O Mistério
do Orçamento 2001
Carlos Gonçalves
D esta vez quase pedi ao detective Hercule Poirot para ser ele a tratar este tema, se Agatha Christie autorizasse, mas a chefia de redacção discordou por razões que não vêm ao caso.
De facto, está por esclarecer o mistério da premeditação e execução do «crime» da aprovação do Orçamento para 2001.
Conhece-se o agente do «crime», o famigerado Daniel Campelo, que ao juntar a sua abstenção ao voto do PS permitiu que o Orçamento passasse.
Sabe-se que o «crime» aproveita ao Governo e esse é, como sempre, um bom critério para encontrar o autor moral e eventualmente o (ou um dos) seu(s) mandante(s).
Mas, aqui chegados, esbarramo-nos no alibi de Guterres, que não foi visto com Campelo recentemente, e confrontamo-nos com a falta de provas conclusivas, já que o «corpo de delito», isto é, o Orçamento, não contém alterações posteriores ao «crime», em benefício de Campelo.
Investiguemos o mistério.
Antecedentes, factos e reflexões
1. Os Orçamentos dos Governos PS foram sempre aprovados com abstenções da direita: em 97 do PP e PSD, em 98 e 99 do PSD e em 96 e 2000 do PP.
É assim um facto que a abstenção de Campelo é apenas mais uma solução da família das anteriores.
2. Campelo tem o perfil, bem documentado, de quem procura visibilidade e está sempre na primeira linha das «causas» ganhadoras no PP.
Daí se infere que a sua ambição política não se esgota neste Orçamento e nos ganhos resultantes para Ponte de Lima. Das duas uma, ou foi enganado, ou tem garantias do PS e/ou do PP.
3. Esta direcção do CDS/PP nunca falhou ao Governo nos momentos decisivos e, provou-se no «caso» Moderna, está tão dependente ou chantageada pelo PS que não tem credibilidade nem condições para avançar a sério com a AD.
Daí se deduz que a proposta da nova AD foi uma manobra perversa para o PSD recusar, ficando o PP de mãos livres para um acordo orçamental com o PS. Talvez uma jogada de última hora para desviar o acordo (que conheciam) de Campelo para Portas.
4. O PSD de Barroso continua sem o élan necessário para o regresso ao poder, mas não pode confiar no PP e tem de dificultar e preterir a coligação à direita, sem o assumir com clareza.
Daqui se conclui que o atraso da resposta do PSD à proposta de AD, visou criar dificuldades às manobras do PP e elevar os custos do «crime» do Orçamento, de que pelo menos suspeitavam.
5. Guterres decidiu que o seu «novo empenhamento» no Governo não comtempla o «erro infantil» de cedências orçamentais ao PP às claras, assim, enquanto encenava a rábula da «situação dramática», ía negociando com o PP à socapa e, por interposto Jorge Coelho, consumava cuidadosamente no texto original do Orçamento as verbas do «crime» Limiano.
Não é possível concluír se na negociação com Portas e Campelo, em algum momento o Governo enganou quem e como. Mas é adequado inferir que, estando o PP sob pressão do PS, seria provavelmente possível levar Portas a enganar ou a combinar-se com Campelo ou, no mínimo, a só fazer a barulheira sobre o «leilão da República» já com o «crime» consumado.
6. Nunca ninguém realmente quiz eleições antecipadas; o PS porque correria riscos escusados, o PSD porque seria o colapso de Barroso e o PP porque provavelmente, havendo o risco de renascer a AD, Portas seria coincenerado com os resíduos da Moderna.
É então de concluír que estes senhores souberam sempre que as eleições antecipadas eram bluff. O PS e o PP, duma forma ou doutra, conheciam bem o «crime» orçamental e o PSD, para além de muito provavelmente também o conhecer, teria, como afirma o «professor Marcelo», acordado com o PS em manter a «estabilidade», do Governo e de Durão Barroso, até 2003.
Duas conclusões
Feito o percurso do mistério do Orçamento 2001 há indícios e provas bastantas da ocorrência do «crime». Houve um negócio politicamente ilícito para a aprovação do Orçamento para 2001, o Governo PS é o seu autor, Campelo o seu agente e o PP e mesmo o PSD são cúmplices.
Fica por fazer a prova conclusiva. Seria necessário acarear os protagonistas.
O tempo trará a verdade inteira. Entretanto, duas conclusões são admissíveis.
Priimeira, o interesse que arregimenta mandante, agente e cúmplices do «crime» orçamental, é a viabilização do essencial das políticas de direita - as privatizações, a concentração da riqueza e a provável queda dos salários reais.
Segunda, as golpadas e perversidades da aprovação do Orçamento comprovam a degenerescência ética a que negociatas e políticas neoliberais têm conduzido este PS de Guterres, em joint-venture com o PSD e/ou o PP.
Sherlock Holmes, se Conan Doyle o autorizasse, diria apenas ... «elementar, meu caro Watson»! .
