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19-01-2001
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Caderno de bordo O dia em que o palco se levantou Augusto M. Seabra Como já foi dito e redito, mas não pode deixar de ser ainda uma vez mais escrito neste momento, o desafio que António Mega Ferreira fez a António Pinho Vargas de escrever uma ópera sobre o 25 de Abril para ser estreada no Festival dos 100 Dias, foi insólito, arriscado e assustador. Uma vez aceite a encomenda por parte do compositor, escolhido o libretista, Manuel Gusmão, e o encenador, Lukas Hemleb, isto é, posto em marcha o concreto processo de criação, tornou-se óbvio que a ópera "teria" de ser estreada no dia 25 de Abril de 1998 no Teatro Nacional de São Carlos. Ao imenso desafio do projecto, agudizado pelo facto de os autores terem deliberadamente excluído da obra qualquer figura histórica reconhecível (opção inteligentíssima mas que podia deixar frustadas expectativas de espectadores sobre uma ópera "sobre o 25 de Abril"), acrescentou-se então outro facto: ao estrear nesse dia preciso, "Os Dias Levantados" podia ser recebido como um gesto mais de uma certa rotina institucional-comemorativa ou ser aferido apenas pela memória inflamada de quem recorda como viveu esses dias. A enorme inteligência e beleza do libreto de Manuel Gusmão, a incrível energia e fúria criativa que António Pinho Vargas investiu no processo composicional, um trabalho global de produção como é raríssimo ver-se em São Carlos, fizeram com que o dia 25 de Abril de 1998 entre para a história do teatro nacional de ópera não só pela originalidade temática da obra mas também porque a estreia de "Os Dias Levantados" foi um dos grandes momentos aí verificados no pós-25 de Abril. Contraditoriamente o facto (simbolicamente obrigatório) de a estreia ser feita em São Carlos, a concreta sala, acabou por ser o óbice maior: a acústica foi pouco favorável à vocalidade da obra, e isso, conjugado com algumas opções do compositor, tornou algumas vezes pouco inteligível um texto tão complexo e original. Mas se isso ocorreu, a beleza de alguns momentos foi transcendente. Para apenas considerar politicamente um texto que exige uma longa análise - porque nele a políica é "poiesis" -, o libreto de Gusmão oscila entre a evocação nostálgica de uma certa ideia de Revolução, quando o proletariado rural e industrial ocupava os seus locais de trabalho com o apoio dos soldados - é a utopia perdida, as ruínas de uma Revolução - e a celebração do que indelevelmente ficou, a democracia representativa e pluripartidária. Entre outros factores, essa oscilação político-estética determinou uma estrutura coral e multivocal, que no texto se concretiza não só no carácter arquetípico das personagens como também no extraordinário trabalho poético de uso das citações. Certamente inspirado pelo texto, e pelas discussões prévias com o libretista e o encenador, Pinho Vargas decidiu escrever uma ópera eminentemente coral. Pode discorrer-se sobre a estrutura da obra, por exemplo, sobre se em determinados momentos a predominância de certas figuras rítmicas não é excessiva. Há a notar que é clara a influência (quando ela é frutífera, porque não?) de Wolfgang Rihm, da produção mais recente de György Ligeti no que diz respeito a algumas partes instrumentais, do curioso paralelo (curioso porque em termos de técnica musical há uma diferença abissal) com algumas das preocupações cénico-musicais de um Luciano Berio. Há que dizer que, depois de Monodia para quarteto de cordas, o "eclético" (auto-definição) Pinho Vargas consegue aqui, com uma outra ambição, concretizar a sua reflexão musical no sentido de uma pós-modernidade que conjuga o uso de pólos tonais com a inscrição da herança histórica de uma "avantgarde" entretanto superada ideologicamente mas que em muitos aspectos permanece como uma referência fundamental. Mas como dizer (porque há emoções que são da obra do indizível) que o coro do povo que vem para a rua apoiar os revoltosos, o coro final dos cidadãos e sobretudo o coro das mulheres que reclamam os seus direitos, são sublimes? Decidamente, o palco levantou-se no Teatro Nacional de São Carlos a 25 de Abril de 1998. (c) Copyright PÚBLICO Comunicação Social, SA Email: publico@publico.pt

