Silêncio pouco inocente
Reconciliação pública de Durão Barroso e Santana Lopes não provoca reacções públicas
Luiz Carvalho Durão Barroso e Santana Lopes (com Raul dos Santos ao centro): até quando durará a paz selada em Ourique?
Luiz Carvalho Durão Barroso e Santana Lopes (com Raul dos Santos ao centro): até quando durará a paz selada em Ourique?
TAL como na reunião do Conselho Nacional da semana passada ninguém reagiu ao repto de Santana Lopes para que os «notáveis» dessem a cara pelo partido nas próximas autárquicas, também ninguém no PSD parece disposto a reagir, pelo menos por enquanto, à reaproximação pública entre o líder e o agora seu ex-rival. Antes optando, estrategicamente, por um silêncio muito pouco inocente. O próprio líder, Durão Barroso, confrontado pelo EXPRESSO, é peremptório na afirmação de que não comenta, nem a reaproximação que parece ter por base a «cedência» na questão das directas, e limita-se a alegar que
Aliás, a questão das directas é precisamente o ponto crucial citado por Santana Lopes para reconhecer que a sua atitude mudou em relação à direcção do partido. Santana Lopes, que em Abril do ano passado ameaçou sair do PSD e criar outro partido se as coisas não mudassem, mostra-se agora disposto a contribuir para a vitória do PSD nas autárquicas e para a condução de Durão Barroso a primeiro-ministro nas próximas legislativas. O autarca da Figueira da Foz considera que as «coisas» mudaram realmente no seu partido e argumenta que a orientação da direcção merece agora muito mais a sua concordância, embora sublinhe que «não totalmente». Santana Lopes explica que existem «alguns aspectos que justificam e permitem esta maior aproximação» com Durão Barroso. De facto, para Santana, a disposição do líder do PSD em admitir as directas foi um passo importante para as relações entre ambos e para o futuro do partido. Mas não só. Também a atitude de Durão Barroso na noite das eleições presidenciais, que optou por «ignorar» os ataques de Paulo Portas, foi vista com bons olhos pelo autarca. «Optou por não entrar em guerra aberta com o líder do CDS/PP e essa atitude vai mais ao encontro do que eu defendo», justifica.
Sobre esta matéria, Santana insiste que o entendimento com o CDS/PP com vista a uma candidatura à Câmara de Lisboa «é desejável» e acredita que ainda é possível, mas acrescenta que para isso «é preciso parar com os ataques cruzados, que são prejudiciais» e «tem de haver cedências de parte a parte em relação às posições iniciais».
Já no que diz respeito às eleições autárquicas, Santana Lopes alega motivações verdadeiras em querer estar por perto: «Tenho interesse em estar por perto de quem decide e do que se decide». Mas sublinha que a sua «proposta de princípio» está feita. O desafio foi lançado aos melhores e é uma questão encerrada para o autarca da Figueira.
Quanto ao «prazo de validade» destas tréguas, Santana Lopes garante que não pretende ir pedir contas depois das autárquicas. Porém, defende que «o PSD tem de ganhar ao PS nas autárquicas, seja por uma câmara ou em percentagem». Pois, acrescenta, «é preciso que o PSD seja o principal partido no poder local. É um sinal importante de mudança para as legislativas que se seguem».
O repto de Santana
Quanto ao desafio aos «notáveis» - directamente direccionado pelo próprio Santana Lopes a Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes e Carlos Pimenta - os dois primeiros responderam-lhe com duras críticas. Luís Marques Mendes - que na semana passada afirmou: «O meu caminho político sou eu que o defino. Contem comigo para discutir seriamente política. Não contem comigo para discutir questões pessoais» - opta agora pelo silêncio e não quer comentar a reaproximação do líder do PSD e do autarca da Figueira.
Por seu lado, Marcelo Rebelo de Sousa, no domingo à noite na TVI, começou por classificar a reunião do Conselho Nacional como «um mau começo para o PSD» no que diz respeito às autárquicas, considerando que o desafio lançado por Santana Lopes foi «uma desautorização da liderança». E alertou ainda para o facto de o silêncio de Durão Barroso, perante as propostas de Santana Lopes acerca das candidaturas autárquicas, poder instalar o «pandemónio» no partido. Na sua opinião, o silêncio do líder só pode significar uma de duas coisas: ou «é um convite a que todos os barões tenham ideias sobre os critérios para as autárquicas, o que seria um pandemónio», ou então é só Santana Lopes que pode dar essas ideias e nesse caso «passa a existir uma liderança colegial».
