A TALHE DE FOICE
O grupo da terapia
A pós a apresentação parcial do debate com Álvaro Cunhal e Mário Soares ocorrido quinta-feira passada, a SIC pôs à volta da sua actual super-estrela Margarida Marante três astros jornalísticos de envergadura - Maria João Avillez (cronista de As Décadas do Mário), Mário Bettencourt Resendes (um Mário sem Décadas mas com muitas crónicas) e Vicente Jorge Silva (um crónico tout court, como diria o Mário).
Estava criada a constelação para analisar o debate transmitido minutos antes onde, como frisou Margarida Marante, «não estava ninguém na qualidade de militante de nada». Obviamente. Os astros não militam, gravitam.
Mas o facto é que levaram a sua não militância tão a peito, que nem no jornalismo militaram.
Foi assim que o share do País para ali ligado (que, na SIC, nunca anda abaixo dos 150%) cedo verificou que a anunciada análise do debate era, afinal, um debate de psicanálise.
Daí que todos os presumíveis jornalistas presentes se entregassem, com entusiasmo, não a comentar as afirmações concretas do debate, mas a debater-se para afirmar o que imaginam... sobre o Dr. Álvaro Cunhal.
A coisa era tão esquisita que um desprevenido, que por ali acidentalmente zapasse, ficaria pendurado à espera de perceber por que carga de água a SIC juntara aquela nata toda para fazer um batido sobre Álvaro Cunhal.
Introduzindo cada intervenção com um inevitável «eu acho que», os comentadores, manifestamente, não conseguiam despegar do dirigente comunista.
Começaram como convinha - todos em uníssono a reconhecer «a lealdade, a coerência, a integridade, a coragem e a inteligência» do Dr. Álvaro Cunhal -, posto o que iniciaram a terapia de grupo.
Ou, dizendo por outras palavras, colocaram-se na posição que seria de esperar de quem, incapaz de enxergar a própria menoridade, não consegue vislumbrar nos outros nada mais do que o reflexo da sua mesquinhez.
Pretendendo escalpelizar o que Álvaro Cunhal sente, pensa, acredita; aduzindo razões para o que faz, diz ou cala, os analistas de serviço pintaram um auto-retrato que pôs a nú a pobreza de espírito que se acoberta sob as suas mediáticas aparências.
Pode parecer incrível, mas nem por um momento, nem por um minuto sequer, algum deles se questionou sobre a sua capacidade - para já não dizer legitimidade - de assim tão despudoradamente se arrogarem o direito de julgar uma figura que, quer queiram quer não, é uma das maiores do nosso século.
Quem são Margarida Marante, Maria João Avillez, Mário Bettencourt Resende e Vicente Jorge Silva, para ajuizarem, não as ideias, mas a pessoa de Álvaro Cunhal? Que pensamento político produziram, que intervenção social tiveram, que causas superiores defenderam, que autoridade intelectual possuem, que superioridade moral têm, para falar de um homem incontornável na História contemporânea?
Como já alguém disse, quem não é capaz de discutir ideias, discute coisas; quem não é capaz de discutir coisas, discute pessoas. Foi este o nível do «debate».
A insconciência da nulidade traduzida em arrogância só podia dar no que deu: um insulto para os telespectadores, um atestado de menoridade aos portugueses, uma fantochada pseudo-intelectual bem à medida da SIC. Nada de novo para as bandas do canal de Carnaxide. H.F.
«Avante!» Nº 1250 - 13.Novembro.97
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A TALHE DE FOICE
O grupo da terapia
A pós a apresentação parcial do debate com Álvaro Cunhal e Mário Soares ocorrido quinta-feira passada, a SIC pôs à volta da sua actual super-estrela Margarida Marante três astros jornalísticos de envergadura - Maria João Avillez (cronista de As Décadas do Mário), Mário Bettencourt Resendes (um Mário sem Décadas mas com muitas crónicas) e Vicente Jorge Silva (um crónico tout court, como diria o Mário).
Estava criada a constelação para analisar o debate transmitido minutos antes onde, como frisou Margarida Marante, «não estava ninguém na qualidade de militante de nada». Obviamente. Os astros não militam, gravitam.
Mas o facto é que levaram a sua não militância tão a peito, que nem no jornalismo militaram.
Foi assim que o share do País para ali ligado (que, na SIC, nunca anda abaixo dos 150%) cedo verificou que a anunciada análise do debate era, afinal, um debate de psicanálise.
Daí que todos os presumíveis jornalistas presentes se entregassem, com entusiasmo, não a comentar as afirmações concretas do debate, mas a debater-se para afirmar o que imaginam... sobre o Dr. Álvaro Cunhal.
A coisa era tão esquisita que um desprevenido, que por ali acidentalmente zapasse, ficaria pendurado à espera de perceber por que carga de água a SIC juntara aquela nata toda para fazer um batido sobre Álvaro Cunhal.
Introduzindo cada intervenção com um inevitável «eu acho que», os comentadores, manifestamente, não conseguiam despegar do dirigente comunista.
Começaram como convinha - todos em uníssono a reconhecer «a lealdade, a coerência, a integridade, a coragem e a inteligência» do Dr. Álvaro Cunhal -, posto o que iniciaram a terapia de grupo.
Ou, dizendo por outras palavras, colocaram-se na posição que seria de esperar de quem, incapaz de enxergar a própria menoridade, não consegue vislumbrar nos outros nada mais do que o reflexo da sua mesquinhez.
Pretendendo escalpelizar o que Álvaro Cunhal sente, pensa, acredita; aduzindo razões para o que faz, diz ou cala, os analistas de serviço pintaram um auto-retrato que pôs a nú a pobreza de espírito que se acoberta sob as suas mediáticas aparências.
Pode parecer incrível, mas nem por um momento, nem por um minuto sequer, algum deles se questionou sobre a sua capacidade - para já não dizer legitimidade - de assim tão despudoradamente se arrogarem o direito de julgar uma figura que, quer queiram quer não, é uma das maiores do nosso século.
Quem são Margarida Marante, Maria João Avillez, Mário Bettencourt Resende e Vicente Jorge Silva, para ajuizarem, não as ideias, mas a pessoa de Álvaro Cunhal? Que pensamento político produziram, que intervenção social tiveram, que causas superiores defenderam, que autoridade intelectual possuem, que superioridade moral têm, para falar de um homem incontornável na História contemporânea?
Como já alguém disse, quem não é capaz de discutir ideias, discute coisas; quem não é capaz de discutir coisas, discute pessoas. Foi este o nível do «debate».
A insconciência da nulidade traduzida em arrogância só podia dar no que deu: um insulto para os telespectadores, um atestado de menoridade aos portugueses, uma fantochada pseudo-intelectual bem à medida da SIC. Nada de novo para as bandas do canal de Carnaxide. H.F.
«Avante!» Nº 1250 - 13.Novembro.97