"Quis Estar Bem com Deus e com o Diabo..."
Por LUCIANO ALVAREZ
Domingo, 27 de Janeiro de 2002 Na hora da despedida, os militantes elogiam Guterres, mas também não lhe poupam criticas. E acreditam que Ferro será melhor Rei morto, rei posto. Esta parece ser a máxima de alguns socialistas na hora da despedida de António Guterres. O PÙBLICO tentou saber o que os militantes anónimos do PS pensam sobre o legado para o PS e para o país de dez anos de guterrismo. Há duas ideias que merecem unanimidade: Guterres foi bom mas Ferro será melhor; Guterres foi bom mas frouxo nas decisões. Se há coisa que a família socialista é rica é na facilidade com que dá opinião. Todos, ou pelos menos os que de forma aleatória ontem foram ouvidos pelo PÚBLICO, soltaram de primeira o que pensavam sobre a herança de dez anos de guterrismo, ou sobre se acham que Ferro será melhor primeiro-ministro que o seu antecessor. Margarida Metello, "uma velhinha do PS", como ela própria se identifica justificando os seus 75 anos de vida e quase 25 de militância socialista, não tem dúvidas que o melhor e o pior de dez anos de guterrismo foi exactamente a mesma coisa: o diálogo. Ou seja, o ex-secretário geral, enquanto primeiro-ministro, "começou bem, mostrando-se dialogante e contemporizador". Só que depois, segundo a socialista Margarida, "exagerou": "Quis estar bem com Deus e com o diabo..." "Claro que Ferro Rodrigues será melhor que o engenheiro Guterres. É mais firme nas convicções, mais cumpridor, mais sério", assegura. José Costa, 42 anos, militante desde 1977, é daqueles que entrou ainda miúdo para o PS e nunca de lá mais saiu. O socialista Costa andou nas manifestações a fazer recolhas de fundos, montou bancas para vender "pins" e bandeirinhas, colou cartazes, passou a dirigente local e acabou por atingir o estatuto do chamado homem do aparelho, daqueles que trata por tu o António (Guterres), o Jorge (Coelho) ou Eduardo (Ferro Rodrigues). Ou seja, ainda que anónimo para o país, não o é no partido pela sua longividade, trabalho de base e dedicação. "O melhor de Guterres? Ter tornado o PS mais moderno, mais virado para fora, mais independente. Além de ter dado ao partido as suas mais importantes e significativas vitórias", assegura, acrescentado que "o PS fica mais pobre com a saída de Guterres" de secretário geral. Sobre o pior de ex-secretário-geral também não tem dúvidas: "Mostrou grandes indecisões na fase final do mandato. Manifesta confiança em Ferro Rodrigues, embora não tenha para já a certeza que o novo líder seja melhor. "Espero que, pelo menos, mantenha o melhor nível de António Guterres." Joaquim Banha, presidente da junta de freguesia socialista de Santana do Monte, Coruche, começa por dizer que não esconde "as suas origens": "Só entrei no PS em1985 porque eu andei no MES como o Ferro Rodrigues." Faz rasgados elogios ao trabalho de Guterres "no partido e no país" soltando uma atrás de outra dezenas de medidas que considera "terem feito de Portugal um país mais moderno, melhor e mais solidário". Mas também tem criticas a fazer. "Não assumiu responsabilidades em algumas questões importantes como a lei do aborto e a regionalização, permitindo que se realizassem referendos. Oscilou em muitas coisas, recuou noutras tantas. Não cumpriu promessas", afirma determinado. "Agora sim", acrescenta, o PS "terá à sua frente um homem que não vai oscilar, que vai cumprir e até recuperar algumas das coisas que Guterres deixou cair". Refere-se ao seu ex-camarada do MES e hoje do PS. Todos as outras opiniões ouvidas pelo PÚBLICO não fugiram a estas. Assim como parece ser este também o entender das centenas de militantes que ontem participaram na convenção. Socialistas que aplaudiram sempre com mais fervor Ferro que Guterres e que, na primeira referência a Guterres feita no encontro, teve de ser desafiada pelo orador, neste caso Miguel Coelho, dirigente lisboeta dos socialistas, para se levantar da cadeira para aplaudir o ex-secretário-geral. É a vida, diria António Guterres. OUTROS TÍTULOS EM DESTAQUE Ferro Rodrigues promete défice zero em 2004
Lacão exigiu ser cabeça-de-lista em Santarém
O reencontro do PS no Coliseu
As medidas de Ferro
Guterres passou testemunho "ao melhor primeiro-ministro neste momento"
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"Quis Estar Bem com Deus e com o Diabo..."