Quanto a Carlos Pimenta, contactado pelo EXPRESSO, manifestou a sua total indisponibilidade alegando projectos pessoais no âmbito das energias alternativas, iniciados há um ano e meio, altura em que terminou o seu mandato como eurodeputado e deixou de ser «servidor público a tempo inteiro». E acrescenta: «Não acredito em misturas de interesses privados e públicos».
Quase ninguém comenta
O evidente acerto de posições entre Santana e Durão, apesar de ter provocado óbvios incómodos a marcelistas e mendistas, além dos barrosistas que nunca aceitaram qualquer cedência a Santana Lopes, não merece, porém, qualquer reacção pública. Leonor Beleza, contactada pelo EXPRESSO, alegou que se tratava de temas que não lhe «despertavam interesse suficiente» para os comentar. Dias Loureiro esteve indisponível para responder às questões do EXPRESSO, tal como António Pinto Leite, Ângelo Correia, Rui Machete, Pacheco Pereira e José Miguel Júdice.
Já Álvaro Barreto viu com bons olhos esta reaproximação e considerou que «tudo quanto sejam reaproximações de pessoas de relevo para o PSD, tendo em conta a situação do partido e do país, são positivas», porém, a propósito do desafio lançado por Santana Lopes, defendeu que «há assuntos que não devem ser discutidos na praça pública. A escolha de pessoas tem de ser feita privada e internamente».
Também Duarte Lima se mostrou satisfeito com a reaproximação e respondeu: «Compreendo a atitude de Santana Lopes num momento em que o partido se está a aproximar de um desafio tão importante como as autárquicas». E acrescentou: «É, aliás, consentânea com a de alguém que foi candidato à liderança do partido».
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Silêncio pouco inocente
Reconciliação pública de Durão Barroso e Santana Lopes não provoca reacções públicas
Luiz Carvalho Durão Barroso e Santana Lopes (com Raul dos Santos ao centro): até quando durará a paz selada em Ourique?
Luiz Carvalho Durão Barroso e Santana Lopes (com Raul dos Santos ao centro): até quando durará a paz selada em Ourique?
TAL como na reunião do Conselho Nacional da semana passada ninguém reagiu ao repto de Santana Lopes para que os «notáveis» dessem a cara pelo partido nas próximas autárquicas, também ninguém no PSD parece disposto a reagir, pelo menos por enquanto, à reaproximação pública entre o líder e o agora seu ex-rival. Antes optando, estrategicamente, por um silêncio muito pouco inocente. O próprio líder, Durão Barroso, confrontado pelo EXPRESSO, é peremptório na afirmação de que não comenta, nem a reaproximação que parece ter por base a «cedência» na questão das directas, e limita-se a alegar que
Aliás, a questão das directas é precisamente o ponto crucial citado por Santana Lopes para reconhecer que a sua atitude mudou em relação à direcção do partido. Santana Lopes, que em Abril do ano passado ameaçou sair do PSD e criar outro partido se as coisas não mudassem, mostra-se agora disposto a contribuir para a vitória do PSD nas autárquicas e para a condução de Durão Barroso a primeiro-ministro nas próximas legislativas. O autarca da Figueira da Foz considera que as «coisas» mudaram realmente no seu partido e argumenta que a orientação da direcção merece agora muito mais a sua concordância, embora sublinhe que «não totalmente». Santana Lopes explica que existem «alguns aspectos que justificam e permitem esta maior aproximação» com Durão Barroso. De facto, para Santana, a disposição do líder do PSD em admitir as directas foi um passo importante para as relações entre ambos e para o futuro do partido. Mas não só. Também a atitude de Durão Barroso na noite das eleições presidenciais, que optou por «ignorar» os ataques de Paulo Portas, foi vista com bons olhos pelo autarca. «Optou por não entrar em guerra aberta com o líder do CDS/PP e essa atitude vai mais ao encontro do que eu defendo», justifica.
