Maria do Céu
Por ADÍLIA LOPES
Segunda-feira, 4 de Junho de 2001
Os media não são Deus, mas também não são o Diabo. Como em tudo, na vida, é preciso separar o trigo do joio. E o joio, se calhar, também tem um bom fim. Os brasileiros escrevem "mídia", o que faz lembrar "míldio" (o termo popular é "Mil-diabos"), mas "media" é o plural de "medium", palavra latina, e não inglesa, como parece. Eu gosto de pensar nos media (o plural de medium) como nas mesas pé-de-galo do tempo do Pessoa. Mesas redondas em que damos as mãos e em que os mortos comunicam com os vivos, em que, mergulhados no éter ou no vazio (ou em Deus), somos a grande cadeia do ser. Não acredito que seja precisa uma mesa pé-de-galo, mas acredito que o escritor convoca (chama) vivos e mortos. 0 escritor dá voz aos que têm e aos que não têm voz (como o Dr. Garcia Pereira nos cartazes). Acredito que o escritor é sempre o advogado, o que é chamado para ajudar. Acredito que o bater de asas de uma borboleta em Lisboa provoca um tufão em Honolulu. Ou seja, como se diz que dizem os malucos, isto anda tudo ligado. E não estamos sós.
Um dos problemas de ser escritor é ferir os amigos quando se escreve ou se dá entrevistas. No texto da Manuela Carona sobre mim, publicado na revista de 0 Independente, "A preguiça", de 20 de Abril deste ano, intitulado "A menina Adília", está escrito "A vizinha de cima, uma mulher semianalfabeta, disse-lhe que não tinha percebido muito do que está escrito no seu livro Florbela Espanca espanca, mas que gostou muito do que leu. A Adília adora estas perversões culturais". Ora a minha vizinha de cima leu isto. E eu adoro a minha vizinha de cima. E também estimo a Manuela Carona. Mas eu não sou perversa! Conheci pessoas perversas. Mas, como me disse o Prior de Arroios, Monsenhor José de Freitas, "as pessoas más são o outro lado da Lua". A minha vizinha de cima, a Maria do Céu, pode ser tecnicamente, linguisticamente, quase analfabeta. Mas eu nunca a quis ofender. E não é nada estúpida e, sobretudo, não é má. Já falei com ela e ela aconselhou-me a não citar ninguém "nem bem nem mal" para "evitar essas confusões". Só que eu, para sobreviver, não posso ficar calada.
Devo muito à minha vizinha de cima. Conheço-a há trinta anos. Quando lhe ofereço os meus livros e ela me diz que os lê devagar e que nem sempre os percebe, não penso que ela seja estúpida. Nem penso que ela seja iletrada. Tenho-a na conta de uma pessoa muito delicada, muito bonita (por dentro e por fora), muito elegante, muito inteligente e muito culta. A Maria do Céu é de Trás-os-Montes, de Alijó. Fala num português que faria as delícias de Leite de Vasconcellos e que mete num chinelo o português (ou o francês ou o inglês) de tanto doutor (catedrático, médico, escritor) que não hesita em subir acima da manhosa chinela porque não é humilde e modesto. A Maria do Céu não é medíocre.
A minha vizinha contou-me que viu em Alijó, debaixo de uma cerejeira, no jardim da casa dos pais, uma cobra encantar um lagarto e engoli-lo, devorá-lo. Ela ficou fascinada porque já tinha ouvido contar casos destes mas custava-lhe a acreditar.
Miguel Torga ensinou-me a apreciar o Portugal rural, em que o silêncio é de oiro e a palavra de prata e a laranja, à noite, mata. A Maria do Céu é uma mulher de palavra e é um coração de oiro. Muitas vezes me senti aflita e foi a Maria do Céu quem me valeu, quem me levou ao hospital, quem me visitou no hospital. 0 que eu quis dizer à Manuela Carona mas, certamente expliquei-me mal, é que quando dei, pela primeira vez, um livro à minha vizinha de cima, a avisei de que o livro tinha palavrões. Ela disse-me, na altura, uma coisa acertadíssima: cada palavra tem o seu lugar. Mesmo os palavrões.