Por LUCIANO ALVAREZ
Domingo, 27 de Janeiro de 2002 Na hora da despedida, os militantes elogiam Guterres, mas também não lhe poupam criticas. E acreditam que Ferro será melhor Rei morto, rei posto. Esta parece ser a máxima de alguns socialistas na hora da despedida de António Guterres. O PÙBLICO tentou saber o que os militantes anónimos do PS pensam sobre o legado para o PS e para o país de dez anos de guterrismo. Há duas ideias que merecem unanimidade: Guterres foi bom mas Ferro será melhor; Guterres foi bom mas frouxo nas decisões. Se há coisa que a família socialista é rica é na facilidade com que dá opinião. Todos, ou pelos menos os que de forma aleatória ontem foram ouvidos pelo PÚBLICO, soltaram de primeira o que pensavam sobre a herança de dez anos de guterrismo, ou sobre se acham que Ferro será melhor primeiro-ministro que o seu antecessor. Margarida Metello, "uma velhinha do PS", como ela própria se identifica justificando os seus 75 anos de vida e quase 25 de militância socialista, não tem dúvidas que o melhor e o pior de dez anos de guterrismo foi exactamente a mesma coisa: o diálogo. Ou seja, o ex-secretário geral, enquanto primeiro-ministro, "começou bem, mostrando-se dialogante e contemporizador". Só que depois, segundo a socialista Margarida, "exagerou": "Quis estar bem com Deus e com o diabo..." "Claro que Ferro Rodrigues será melhor que o engenheiro Guterres. É mais firme nas convicções, mais cumpridor, mais sério", assegura. José Costa, 42 anos, militante desde 1977, é daqueles que entrou ainda miúdo para o PS e nunca de lá mais saiu. O socialista Costa andou nas manifestações a fazer recolhas de fundos, montou bancas para vender "pins" e bandeirinhas, colou cartazes, passou a dirigente local e acabou por atingir o estatuto do chamado homem do aparelho, daqueles que trata por tu o António (Guterres), o Jorge (Coelho) ou Eduardo (Ferro Rodrigues). Ou seja, ainda que anónimo para o país, não o é no partido pela sua longividade, trabalho de base e dedicação. "O melhor de Guterres? Ter tornado o PS mais moderno, mais virado para fora, mais independente. Além de ter dado ao partido as suas mais importantes e significativas vitórias", assegura, acrescentado que "o PS fica mais pobre com a saída de Guterres" de secretário geral. Sobre o pior de ex-secretário-geral também não tem dúvidas: "Mostrou grandes indecisões na fase final do mandato. Manifesta confiança em Ferro Rodrigues, embora não tenha para já a certeza que o novo líder seja melhor. "Espero que, pelo menos, mantenha o melhor nível de António Guterres." Joaquim Banha, presidente da junta de freguesia socialista de Santana do Monte, Coruche, começa por dizer que não esconde "as suas origens": "Só entrei no PS em1985 porque eu andei no MES como o Ferro Rodrigues." Faz rasgados elogios ao trabalho de Guterres "no partido e no país" soltando uma atrás de outra dezenas de medidas que considera "terem feito de Portugal um país mais moderno, melhor e mais solidário". Mas também tem criticas a fazer. "Não assumiu responsabilidades em algumas questões importantes como a lei do aborto e a regionalização, permitindo que se realizassem referendos. Oscilou em muitas coisas, recuou noutras tantas. Não cumpriu promessas", afirma determinado. "Agora sim", acrescenta, o PS "terá à sua frente um homem que não vai oscilar, que vai cumprir e até recuperar algumas das coisas que Guterres deixou cair". Refere-se ao seu ex-camarada do MES e hoje do PS. Todos as outras opiniões ouvidas pelo PÚBLICO não fugiram a estas. Assim como parece ser este também o entender das centenas de militantes que ontem participaram na convenção. Socialistas que aplaudiram sempre com mais fervor Ferro que Guterres e que, na primeira referência a Guterres feita no encontro, teve de ser desafiada pelo orador, neste caso Miguel Coelho, dirigente lisboeta dos socialistas, para se levantar da cadeira para aplaudir o ex-secretário-geral. É a vida, diria António Guterres. OUTROS TÍTULOS EM DESTAQUE Ferro Rodrigues promete défice zero em 2004
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