«Avante!» Nº 1409 - 30.Novembro.2000
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O Mistério
do Orçamento 2001
Carlos Gonçalves
D esta vez quase pedi ao detective Hercule Poirot para ser ele a tratar este tema, se Agatha Christie autorizasse, mas a chefia de redacção discordou por razões que não vêm ao caso.
De facto, está por esclarecer o mistério da premeditação e execução do «crime» da aprovação do Orçamento para 2001.
Conhece-se o agente do «crime», o famigerado Daniel Campelo, que ao juntar a sua abstenção ao voto do PS permitiu que o Orçamento passasse.
Sabe-se que o «crime» aproveita ao Governo e esse é, como sempre, um bom critério para encontrar o autor moral e eventualmente o (ou um dos) seu(s) mandante(s).
Mas, aqui chegados, esbarramo-nos no alibi de Guterres, que não foi visto com Campelo recentemente, e confrontamo-nos com a falta de provas conclusivas, já que o «corpo de delito», isto é, o Orçamento, não contém alterações posteriores ao «crime», em benefício de Campelo.
Investiguemos o mistério.
Antecedentes, factos e reflexões
1. Os Orçamentos dos Governos PS foram sempre aprovados com abstenções da direita: em 97 do PP e PSD, em 98 e 99 do PSD e em 96 e 2000 do PP.
É assim um facto que a abstenção de Campelo é apenas mais uma solução da família das anteriores.
2. Campelo tem o perfil, bem documentado, de quem procura visibilidade e está sempre na primeira linha das «causas» ganhadoras no PP.
Daí se infere que a sua ambição política não se esgota neste Orçamento e nos ganhos resultantes para Ponte de Lima. Das duas uma, ou foi enganado, ou tem garantias do PS e/ou do PP.
3. Esta direcção do CDS/PP nunca falhou ao Governo nos momentos decisivos e, provou-se no «caso» Moderna, está tão dependente ou chantageada pelo PS que não tem credibilidade nem condições para avançar a sério com a AD.
Daí se deduz que a proposta da nova AD foi uma manobra perversa para o PSD recusar, ficando o PP de mãos livres para um acordo orçamental com o PS. Talvez uma jogada de última hora para desviar o acordo (que conheciam) de Campelo para Portas.
4. O PSD de Barroso continua sem o élan necessário para o regresso ao poder, mas não pode confiar no PP e tem de dificultar e preterir a coligação à direita, sem o assumir com clareza.
Daqui se conclui que o atraso da resposta do PSD à proposta de AD, visou criar dificuldades às manobras do PP e elevar os custos do «crime» do Orçamento, de que pelo menos suspeitavam.
5. Guterres decidiu que o seu «novo empenhamento» no Governo não comtempla o «erro infantil» de cedências orçamentais ao PP às claras, assim, enquanto encenava a rábula da «situação dramática», ía negociando com o PP à socapa e, por interposto Jorge Coelho, consumava cuidadosamente no texto original do Orçamento as verbas do «crime» Limiano.
Não é possível concluír se na negociação com Portas e Campelo, em algum momento o Governo enganou quem e como. Mas é adequado inferir que, estando o PP sob pressão do PS, seria provavelmente possível levar Portas a enganar ou a combinar-se com Campelo ou, no mínimo, a só fazer a barulheira sobre o «leilão da República» já com o «crime» consumado.
6. Nunca ninguém realmente quiz eleições antecipadas; o PS porque correria riscos escusados, o PSD porque seria o colapso de Barroso e o PP porque provavelmente, havendo o risco de renascer a AD, Portas seria coincenerado com os resíduos da Moderna.
É então de concluír que estes senhores souberam sempre que as eleições antecipadas eram bluff. O PS e o PP, duma forma ou doutra, conheciam bem o «crime» orçamental e o PSD, para além de muito provavelmente também o conhecer, teria, como afirma o «professor Marcelo», acordado com o PS em manter a «estabilidade», do Governo e de Durão Barroso, até 2003.
Duas conclusões
Feito o percurso do mistério do Orçamento 2001 há indícios e provas bastantas da ocorrência do «crime». Houve um negócio politicamente ilícito para a aprovação do Orçamento para 2001, o Governo PS é o seu autor, Campelo o seu agente e o PP e mesmo o PSD são cúmplices.
Fica por fazer a prova conclusiva. Seria necessário acarear os protagonistas.
O tempo trará a verdade inteira. Entretanto, duas conclusões são admissíveis.
Priimeira, o interesse que arregimenta mandante, agente e cúmplices do «crime» orçamental, é a viabilização do essencial das políticas de direita - as privatizações, a concentração da riqueza e a provável queda dos salários reais.
Segunda, as golpadas e perversidades da aprovação do Orçamento comprovam a degenerescência ética a que negociatas e políticas neoliberais têm conduzido este PS de Guterres, em joint-venture com o PSD e/ou o PP.
Sherlock Holmes, se Conan Doyle o autorizasse, diria apenas ... «elementar, meu caro Watson»! .
«Avante!» Nº 1409 - 30.Novembro.2000