Tenho andado muito aflita por ter ofendido, sem querer, a minha vizinha de cima. Isto tem-me feito pensar no Portugal que somos. Ou no mundo que somos. A França do "À procura do tempo perdido" de Proust ou a Àustria do "0 homem sem atributos de Musil" são este nosso mundo feito de diferenças de estatuto entre as pessoas que causam, tão estupidamente, tanto sofrimento. Não penso que uma pessoa do campo seja necessariamente mais virtuosa que uma pessoa da cidade. 0 que vejo na minha vizinha Maria do Céu, acima de tudo, é a nobreza de carácter. E é verdade que foi na intelligentsia e na aristocracia que encontrei as pessoas mais incultas e mais grosseiras.
Há pessoas finas e pessoas casca grossa. Conheço casas com loiças de Cantão e pano de armas em que fui maltratada. Conheço casas apinhadas de livros em que fui maltratada. Conheço consultórios de professores catedráticos de Medicina em que fui maltratada. Conheço a casa por cima da minha em que fui sempre tão bem recebida. Por muitas judiarias que me tenham feito, por muitas cicatrizes que tenha, não quero morder a mão que me dá pão, rosas e afecto.
Detesto o sofrimento. Procuro ser justa. Não sou perversa. A Sophia escreveu "Aquele que vê o fenômeno quer ver todo o fenômeno". É isso que me guia. Posso parecer pateta, a emenda pode ficar pior que o soneto. Se calhar, a Maria do Céu, quando ler isto, vai ficar ainda mais zangada comigo. Só tenho bem a dizer da Maria do Céu. 0 que me agrada mais nela é o fino trato. Esta expressão caiu em desuso neste mundo, nesta aldeia, em que vale tudo até arrancar olhos. Isto devia ser uma crónica da Laurinda Alves. Porque a minha vizinha de cima é o lado bom da minha vida, a ela eu sei que posso encostar a cabeça. A Maria do Céu é mesmo do Céu (e mora no andar de cima).
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Maria do Céu
Por ADÍLIA LOPES
Segunda-feira, 4 de Junho de 2001
Os media não são Deus, mas também não são o Diabo. Como em tudo, na vida, é preciso separar o trigo do joio. E o joio, se calhar, também tem um bom fim. Os brasileiros escrevem "mídia", o que faz lembrar "míldio" (o termo popular é "Mil-diabos"), mas "media" é o plural de "medium", palavra latina, e não inglesa, como parece. Eu gosto de pensar nos media (o plural de medium) como nas mesas pé-de-galo do tempo do Pessoa. Mesas redondas em que damos as mãos e em que os mortos comunicam com os vivos, em que, mergulhados no éter ou no vazio (ou em Deus), somos a grande cadeia do ser. Não acredito que seja precisa uma mesa pé-de-galo, mas acredito que o escritor convoca (chama) vivos e mortos. 0 escritor dá voz aos que têm e aos que não têm voz (como o Dr. Garcia Pereira nos cartazes). Acredito que o escritor é sempre o advogado, o que é chamado para ajudar. Acredito que o bater de asas de uma borboleta em Lisboa provoca um tufão em Honolulu. Ou seja, como se diz que dizem os malucos, isto anda tudo ligado. E não estamos sós.
Um dos problemas de ser escritor é ferir os amigos quando se escreve ou se dá entrevistas. No texto da Manuela Carona sobre mim, publicado na revista de 0 Independente, "A preguiça", de 20 de Abril deste ano, intitulado "A menina Adília", está escrito "A vizinha de cima, uma mulher semianalfabeta, disse-lhe que não tinha percebido muito do que está escrito no seu livro Florbela Espanca espanca, mas que gostou muito do que leu. A Adília adora estas perversões culturais". Ora a minha vizinha de cima leu isto. E eu adoro a minha vizinha de cima. E também estimo a Manuela Carona. Mas eu não sou perversa! Conheci pessoas perversas. Mas, como me disse o Prior de Arroios, Monsenhor José de Freitas, "as pessoas más são o outro lado da Lua". A minha vizinha de cima, a Maria do Céu, pode ser tecnicamente, linguisticamente, quase analfabeta. Mas eu nunca a quis ofender. E não é nada estúpida e, sobretudo, não é má. Já falei com ela e ela aconselhou-me a não citar ninguém "nem bem nem mal" para "evitar essas confusões". Só que eu, para sobreviver, não posso ficar calada.
