DN

10-01-2001
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Início de semana trágico, este, para Ferreira do Amaral. Já ele ensaiava um porte napoleónico de supremo comandante de exércitos e se passeava em garbosos trotes de pingalim distraído fustigando os canos enfolados das calças quando o meteram entre vinte socialistas e dez fardas tilintantes - e ele, para ali, sozinho e delicado, bonacheirão de seu feitio, convidado a contribuir para a causa superior da defesa nacional. "Aqui me têm", assumiu, lisonjeado. E saiu da reunião feliz por se ter unido a um patriótico consenso, como é dado aos patriotas e aos consensuais.

O que havia de lhe estar reservado! Recebeu-o a estridência dos protestos do seu líder e inventor eleitoral. Ferreira do Amaral gelou. Pois não era suposto ele concordar com os superiores conselheiros da nacional defesa? Não deveria alinhar na unanimidade de dizer que se deve prosseguir no esforço de guerra pela paz no Kosovo? Que não, zurziu, megafónica, a voz do líder partidário. E, para demonstrar quem manda na política de ali, Durão Barroso correu às televisões a cortar todas as pontes de Ferreira do Amaral: "Não concordo com a decisão do Conselho Superior de Defesa Nacional!" Assim mesmo, sem margens para interpretações benévolas ou piruetas linguísticas. E disse mais o líder do PSD. Disse que quem como ele não pensa faz política de maria-vai-com-as-outras. Pelo que Ferreira não passa de um Amaral que vai com as marias - o que, convenhamos, não desmerece um homem, a não ser que se tratasse de um candidato oval.

Desgraça nunca vem só e Ferreira do Amaral tinha de beber o cálice de perfídia até ao fim. Trouxeram-lhe então à presença Cavaco Silva, dizendo-o apoiante na campanha presidencial. Foi tão grande e pesado apoio - que ali mesmo ficou Ferreira do Amaral espalmado como um capacho de lagar de azeite. É que Cavaco Silva chegou com a mesma descaridade de Durão Barroso, conquanto menos estridente, mais sibilino: "Eu também adiava um pouco a ida de tropas para o Kosovo."

Ferreira do Amaral, mimoso e bonacheirão de seu feitio, fez-se esguio e insinuou-se junto ao buraco da agulha. Conseguiu descobrir-se inteiramente de acordo com as opiniões de suas excelências e até da contrária se preciso fosse. Ele, lá na coisa da defesa, tinha, enfim, dado uma opinião de defesa. Mas agora cá fora, bem, cá fora a coisa é política e ele até é capaz de estar de acordo com o que dizem Cavaco Barroso e Durão Silva ou vice-versa, porque uma coisa é a política e outra é a defesa, porque a defesa não é a política e a política não é a defesa, não é?

Primeiro registo na certidão de óbito eleitoral do desventurado, mimoso embora, candidato: para quem fez toda a campanha a querer provar que o adversário é refém do Partido Socialista, ser desautorizado na cara e limitar-se a baixar as orelhas - descredibiliza um pouco, não?

Mas há um descrédito maior. É o facto de Ferreira do Amaral ter sido indicado pelo PSD para fazer parte do Conselho Superior de Defesa Nacional e não fazer a mínima ideia do que é a defesa nacional. Um homem que confunde defesa nacional com a simples avaliação de meios militares disponíveis precisa urgentemente de um briefing, nem que seja - deixa cá ver de quem... - de um recruta de crânio empobrecido!

E o descrédito é maior do que o anterior, porque real: Ferreira do Amaral é mesmo conselheiro superior de defesa nacional, para nossa desgraça - e nem por graça se concebe que venha a ser Presidente da República.

Oscar Mascarenhas é redactor principal do DN e assina esta coluna às quartas-feiras

Início de semana trágico, este, para Ferreira do Amaral. Já ele ensaiava um porte napoleónico de supremo comandante de exércitos e se passeava em garbosos trotes de pingalim distraído fustigando os canos enfolados das calças quando o meteram entre vinte socialistas e dez fardas tilintantes - e ele, para ali, sozinho e delicado, bonacheirão de seu feitio, convidado a contribuir para a causa superior da defesa nacional. "Aqui me têm", assumiu, lisonjeado. E saiu da reunião feliz por se ter unido a um patriótico consenso, como é dado aos patriotas e aos consensuais.

O que havia de lhe estar reservado! Recebeu-o a estridência dos protestos do seu líder e inventor eleitoral. Ferreira do Amaral gelou. Pois não era suposto ele concordar com os superiores conselheiros da nacional defesa? Não deveria alinhar na unanimidade de dizer que se deve prosseguir no esforço de guerra pela paz no Kosovo? Que não, zurziu, megafónica, a voz do líder partidário. E, para demonstrar quem manda na política de ali, Durão Barroso correu às televisões a cortar todas as pontes de Ferreira do Amaral: "Não concordo com a decisão do Conselho Superior de Defesa Nacional!" Assim mesmo, sem margens para interpretações benévolas ou piruetas linguísticas. E disse mais o líder do PSD. Disse que quem como ele não pensa faz política de maria-vai-com-as-outras. Pelo que Ferreira não passa de um Amaral que vai com as marias - o que, convenhamos, não desmerece um homem, a não ser que se tratasse de um candidato oval.

Desgraça nunca vem só e Ferreira do Amaral tinha de beber o cálice de perfídia até ao fim. Trouxeram-lhe então à presença Cavaco Silva, dizendo-o apoiante na campanha presidencial. Foi tão grande e pesado apoio - que ali mesmo ficou Ferreira do Amaral espalmado como um capacho de lagar de azeite. É que Cavaco Silva chegou com a mesma descaridade de Durão Barroso, conquanto menos estridente, mais sibilino: "Eu também adiava um pouco a ida de tropas para o Kosovo."

Ferreira do Amaral, mimoso e bonacheirão de seu feitio, fez-se esguio e insinuou-se junto ao buraco da agulha. Conseguiu descobrir-se inteiramente de acordo com as opiniões de suas excelências e até da contrária se preciso fosse. Ele, lá na coisa da defesa, tinha, enfim, dado uma opinião de defesa. Mas agora cá fora, bem, cá fora a coisa é política e ele até é capaz de estar de acordo com o que dizem Cavaco Barroso e Durão Silva ou vice-versa, porque uma coisa é a política e outra é a defesa, porque a defesa não é a política e a política não é a defesa, não é?

Primeiro registo na certidão de óbito eleitoral do desventurado, mimoso embora, candidato: para quem fez toda a campanha a querer provar que o adversário é refém do Partido Socialista, ser desautorizado na cara e limitar-se a baixar as orelhas - descredibiliza um pouco, não?

Mas há um descrédito maior. É o facto de Ferreira do Amaral ter sido indicado pelo PSD para fazer parte do Conselho Superior de Defesa Nacional e não fazer a mínima ideia do que é a defesa nacional. Um homem que confunde defesa nacional com a simples avaliação de meios militares disponíveis precisa urgentemente de um briefing, nem que seja - deixa cá ver de quem... - de um recruta de crânio empobrecido!

E o descrédito é maior do que o anterior, porque real: Ferreira do Amaral é mesmo conselheiro superior de defesa nacional, para nossa desgraça - e nem por graça se concebe que venha a ser Presidente da República.

Oscar Mascarenhas é redactor principal do DN e assina esta coluna às quartas-feiras

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