Jorge Coelho e António Guterres: Governo e PS apostam na antecipação à mudança do PCP
Vários dirigentes socialistas contactados pelo EXPRESSO denunciam um objectivo muito claro: anteciparem-se ao que quer que esteja para acontecer no PCP, insistindo nas políticas sociais para aliciar o eleitorado à esquerda e assim tentar crescer em votos sem perder autonomia. Antes que o PCP mude.
Foi assim nas autárquicas e é assim que as cúpulas do partido pensam continuar a somar pontos nas legislativas. Um destacado dirigente do PS chega mesmo a confessar o verdadeiro e secreto desejo dos guterristas: «O que nos interessa verdadeiramente é que o PCP continue como está».
Empenhados em não dar excessivo realce às mudanças à esquerda, os socialistas não ponderam, para já, repetir a operação de 1995, quando vários membros da chamada ala renovadora do PCP acabaram por ajudar a engrossar a «nova maioria».
Tal hipótese é, aliás, afastada pelo novos «críticos», e as cúpulas socialistas sabem-no. Um destacado dirigente do PS confirmou-o ao EXPRESSO: «Desta vez não se prevê nova sangria para o nosso lado. Os que querem a renovação do PCP, querem fazê-la por dentro, sabem que Cunhal não dura sempre, não estão a pensar em assumir rupturas».
Acautelar o pós-99
Posta de lado a «pesca à linha» dos comunistas descontentes para as fileiras socialistas, a hipótese de uma aliança com um PCP renovado também não merece atenção imediata à direcção do PS. A razão é simples: tendo como certa a morosidade do processo e desconhecendo-se o que quererá um novo PCP, os socialistas observam o vizinho à esquerda cientes de que pouco mais têm a fazer, para já, do que ficar vigilantes.
Depois de 99, o caso pode mudar de figura. Os socialistas confiam que as próximas legislativas os manterão no poder, mas sabem que os anos seguintes serão mais difíceis. A conjuntura económica pós-euro trará novas exigências, a situação social tenderá a crispar-se, o desgaste de uma segunda legislatura far-se-á sentir e, sobretudo se continuarem sem uma maioria absoluta face a uma aliança à direita, o PS dificilmente se aguentará num quadro de fogo cruzado, em que o PCP ajude ao desgaste.
«A atenção devida ao PCP não é só uma questão política. É também uma questão matemática», reconhece um dirigente socialista , consciente da necessidade de não fechar os canais de comunicação com os comunistas. Quem sabe se num futuro mais ou menos próximo o PS não precisará, mais do que precisou na primeira legislatura, do apoio do PCP, consoante o rumo que a direita - cujas movimentações se adivinham mais céleres do que as dos comunistas - vier a tomar.
«Engolir o inimigo»
Mesmo os socialistas mais avessos ao partido de Cunhal reconhecem a necessidade de estar atentos, quanto mais não seja a pensar no pós-99. «Num cenário em que o PS ganhe sem maioria absoluta e contra um bloco de direita, temos de ter um parceiro à esquerda para negociar», reconhece um destacado dirigente do PS.
Mas, além das conveniências conjunturais, o PS guterrista ainda sonha com o imobilismo do PCP. Neste cenário, quer no Governo quer no Largo do Rato acredita-se que o eleitorado de esquerda tenderá a aderir progressivamente ao PS.
Esta convicção leva um ministro e dirigente do PS a reconhecer que o objectivo central é criar condições para continuar a roubar votos ao PCP, pelo menos até assegurar uma maioria absoluta: «A nossa preocupação maior é aprofundar as políticas que podem ir ao encontro das expectativas do eleitorado comunista».
Enquanto as grandes reformas estão à espera dos pactos de regime propostos por António Guterres - que, entretanto, se limitou a entreter a esquerda com promessas de que o Estado-providência será reformado mas não desmantelado -, as áreas suburbanas que envolvem as grandes cidades estarão cada vez mais na mira das visitas ministeriais.
Jorge Coelho, um dos homens de Guterres, tem sido um bom exemplo disso mesmo: mergulha nos subúrbios e fala do que o cidadão da classe média quer ouvir, ciente de que cada vez há menos eleitorado ideológico e de que a base eleitoral do guterrismo tem muito a ver com a aposta no social.
Com essa aposta, o PS espera matar dois coelhos de uma só cajadada: segurar os seus eleitores e aliciar alguns comunistas, continuando a trilhar, sozinho, o seu próprio caminho. Para o efeito, está na calha uma redobrada atenção governativa ao Alentejo - a Pró-Alentejo, entregue por Guterres ao guterrista Carlos Zorrinho, vai mostrar obra antes das legislativas -, ao interior e ao subúrbio.
Se o PCP, entretanto, mudar, é bem-vindo. Mas até pode ser que, antecipando-se aos comunistas, os socialistas já tenham conquistado a maioria absoluta.