Devo muito à minha vizinha de cima. Conheço-a há trinta anos. Quando lhe ofereço os meus livros e ela me diz que os lê devagar e que nem sempre os percebe, não penso que ela seja estúpida. Nem penso que ela seja iletrada. Tenho-a na conta de uma pessoa muito delicada, muito bonita (por dentro e por fora), muito elegante, muito inteligente e muito culta. A Maria do Céu é de Trás-os-Montes, de Alijó. Fala num português que faria as delícias de Leite de Vasconcellos e que mete num chinelo o português (ou o francês ou o inglês) de tanto doutor (catedrático, médico, escritor) que não hesita em subir acima da manhosa chinela porque não é humilde e modesto. A Maria do Céu não é medíocre.
A minha vizinha contou-me que viu em Alijó, debaixo de uma cerejeira, no jardim da casa dos pais, uma cobra encantar um lagarto e engoli-lo, devorá-lo. Ela ficou fascinada porque já tinha ouvido contar casos destes mas custava-lhe a acreditar.
Miguel Torga ensinou-me a apreciar o Portugal rural, em que o silêncio é de oiro e a palavra de prata e a laranja, à noite, mata. A Maria do Céu é uma mulher de palavra e é um coração de oiro. Muitas vezes me senti aflita e foi a Maria do Céu quem me valeu, quem me levou ao hospital, quem me visitou no hospital. 0 que eu quis dizer à Manuela Carona mas, certamente expliquei-me mal, é que quando dei, pela primeira vez, um livro à minha vizinha de cima, a avisei de que o livro tinha palavrões. Ela disse-me, na altura, uma coisa acertadíssima: cada palavra tem o seu lugar. Mesmo os palavrões.
Tenho andado muito aflita por ter ofendido, sem querer, a minha vizinha de cima. Isto tem-me feito pensar no Portugal que somos. Ou no mundo que somos. A França do "À procura do tempo perdido" de Proust ou a Àustria do "0 homem sem atributos de Musil" são este nosso mundo feito de diferenças de estatuto entre as pessoas que causam, tão estupidamente, tanto sofrimento. Não penso que uma pessoa do campo seja necessariamente mais virtuosa que uma pessoa da cidade. 0 que vejo na minha vizinha Maria do Céu, acima de tudo, é a nobreza de carácter. E é verdade que foi na intelligentsia e na aristocracia que encontrei as pessoas mais incultas e mais grosseiras.
Há pessoas finas e pessoas casca grossa. Conheço casas com loiças de Cantão e pano de armas em que fui maltratada. Conheço casas apinhadas de livros em que fui maltratada. Conheço consultórios de professores catedráticos de Medicina em que fui maltratada. Conheço a casa por cima da minha em que fui sempre tão bem recebida. Por muitas judiarias que me tenham feito, por muitas cicatrizes que tenha, não quero morder a mão que me dá pão, rosas e afecto.
Detesto o sofrimento. Procuro ser justa. Não sou perversa. A Sophia escreveu "Aquele que vê o fenômeno quer ver todo o fenômeno". É isso que me guia. Posso parecer pateta, a emenda pode ficar pior que o soneto. Se calhar, a Maria do Céu, quando ler isto, vai ficar ainda mais zangada comigo. Só tenho bem a dizer da Maria do Céu. 0 que me agrada mais nela é o fino trato. Esta expressão caiu em desuso neste mundo, nesta aldeia, em que vale tudo até arrancar olhos. Isto devia ser uma crónica da Laurinda Alves. Porque a minha vizinha de cima é o lado bom da minha vida, a ela eu sei que posso encostar a cabeça. A Maria do Céu é mesmo do Céu (e mora no andar de cima).