrativa, o que remete a mulher para o nível da menoridade política.
A proposta de lei da paridade é apresentada pelo Governo como forma de atingir o objectivo "que ultrapassa a questão dos direitos das mulheres: aprofundar o nosso sistema democrático pela construção de uma democracia paritária". Isto é pura hipocrisia: o nosso sistema democrático não pode ser aprofundado quando direitos fundamentais das mulheres lhes são negados, com conhecimento e até anuência tácita do Governo, como acontece com o direito de salário igual para trabalho igual; quando são as mulheres as mais atingidas pela precariedade do trabalho e pelo desemprego de longa duração; quando o direito à maternidade e à sua função social são frequentemente postos em causa e motivo de grandes discriminações.
A tal "democracia paritária" limitada à participação da mulher na vida política por imposição de percentagens nas listas eleitorais não é mais do que uma farsa, pois o défice de presença feminina nos centros de direcção da vida política está indissociavelmente ligado às fortes discriminações económicas, sociais e culturais sofridas pela mulher.
Para que as mulheres participem mais activamente na vida política têm que ser criadas condições sociais e estruturas de apoio (à infância, à terceira idade, etc.) que as libertem de tarefas familiares e domésticas que tanto pesam e criam dificuldades a uma maior participação das mulheres na vida política, sobretudo às mulheres trabalhadoras de menores rendimentos.
E também é necessária e fundamental uma alteração de mentalidades.
Como militante do Partido Comunista há 49 anos, posso afirmar que a alteração de mentalidades, mesmo no meu partido, tem sido lenta e para que uma mulher ascenda a cargos de responsabilidade, tem que demonstrar em geral maiores capacidades que os camaradas masculinos. Mas a verdade é que é o PCP que tem mais elevadas percentagens de mulheres, quer na Assembleia da República e no Parlamento Europeu, quer nos quadros de direcção política nacionais e regionais.
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Margarida Tengarrinha: É Necessária Uma Alteração de Mentalidades
Quinta-feira, 29 de Março de 2001
Membro do comité central do PCP entre 1974 e 1988. Foi uma das primeiras mulheres a integrar o órgão máximo de direcção comunista. Com ela subiram ao CC, Maria Alda Nogueira e Georgette Ferreira, antes dela tiveram assento na direcção comunista Carolina Loff e Cândida Ventura. Deputada à Assembleia Constituinte e à Assembleia República entre 1976 e 1987
A deficiente participação feminina nos órgãos de decisão não pode nem deve ser solucionada por imposição administrativa, o que remete a mulher para o nível da menoridade política.
A proposta de lei da paridade é apresentada pelo Governo como forma de atingir o objectivo "que ultrapassa a questão dos direitos das mulheres: aprofundar o nosso sistema democrático pela construção de uma democracia paritária". Isto é pura hipocrisia: o nosso sistema democrático não pode ser aprofundado quando direitos fundamentais das mulheres lhes são negados, com conhecimento e até anuência tácita do Governo, como acontece com o direito de salário igual para trabalho igual; quando são as mulheres as mais atingidas pela precariedade do trabalho e pelo desemprego de longa duração; quando o direito à maternidade e à sua função social são frequentemente postos em causa e motivo de grandes discriminações.
A tal "democracia paritária" limitada à participação da mulher na vida política por imposição de percentagens nas listas eleitorais não é mais do que uma farsa, pois o défice de presença feminina nos centros de direcção da vida política está indissociavelmente ligado às fortes discriminações económicas, sociais e culturais sofridas pela mulher.
Para que as mulheres participem mais activamente na vida política têm que ser criadas condições sociais e estruturas de apoio (à infância, à terceira idade, etc.) que as libertem de tarefas familiares e domésticas que tanto pesam e criam dificuldades a uma maior participação das mulheres na vida política, sobretudo às mulheres trabalhadoras de menores rendimentos.
E também é necessária e fundamental uma alteração de mentalidades.
Como militante do Partido Comunista há 49 anos, posso afirmar que a alteração de mentalidades, mesmo no meu partido, tem sido lenta e para que uma mulher ascenda a cargos de responsabilidade, tem que demonstrar em geral maiores capacidades que os camaradas masculinos. Mas a verdade é que é o PCP que tem mais elevadas percentagens de mulheres, quer na Assembleia da República e no Parlamento Europeu, quer nos quadros de direcção política nacionais e regionais.