Sobre esta matéria, Santana insiste que o entendimento com o CDS/PP com vista a uma candidatura à Câmara de Lisboa «é desejável» e acredita que ainda é possível, mas acrescenta que para isso «é preciso parar com os ataques cruzados, que são prejudiciais» e «tem de haver cedências de parte a parte em relação às posições iniciais».
Já no que diz respeito às eleições autárquicas, Santana Lopes alega motivações verdadeiras em querer estar por perto: «Tenho interesse em estar por perto de quem decide e do que se decide». Mas sublinha que a sua «proposta de princípio» está feita. O desafio foi lançado aos melhores e é uma questão encerrada para o autarca da Figueira.
Quanto ao «prazo de validade» destas tréguas, Santana Lopes garante que não pretende ir pedir contas depois das autárquicas. Porém, defende que «o PSD tem de ganhar ao PS nas autárquicas, seja por uma câmara ou em percentagem». Pois, acrescenta, «é preciso que o PSD seja o principal partido no poder local. É um sinal importante de mudança para as legislativas que se seguem».
O repto de Santana
Quanto ao desafio aos «notáveis» - directamente direccionado pelo próprio Santana Lopes a Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes e Carlos Pimenta - os dois primeiros responderam-lhe com duras críticas. Luís Marques Mendes - que na semana passada afirmou: «O meu caminho político sou eu que o defino. Contem comigo para discutir seriamente política. Não contem comigo para discutir questões pessoais» - opta agora pelo silêncio e não quer comentar a reaproximação do líder do PSD e do autarca da Figueira.
Por seu lado, Marcelo Rebelo de Sousa, no domingo à noite na TVI, começou por classificar a reunião do Conselho Nacional como «um mau começo para o PSD» no que diz respeito às autárquicas, considerando que o desafio lançado por Santana Lopes foi «uma desautorização da liderança». E alertou ainda para o facto de o silêncio de Durão Barroso, perante as propostas de Santana Lopes acerca das candidaturas autárquicas, poder instalar o «pandemónio» no partido. Na sua opinião, o silêncio do líder só pode significar uma de duas coisas: ou «é um convite a que todos os barões tenham ideias sobre os critérios para as autárquicas, o que seria um pandemónio», ou então é só Santana Lopes que pode dar essas ideias e nesse caso «passa a existir uma liderança colegial».
Quanto a Carlos Pimenta, contactado pelo EXPRESSO, manifestou a sua total indisponibilidade alegando projectos pessoais no âmbito das energias alternativas, iniciados há um ano e meio, altura em que terminou o seu mandato como eurodeputado e deixou de ser «servidor público a tempo inteiro». E acrescenta: «Não acredito em misturas de interesses privados e públicos».
Quase ninguém comenta
O evidente acerto de posições entre Santana e Durão, apesar de ter provocado óbvios incómodos a marcelistas e mendistas, além dos barrosistas que nunca aceitaram qualquer cedência a Santana Lopes, não merece, porém, qualquer reacção pública. Leonor Beleza, contactada pelo EXPRESSO, alegou que se tratava de temas que não lhe «despertavam interesse suficiente» para os comentar. Dias Loureiro esteve indisponível para responder às questões do EXPRESSO, tal como António Pinto Leite, Ângelo Correia, Rui Machete, Pacheco Pereira e José Miguel Júdice.
Já Álvaro Barreto viu com bons olhos esta reaproximação e considerou que «tudo quanto sejam reaproximações de pessoas de relevo para o PSD, tendo em conta a situação do partido e do país, são positivas», porém, a propósito do desafio lançado por Santana Lopes, defendeu que «há assuntos que não devem ser discutidos na praça pública. A escolha de pessoas tem de ser feita privada e internamente».
Também Duarte Lima se mostrou satisfeito com a reaproximação e respondeu: «Compreendo a atitude de Santana Lopes num momento em que o partido se está a aproximar de um desafio tão importante como as autárquicas». E acrescentou: «É, aliás, consentânea com a de alguém que foi candidato à liderança do partido».