Ângela Silva
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Jorge Coelho e António Guterres: Governo e PS apostam na antecipação à mudança do PCP
Vários dirigentes socialistas contactados pelo EXPRESSO denunciam um objectivo muito claro: anteciparem-se ao que quer que esteja para acontecer no PCP, insistindo nas políticas sociais para aliciar o eleitorado à esquerda e assim tentar crescer em votos sem perder autonomia. Antes que o PCP mude.
Foi assim nas autárquicas e é assim que as cúpulas do partido pensam continuar a somar pontos nas legislativas. Um destacado dirigente do PS chega mesmo a confessar o verdadeiro e secreto desejo dos guterristas: «O que nos interessa verdadeiramente é que o PCP continue como está».
Empenhados em não dar excessivo realce às mudanças à esquerda, os socialistas não ponderam, para já, repetir a operação de 1995, quando vários membros da chamada ala renovadora do PCP acabaram por ajudar a engrossar a «nova maioria».
Tal hipótese é, aliás, afastada pelo novos «críticos», e as cúpulas socialistas sabem-no. Um destacado dirigente do PS confirmou-o ao EXPRESSO: «Desta vez não se prevê nova sangria para o nosso lado. Os que querem a renovação do PCP, querem fazê-la por dentro, sabem que Cunhal não dura sempre, não estão a pensar em assumir rupturas».
Acautelar o pós-99
Posta de lado a «pesca à linha» dos comunistas descontentes para as fileiras socialistas, a hipótese de uma aliança com um PCP renovado também não merece atenção imediata à direcção do PS. A razão é simples: tendo como certa a morosidade do processo e desconhecendo-se o que quererá um novo PCP, os socialistas observam o vizinho à esquerda cientes de que pouco mais têm a fazer, para já, do que ficar vigilantes.
Depois de 99, o caso pode mudar de figura. Os socialistas confiam que as próximas legislativas os manterão no poder, mas sabem que os anos seguintes serão mais difíceis. A conjuntura económica pós-euro trará novas exigências, a situação social tenderá a crispar-se, o desgaste de uma segunda legislatura far-se-á sentir e, sobretudo se continuarem sem uma maioria absoluta face a uma aliança à direita, o PS dificilmente se aguentará num quadro de fogo cruzado, em que o PCP ajude ao desgaste.
«A atenção devida ao PCP não é só uma questão política. É também uma questão matemática», reconhece um dirigente socialista , consciente da necessidade de não fechar os canais de comunicação com os comunistas. Quem sabe se num futuro mais ou menos próximo o PS não precisará, mais do que precisou na primeira legislatura, do apoio do PCP, consoante o rumo que a direita - cujas movimentações se adivinham mais céleres do que as dos comunistas - vier a tomar.
«Engolir o inimigo»
Mesmo os socialistas mais avessos ao partido de Cunhal reconhecem a necessidade de estar atentos, quanto mais não seja a pensar no pós-99. «Num cenário em que o PS ganhe sem maioria absoluta e contra um bloco de direita, temos de ter um parceiro à esquerda para negociar», reconhece um destacado dirigente do PS.
Mas, além das conveniências conjunturais, o PS guterrista ainda sonha com o imobilismo do PCP. Neste cenário, quer no Governo quer no Largo do Rato acredita-se que o eleitorado de esquerda tenderá a aderir progressivamente ao PS.
Esta convicção leva um ministro e dirigente do PS a reconhecer que o objectivo central é criar condições para continuar a roubar votos ao PCP, pelo menos até assegurar uma maioria absoluta: «A nossa preocupação maior é aprofundar as políticas que podem ir ao encontro das expectativas do eleitorado comunista».
Enquanto as grandes reformas estão à espera dos pactos de regime propostos por António Guterres - que, entretanto, se limitou a entreter a esquerda com promessas de que o Estado-providência será reformado mas não desmantelado -, as áreas suburbanas que envolvem as grandes cidades estarão cada vez mais na mira das visitas ministeriais.
Jorge Coelho, um dos homens de Guterres, tem sido um bom exemplo disso mesmo: mergulha nos subúrbios e fala do que o cidadão da classe média quer ouvir, ciente de que cada vez há menos eleitorado ideológico e de que a base eleitoral do guterrismo tem muito a ver com a aposta no social.
Com essa aposta, o PS espera matar dois coelhos de uma só cajadada: segurar os seus eleitores e aliciar alguns comunistas, continuando a trilhar, sozinho, o seu próprio caminho. Para o efeito, está na calha uma redobrada atenção governativa ao Alentejo - a Pró-Alentejo, entregue por Guterres ao guterrista Carlos Zorrinho, vai mostrar obra antes das legislativas -, ao interior e ao subúrbio.
Se o PCP, entretanto, mudar, é bem-vindo. Mas até pode ser que, antecipando-se aos comunistas, os socialistas já tenham conquistado a maioria absoluta.
Ângela Silva