Caderno de bordo O dia em que o palco se levantou Augusto M. Seabra Como já foi dito e redito, mas não pode deixar de ser ainda uma vez mais escrito neste momento, o desafio que António Mega Ferreira fez a António Pinho Vargas de escrever uma ópera sobre o 25 de Abril para ser estreada no Festival dos 100 Dias, foi insólito, arriscado e assustador. Uma vez aceite a encomenda por parte do compositor, escolhido o libretista, Manuel Gusmão, e o encenador, Lukas Hemleb, isto é, posto em marcha o concreto processo de criação, tornou-se óbvio que a ópera "teria" de ser estreada no dia 25 de Abril de 1998 no Teatro Nacional de São Carlos. Ao imenso desafio do projecto, agudizado pelo facto de os autores terem deliberadamente excluído da obra qualquer figura histórica reconhecível (opção inteligentíssima mas que podia deixar frustadas expectativas de espectadores sobre uma ópera "sobre o 25 de Abril"), acrescentou-se então outro facto: ao estrear nesse dia preciso, "Os Dias Levantados" podia ser recebido como um gesto mais de uma certa rotina institucional-comemorativa ou ser aferido apenas pela memória inflamada de quem recorda como viveu esses dias. A enorme inteligência e beleza do libreto de Manuel Gusmão, a incrível energia e fúria criativa que António Pinho Vargas investiu no processo composicional, um trabalho global de produção como é raríssimo ver-se em São Carlos, fizeram com que o dia 25 de Abril de 1998 entre para a história do teatro nacional de ópera não só pela originalidade temática da obra mas também porque a estreia de "Os Dias Levantados" foi um dos grandes momentos aí verificados no pós-25 de Abril. Contraditoriamente o facto (simbolicamente obrigatório) de a estreia ser feita em São Carlos, a concreta sala, acabou por ser o óbice maior: a acústica foi pouco favorável à vocalidade da obra, e isso, conjugado com algumas opções do compositor, tornou algumas vezes pouco inteligível um texto tão complexo e original. Mas se isso ocorreu, a beleza de alguns momentos foi transcendente. Para apenas considerar politicamente um texto que exige uma longa análise - porque nele a políica é "poiesis" -, o libreto de Gusmão oscila entre a evocação nostálgica de uma certa ideia de Revolução, quando o proletariado rural e industrial ocupava os seus locais de trabalho com o apoio dos soldados - é a utopia perdida, as ruínas de uma Revolução - e a celebração do que indelevelmente ficou, a democracia representativa e pluripartidária. Entre outros factores, essa oscilação político-estética determinou uma estrutura coral e multivocal, que no texto se concretiza não só no carácter arquetípico das personagens como também no extraordinário trabalho poético de uso das citações. Certamente inspirado pelo texto, e pelas discussões prévias com o libretista e o encenador, Pinho Vargas decidiu escrever uma ópera eminentemente coral. Pode discorrer-se sobre a estrutura da obra, por exemplo, sobre se em determinados momentos a predominância de certas figuras rítmicas não é excessiva. Há a notar que é clara a influência (quando ela é frutífera, porque não?) de Wolfgang Rihm, da produção mais recente de György Ligeti no que diz respeito a algumas partes instrumentais, do curioso paralelo (curioso porque em termos de técnica musical há uma diferença abissal) com algumas das preocupações cénico-musicais de um Luciano Berio. Há que dizer que, depois de Monodia para quarteto de cordas, o "eclético" (auto-definição) Pinho Vargas consegue aqui, com uma outra ambição, concretizar a sua reflexão musical no sentido de uma pós-modernidade que conjuga o uso de pólos tonais com a inscrição da herança histórica de uma "avantgarde" entretanto superada ideologicamente mas que em muitos aspectos permanece como uma referência fundamental. Mas como dizer (porque há emoções que são da obra do indizível) que o coro do povo que vem para a rua apoiar os revoltosos, o coro final dos cidadãos e sobretudo o coro das mulheres que reclamam os seus direitos, são sublimes? Decidamente, o palco levantou-se no Teatro Nacional de São Carlos a 25 de Abril de 1998. (c) Copyright PÚBLICO Comunicação Social, SA Email: publico@publico.pt

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